A questão da pertinência da intenção do autor na hermenêutica do texto vem sempre envolvida em polémica e, parece-me, por gosto crítico. Parece-me isso porque não é difícil aclarar a questão e, no entanto, temos preferido exacerbar posições.
Não se coloca propriamente em questão que o autor tenha uma intenção, muito menos que tenha a intenção de fazer uma obra literária. Os anti-intencionalistas ou não-intencionalistas puseram em causa o paradigma, originalmente romântico, de que o crítico era uma espécie de áugure relativamente às secretas e insondáveis intenções do poeta. O crítico intencionalista e o biografista sustentavam-se num estudo pretensamente psicológico para legitimar uma leitura hermenêutica. Quem os combateu afirmou que a intenção não estava disponível para se estudar e quem os combateu não estava preocupado com o significado oculto do texto (se nos centrarmos, naturalmente, em críticos e teóricos capazes). Esses teóricos e críticos anti- ou não-intencionalistas faziam o mesmo que os comportamentalistas ao defenderem que o 'íntimo', o 'interior' da 'mente' não estava disponível para ser analisado. A emergência das duas correntes é até próxima no tempo e no espaço, mas deixo isso aos estudiosos da cultura para não fugir do meu tema.
Uma das reservas mais inteligentes colocadas à crítica do intencionalismo recorre à ironia, como fez Denis Dutton em Arte e instinto. O argumento parece fatal: se conseguimos perceber que há um segundo sentido (o 'verdadeiro') sob o que explicitamente está escrito no texto, é porque acedemos à intenção do autor. Então vejamos: a ironia é uma figura de estilo bem conhecida em que, pela improbabilidade de se tomar a sério o que está explícito, se explora uma hipótese contrária de leitura. A improbabilidade deriva do próprio contexto no qual ocorre a figura. Esse contexto é o livro. Ou seja: é o próprio texto, o livro, a obra, a peça, que nos obriga a pensar ironicamente. A intenção é uma construção textual. A questão não está em saber se o autor tinha uma intenção, claro que a tinha (a intenção de ser autor e de fazer aquela ironia). O ponto está em que essa intenção é uma conclusão que o próprio texto provoca no seu leitor e, portanto, a sua existência na receção depende da maneira como o texto está organizado. Para chegarmos à ironia temos o texto e podemos encontrar-lhe a estrutura, mas não temos a mente do autor para ir lá dentro perguntar se ela pensou numa ironia e, mais, qual o exato sentido que podemos exaurir daquela figura naquele contexto.
O que se torna produtivo é estudarmos como o texto funciona com o leitor, como ele organiza a leitura e o leitor ao mesmo tempo a desorganiza e reorganiza. É a isso que se chama com propriedade a autonomia do texto relativamente às intenções do seu criador. E é claro que esse texto é assim porque de alguma forma o autor o quis (falo de autores competentes).
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