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Evolucionismo literário e intencionalismo

"Procurar por intenções autorais não é portanto uma falácia; na perspetiva evolucionista, é psicologicamente impossível ignorar a potencial capacidade, engenho, talento ou génio que são revelados no discurso e na escrita" (Denis Dutton – Arte e instinto. - p. 294).

"Por exemplo, suponho que é justo dizer que idolatro Anton Tchekov, autor de algumas das peças de história dramática mais pungentes e profundas. Contudo, a minha idolatria não é direcionada a uma causa formal inserida nos textos de Tchekov […/…] tal como a evolução o exige, os meus sentimentos direcionam-se a um certo médico que morreu tragicamente jovem, um homem cujos ossos jazem agora no Cemitério Novodevichy, em Moscovo" (id. – ib. – p. 295).

Estes são dois exemplos do anti-intencionalismo de Dutton. Creio que é o ponto mais fraco da sua teoria e da sua argumentação e nem mesmo penso que uma leitura evolucionista da criação literária, ou da comunicação artística, obrigue a isso.

Como se vê pela primeira citação, Dutton mantém o mesmo erro de astigmatismo dos seus antecessores. Ele diz que "procurar por intenções autorais não é portanto uma falácia" mas argumenta afirmando que é impossível ignorar o talento revelado "no discurso e na escrita". Faz, portanto, equivaler, engenho e intenção. Tirando a afirmação genérica e óbvia de que o autor, em princípio, tem a intenção de o ser (e para isso nem sequer é necessário falarmos em literatura – embora possa haver obras artísticas que não tinham à partida esse fim), não vejo como se pode fundamentar essa relação entre engenho e intenção. Os anti-intencionalistas o que desmontam é que a obra deva ser compreendida a partir de uma intenção autoral. Essa intenção é estabelecida geralmente a partir de fora e funciona, portanto, como hipótese não literária que o leitor especializado só deve confirmar. Mas o que Dutton descobre, como ele próprio afirma, é "no discurso e na escrita". Pelo discurso de um autor ele vai percebendo que há génio, habilidade, enfim, qualquer outra dessas palavras que são – neste contexto – equivalentes (ainda que muito diferentes umas das outras). Porque se vão somando frase a frase, texto a texto, capítulo a capítulo, as descobertas do leitor especializado, que as descobre conforme vai percebendo a estrutura da obra, os artifícios com que as dificuldades para a instaurar foram superadas, etc. Então quer dizer que Dutton não descobre uma intenção mas sim uma série de caraterísticas textuais e estruturais que ele valoriza como leitor. Claro que, se o escritor não tivesse intenção de o ser, nem sequer havia obra. Monsieur de La Palice não diria melhor. Mas Dutton devia ir além disso. Devia pelo menos reconhecer as consequências da sua própria frase ("são revelados no discurso e na escrita") e a evidente articulação da frase com o anti-intencionalismo.

A segunda passagem é um exemplo dos fracos argumentos que, de vez em quando, assaltam a sua obra, tirando isso inteligente. Ele diz que idolatra um determinado autor dramático pelas peças "pungentes e profundas". Mas diz também que essa idolatria não é dirigida ao conjunto de caraterísticas que, nas obras, lhe permitiram perceber que se tratava de peças pungentes e profundas. Idolatra, como se fosse um necrófilo, certos ossos do cemitério russo de Novodevichy. Como os ossos não escrevem e os ossos do escritor estão na sua escrita, o que ele idolatra não estará, certamente, num cemitério, mas nas obras. Ora é o centramento do estudo na estrutura (e portanto nos artifícios) da obra que faz nascer a idolatria – senão Dutton iria idolatrar todos os médicos que morreram jovens na Rússia.

Outro ponto fraco da argumentação de Arte e instinto é o dos plágios. Alguns casos famosos de plágio são chamados para discutir o problema da autoria e do autor real, pré-textual ou o que lhe quisermos chamar desde que não seja o textual. Aproveitando-se de exemplos em que os defeitos dos plágios não foram notados a tempo (o que não abona muito a favor dos estudiosos que se dedicaram à questão) o autor vai mais contra do que a favor da sua posição intencionalista. Porque os traços mal imitados vieram a ser descobertos (e por eles se descobriu que havia fraude – em pinturas e em música). Significa isso que um olhar atento à obra (à estrutura artística e a alguns dos pormenores dela) é que provou a falsificação. Portanto os traços que estavam ali correspondem aos sinais de que se forma a imagem do autor textual, aquela que vem do que vemos nas obras e não do nosso conhecimento pessoal sobre a biografia do artista. Afirmar que há pessoas que dão muito dinheiro por um original não justifica nada, pois aí o que está em jogo é um valor de mercado, que iconiza as fontes tal como um crente beija uma pedra na qual um dia se terá passeado uma santa ou um rei. Se é ou não por qualidades estéticas intrínsecas que um quadro é valorizado, isso não constitui objeção ao anti-intencionalismo, porque justamente o investidor quer apenas saber (seja de que forma for) se o quadro é original para estar seguro do valor monetário investido e do seu crescimento – e não me parece tão garantido que, em certas sociedades fora da Europa, ou em certas culturas populares, o 'original' seja um valor estético ou de mercado. Se os plágios de Van Meegeren, por exemplo, fossem tão bons assim, ou melhores que outros originais, se se tornassem por isso famosos, portanto muito procurados, eles seriam mais caros que os originais de Vermeer. Mas aí estaríamos perante obras de arte e não meros plágios: obras que por alguns traços identificáveis tinham melhorado o próprio modelo. Se, como assegura Dutton, a arte é apreciada como demonstração de habilidade (portanto como demonstração de aptidões para a sobrevivência e a reprodução), nesse caso o plágio mais enganador devia ser igualmente apreciado e bem pago pelos colecionadores.

O plágio prova, portanto, a existência do autor textual e, mais do que ele, os heterónimos – cuja consideração fazia falta na obra de Dutton. Fernando Pessoa, ao criar os heterónimos, criou um estilo próprio para cada porque por esse estilo (perfeitamente identificável na obra), o leitor apercebe-se da sua individualidade. A criação posterior de uma biografia para cada um visa apenas preencher biograficamente a imagem do autor textual, ou orientá-la. A nossa dificuldade em imaginar uma criação sem autor é que está em jogo aí – por esse caminho, sim, o evolucionismo talvez traga uma perspetiva interessante. Mas dificilmente encontramos traços comuns a todos os heterónimos para além dos que virão das próprias limitações (da enciclopédia, por exemplo) de Fernando Pessoa.

O que principalmente e obrigatoriamente o autor projeta na obra (como tentei mostrar no cp. I de A autobiografia lírica de «M. António») são as suas próprias limitações e os plagiadores são traídos por elas (outro aspeto que Dutton não leva em conta, ao falar do plágio na música, é o da ausência de imperfeições nas reproduções mecânicas, que levaria a desmontar muitos plágios e muita falta de arte. As pequenas imperfeições do homem são também traços estruturais nas suas imitações). Atualmente, as práticas dos DJ's, alargadas para CD's e, portanto, para o circuito comercial dos 'criadores', mostram como a criatividade inserida no plágio ou na reprodução pode ser também uma forma de arte, perfeitamente detetável pelas alterações que se fazem ao original – erigidas em tipos caraterísticos. Elas desmentem os argumentos do professor da Nova Zelândia relativamente a autoridades que sancionaram fraudes-plágios. E faz falta no seu livro, também, uma reflexão teórica sobre o trabalho discográfico dos DJ's, que nem sequer são referidos.

Acho que, em Arte e instinto, esta é uma batalha perdida. E acho que, por exemplo, quando Dutton afirma que admiramos nas obras (também) a habilidade do autor, ele abre caminho à compreensão evolucionista da literatura sem necessária passagem pela intenção do autor. Precisamente porque a habilidade se nota a partir do "discurso e na escrita".

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