O darwinismo tem,
naturalmente, aspetos bons e maus. Pelos aspetos maus vai respondendo a sua
superação; pelos bons o seu aproveitamento no presente e, quem sabe, no futuro.
Um dos aspetos
interessantes no darwinismo, para o qual Popper chama a nossa atenção,
prende-se com o facto de ele nos fornecer uma visão da evolução, desde os micro-organismos até nós, como uma aplicação do método de tentativa e erro.
Um dos aspetos negativos
é a mania de querer explicar tudo o que é humano a partir da nossa história
evolutiva.
Deste aspeto negativo
emergiu uma corrente no entanto produtiva, muito oportuna para os estudos
literários e artísticos. Ela procura compreender a comunicação artística em
função da nossa memória adaptativa, da sobrevivência da espécie e da seleção
sexual. Embora o próprio Darwin reconhecesse os limites da aplicação de uma
leitura evolutiva à arte, demasiado “caprichosa” para se deduzir das leis da
evolução, esta corrente tem-se afirmado e trouxe algum vigor à crítica e à
teoria literárias contemporâneas.
Um dos marcos mais
recentes e mais inteligentes foi o livro de Denis Dutton (The Art Instinct, 2009) já comentado aqui. O livro de
Dutton, como lembra Adam Kirsch no The New Republic, foi muito útil aos seus e nossos intentos de reagir aos excessos do
pós-modernismo, das vagas relativistas e mostrou-nos que há, sim, universais da arte e que o estudo da evolução pode fundamentar isso.
Juntamente com a leitura
evolutiva da literatura – e muitas vezes interagindo com ela – a neuroestética tem-se revelado igualmente produtiva, sobretudo na certificação de realidades
comunicativas e de bases biológicas que as vagas relativistas reduziam ao pó da
sua glória – como se a vida se reduzisse a um mero jogo de palavras.
Como diz Adam Kirsch, no
entanto, a medição da arte pela sua relação com as aptidões para a
sobrevivência não é relevante para a própria arte. Mas pode ser para a teoria
da evolução e de uma outra forma, talvez inesperada.
É que, habitualmente, o
darwinismo e o evolucionismo são vistos como uma espécie de materialismo, que
olha para a nossa história enquanto organismos biológicos. É claro que não vamos aqui discutir a evolução criadora de Bergson,
porque está fora disto, felizmente. O que discutimos é a premissa de que, para
se falar em Darwin e se desenvolver uma teoria da evolução, necessariamente se
põe de lado a espiritualidade. Por isso, espiritualistas e darwinistas se
combatem ferozmente ao longo de extensas partes do mundo como se disso
dependesse … a sobrevivência da espécie. No entanto, há uma questão que talvez
seja útil colocar:
Será que a vida
espiritual do homem não foi nem é decisiva para a intuição e, por aí também, para a evolução? Chegando a um extremo: será que o xamanismo não ajudou, por exemplo, a medicina tradicional? Recolocando a questão no campo literário ou poético (palavra que prefiro): será
que a espiritualização pela arte não é também uma forma de se afinar
instrumentos experimentais, ligados à sobrevivência, regulando-os precisamente
pela vivência espiritual que muitas vezes nos tem ajudado a encontrar respostas
práticas?
Isto não significa reduzir a vida espiritual e artística ao seu interesse para a evolução, significa, sim, aceitar que, mesmo tudo o que nos parece inútil (como muitas pesquisas científicas), é na verdade rentabilizado pelos nossos tentames evolutivos.
Isto não significa reduzir a vida espiritual e artística ao seu interesse para a evolução, significa, sim, aceitar que, mesmo tudo o que nos parece inútil (como muitas pesquisas científicas), é na verdade rentabilizado pelos nossos tentames evolutivos.
Claro que, na maioria dos casos, é difícil provar em que medida a nossa asserção pode ser verdadeira - porque ela não é falsificável sistematicamente. O próprio Popper teria superado essa contradição em A miséria do historicismo. Por outro lado há que testar outra pergunta: será que só o passível de teste científico foi rentabilizado na nossa história evolutiva?
Todo um vasto campo de pesquisa teórica, histórica e mesmo experimental abre-se a partir daqui. Sem cairmos no excesso espiritualista (que se recusa a considerar a vida que Deus nos deu na sua estrutura própria) e sem o recesso evolucionista (que se recusa a considerar que a vida espiritual tenha influência na nossa sobrevivência e no progresso que ela pressupõe). Como primeira tarefa, havia desde já que testar a bibliografia existente colocando-lhe as nossas perguntas - e isso é um trabalho demorado...
Um trabalho demorado que nos tirava fora
da literatura para a maioria dos casos. A literatura somente nos diz que, por exemplo, o dia se saúda
com o teu nome (M. António, Angola: "digo bom dia / ao dia / com o teu nome"). Ao lermos, um balão de oxigénio vem
alimentar a nossa luta pelo futuro. Mesmo sem sabermos explicar.
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