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Gadamer, o som e a ciberpoesia


Em Arte e verdade da palavra, Gadamer fala do som como aquilo que fixa a poesia. É outro dos incontornáveis da arte da palavra segundo ele.  


Como sabemos, esse debate é já antigo. Para alguns, com evidente exagero, a poesia é só ritmo, ou só som. Para outros ela não precisa de nenhum som para ser o que é. Não se torna necessário citar aqui ninguém: lendo, o leitor encontrará exemplos para todos os gostos. 


Gadamer retoma, de certo modo, o tema e é desde logo preciso conceituarmos separadamente «som» e «ritmo». O ritmo, nesta obra de Gadamer, faz parte do que ele chama som - ao contrário do que geralmente costuma conceber-se...


Postas em confronto as suas afirmações com a poesia digital - o que é para mim um método cada vez mais certo para testar os postulados teóricos - talvez à ciberpoesia não se possa aplicar exatamente o que ele diz da relação entre som e obra de arte literária. 


Gadamer fala do som como o que fixa e, portanto, o que une e dá coerência. Aí será talvez o ritmo, quero dizer: eu escreveria ritmo em vez de som. Mas o ritmo, para ele, é uma das componentes do som, como já disse. E o ritmo, tal como o concebo,  não precisa de sons, menos ainda sons verbais. Existe o ritmo dos sons, o da apresentação e duração das imagens visuais, o da movimentação de letras e outros signos na tela, o da voz ou da música (eventual) e o da sintaxe. Enfim, há ritmos e sintaxes ligando os materiais diversos em cada nível. E tais ritmos podem ser diversos também. 


Hoje, de facto, podemos separar a referência, “o sentido”, a imagem (ou a visualização) e o som (imagem sonora), trabalhando-os com desenvolvimentos e ritmos paralelos, independentes. Ritmos que se desenvolvem possivelmente em diálogo (como acontece entre os vários instrumentos no jazz), que interagem, mas que podem ser divergentes ainda assim. 


No entanto, a sua tensa mas intensa e indestrutível ligação era o que Gadamer supunha como fundamento da arte literária (v. a p. 40 da ed. citada nas duas colocações abaixo). Principalmente a referência e o som - dando este unidade ao conjunto - são indissoluvelmente ligados para que se constitua a obra e o seu todo. 

O resultado alcançado com alguns ciberpoemas (poemas baseados num hipertexto ou programação) pode não ser literatura (na conceituação gadameriana) mas é poesia. Poesia na aceção original e fundamental da palavra. E, por esta via também, somos levados a compreender novamente (com nova mente) que é preciso destrinçar as duas coisas – ele não o faz (v. p. 58). 



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