Um dos mitos do pensamento moderno – ou seja: de rutura com o tradicional – é o da hiperestrutura. Uso esse termo provisoriamente aqui, para indicar a crença na possibilidade de uma organização (protagonizada em absoluto pela raça humana, melhor, por uma sua elite) extremamente lógica e eficaz, à qual poucos pormenores escapariam. A palavra que melhor representa o mito é 'sistema'. Em ciência o uso da palavra nem sempre é mítico, pelo contrário – e muito menos indica, ou deve indicar, uma estrutura fechada sobre si mesma, cega e superior ao que a rodeia; mas em política é isso mesmo.
Desconfio da palavra sistema neste contexto – político. Precisamente porque ela pressupõe uma estrutura demasiado organizada e lógica e nunca vi isso funcionar em lado nenhum. Uma das causas do vigor do capitalismo consiste a meu ver em deixar que vários grupos profissionais e sociais, por si, vão fazendo coisas que, no todo e numa estrutura de receção, nos parecem próprias de um sistema hiperorganizado. Os políticos mais avisados apenas aproveitam e, quando muito, fazem circular dentro dos partidos, algumas 'dicas' muito bem conhecidas pela retórica clássica e pelas equipas publicitárias e alguns gestores, que recuperaram a parte mais funcional dessa retórica e lhe juntaram alguns conhecimentos da Psicologia ou, recentemente, das Ciências Cognitivas. O político já não precisa pensar muito nisso nem organiza as coisas assim, parece-me: ele contrata uma empresa de publicidade, consulta-a (para saber como aplicar uma medida difícil, por exemplo), recebe a receita e aplica, ou manda aplicar. Como paga, ficam todos livres de culpa (aí a cretinice moral do capitalismo, que é o seu ponto mais fraco e há de destruí-lo tarde ou cedo).
Uma vez não existindo esse sistema, não há como desmontá-lo. Só o que podemos é ir, nos nossos âmbitos, agindo de forma a abrir a consciência dos outros com perguntas e atitudes criativas, suscitando sentidos críticos e estimulando a imaginação, mas também isso sem dirigir nada a partir de uma superorganização, que logo asfixiaria toda a imaginação, a criatividade e bloquearia o sentido crítico. Numa sociedade, há movimentações, mais ou menos espontâneas e mais ou menos organizadas, que são de abertura e outras de fecho; quando o razoável (e frágil) equilíbrio entre as duas se rompe temos a anarquia ou a ditadura. E por algum motivo ambas sucumbem sempre antes do capitalismo.
Os devotos do mito do sistema (tanto os de esquerda quanto os de direita), uma vez no poder, tentam imediatamente montar outro sistema. Mais apertado, porque se crê que quanto mais controlado maior será a sua eficácia. Em ministérios sensíveis e problemáticos (por exemplo os da Cultura, da Educação, da Ciência e do Ensino Superior, da Economia) isso revela-se um desastre. Não é preciso dar exemplos, porque há muitos, ainda hoje. Alguns desses exemplos acrescentam um paradoxo novo: reivindicando-se de tradições não-europeias (na sua linguagem, que não partilho, europeu significa racional e moderno) procuram aplicar políticas típicas do excesso de racionalização e programação de que sofreram algumas unidades políticas europeias (ou euro-asiáticas) – em particular a França revolucionária, a Alemanha nazi, a Rússia e a China comunistas. Não é de aplaudir…
A função de um ministério, para os intelectuais de pensamento não-moderno, ou tradicional (aí próximo do liberal, que é em outros aspetos o seu paradoxo), parece-me bem mais avisada: coordenar as atividades das instituições, das organizações e das estruturas, procurando hábeis concertações sociais com um mínimo de determinismo, dirigismo, controlo, programação, ideologia – enfim, com um mínimo de 'sistema'. O problema do pensamento tradicional é o da sua tendência para o conservadorismo no mau sentido que essa palavra às vezes assume. Porque geralmente cai na visão rotineira do sistema social e tende, por aí, a não dar a devida atenção a (por isso a não tolerar) inovações, iniciativas imprevistas, reagrupamentos e re-estruturações. É nesse ponto que o pensamento liberal se revela mais adaptado às condições da própria humanidade.
Reconhecendo-se que o sistema social é complexo e aberto, que a inventiva é pelo menos tão importante quanto a organização e a codificação das atividades, a conceção de políticas ministeriais passa consequentemente a ser a de simples coordenação, harmonização ou estimulação de dinâmicas divergentes (conforme as situações). O ministro ideal para isso é o que sabe colocar acima das suas opções particulares o sentido social. Isso implica uma gestão política harmonizadora mas respeitando as contradições que naturalmente se levantam; implica agir segundo um modelo diplomático mas criativo, cujas regras serão as mínimas possíveis e que procura certificar produtos de qualidade sem que isso implique opções políticas e estéticas pessoais. O ministro representa aí, como o rei, o papel do pai que, momentaneamente, age (orienta, ajuda e gere) sem optar, porque um pai não pode optar por um filho em detrimento de outro, tem que dar a todos a mesma dignidade e fazer a todos as mesmas exigências.
A opção contrária, por um setor do pensamento (que é também um setor de interesses) e o consequente uso do poder político para o impor ao todo social, é a responsável pela maioria das guerras do nosso tempo, das ditaduras e dos seus fracassos – em geral sangrentos. É a autora moral da repressão, da guerra e do empobrecimento cultural. Ela visa eliminar a dinâmica social restringindo-a ao extremo para que se instale um 'sistema' totalmente controlável. No bom sentido que a palavra possa ter, é preferível a visão técnica das funções ministeriais: o ministro é escolhido pela competência e humanidade (o humanismo na gestão é também uma questão técnica) na gestão dos 'dossiers', das receitas e das despesas. O que precisa ter antes demonstrado em outros cargos.
Comentários
Enviar um comentário
Comente