São vários, infelizmente, os sinais de um retrocesso antidemocrático no sul de África. A eleição no Rwanda com a muito pouco provável percentagem oficial de Kagamé (um dirigente que parecia querer fazer um país pacífico, livre e sério); as reações à greve na África do Sul (onde o Presidente Jacob Zuma representava uma esperança para os sindicalistas pelo seu passado e por acreditarem muitos sindicalistas no seu discurso populista); a prisão já de 300 suspeitos de incentivarem as manifestações de Maputo – são alguns desses sinais.
Demonstrando uma grande maturidade, o povo angolano concordou com a recente subida do preço dos combustíveis – ou pelo menos calou-se. Digo uma grande maturidade porque sabemos que são preços artificiais, subsidiados fortemente pelo governo e que temos de começar a viver numa economia real. Embora também me pareça que deviam esperar pela construção das novas refinarias para aumentar os preços. Mas o facto é que, mesmo os descontentes, não saíram para a rua a destruir e queimar a propriedade alheia.
Numa situação destas, não se percebe se para distrair uma população que se comportou maduramente e mesmo passivamente (e que, portanto, não precisa de distrações perigosas ou incendiárias), ou se para criar um ambiente favorável ao silenciamento total da Rádio Despertar, um alto quadro do partido no poder convoca uma conferência de imprensa para denunciar gravíssimas atitudes do partido da oposição e dessa rádio. Ninguém viu nem ouviu tanta gravidade em lado nenhum. O alerta foi tão exagerado quanto o tamanho da cadeira onde o alto quadro parecia um miúdo. Mas as suas declarações eram perigosas e desnecessárias – se não fizeram parte de uma campanha visando silenciar uma fonte de informação oposicionista, pois nesse caso passam a ser perigosas e necessárias. Essas declarações vieram mesmo dar um espaço à UNITA na midia que o partido do alto quadro consegue semanalmente que ela não tenha, orquestrando muito bem as cordas do poder e sendo ajudado por alguma ineficácia da oposição. A oposição, caso fosse mais afoita, podia relembrar a autoria moral das agressões e até da morte de oposicionistas recentemente denunciadas, que não se investigou. E devia alertar para o perigo de silenciar-se um órgão de informação declaradamente oposicionista – apelando ao nosso sentido de liberdade. Ainda não o fez com acutilância, apesar de Alcides Sakala ter produzido uma declaração retoricamente apropriada para a TV Zimbo, que no entanto podia ser mais incisiva.
Esse jogo de declarações e contradeclarações é um dos principais fatores da liberdade de opinião e, nele, um erro de estratégia retórica pode ser fatal – em democracia. O que preocupa é o tom muito pouco democrático das declarações de um responsável pelo partido no poder. Inclusivamente reabrindo velhas feridas ao afirmar com tom ameaçador que foi um dos partidos em guerra que destruiu o país e não a própria guerra em que os dois se envolveram durante anos – guerra cujos autores morais se assumiram como tal no seu início, em 1975. Não é a primeira vez que se nota que, também em Angola, há pessoas e grupos com muita influência que parecem desejar um retrocesso antidemocrático. Parece desejável que o desenvolvimento seja também o desenvolvimento livre da democracia, da opinião, da imprensa. Infelizmente os exageros retóricos acontecem mas, numa democracia, não se reprimem. O próprio povo os afasta (pelo menos enquanto forem exageros, ou seja, enquanto não houver uma realidade social que os sustente). Eles constituem um erro estratégico e, por isso, os partidos no poder fazem mal em lhes dar uma importância que não possuem. Se a deram estando conscientes de tudo o que digo, então é porque se esconde um segundo objetivo – e a experiência nos ensina que não deve ser nada bom.
Para que o leitor menos informado possa aperceber-se do jogo retórico e político, no âmbito do qual estas afirmações de Rui Falcão Pinto de Andrade foram produzidas, deixo notícia de declarações de Isaías Samakuva em Kalussinga e de Alcides Sakala no Huambo.
O primeiro apelou ao civismo das populações, ao respeito pela opinião dos outros e à necessidade de o povo respeitar o governo e vice-versa. O presidente da UNITA, segundo a ANGOP, instou ainda os militantes do seu partido e a população em geral a pautarem-se pela obediência às autoridades e pelo respeito aos governantes. Claro que também terá feito as críticas que um dirigente da oposição faz a um governo. Dessas a ANGOP não dá grande sinal, mas o contraste entre as suas declarações e as acusações que lhe faz o alto quadro do partido no governo é evidente.
Quanto a Alcides Sakala, segundo Ireneu Mujoco em O país, ele queixou-se da intolerância política e de uma série de atentados (incluindo ao secretário-geral da UNITA) realizados recentemente e ainda não investigados nem punidos.
Face a isto, as declarações do alto quadro do partido no governo são de lamentar e não ajudam em nada a sua formação partidária.
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Depois desta postagem, dois factos: a confirmação das notícias sobre uma postura diferente de Jacob Zuma, defendendo negociações com os grevistas e maior atenção à sua condição social. O segundo é mais preocupante e mais lusófono: insistência nos erros, envolvendo um círculo cada vez mais institucional, como se isso trouxesse prestígio a um erro quando realmente retira prestígio às instituições.
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