As questões atinentes ao aquecimento e ao esfriamento globais naturalmente nos preocupam a todos. A uns por instinto de sobrevivência da raça (humana), a outros pelos prejuízos intelectuais em jogo, a uns terceiros pelos prejuízos económicos da despoluição, a outros pela rentabilidade política dos campeões da ecologia, como é notório naquele que aceitou ecologicamente a sua derrota numa eleição que foi ganha por ele.
Tornou-se moda, porque os políticos em geral temem errar publicamente e não leem o suficiente para não errar, tornou-se moda segura afirmar a preocupação com a camada de ozono e lamentar o fracasso de Copenhaga e outros que, eventualmente, se avizinham. Se faz sentido reduzir a poluição atmosférica (e outras), o que é uma questão de higiene e saúde pública; se faz sentido encontrar energias e inventar tecnologias limpas, isso não implica partir para decisões políticas sem as adequadas bases científicas. Mas foi esse o percurso: o carro a puxar os bois.
Como se partiu para o debate político precocemente (demasiado cedo para o que sabe a ciência sobre o assunto) politizou-se o debate científico, para variar com a ajuda dos académicos e outros investigadores que, para se autopublicitarem e quando não por motivos ainda mais reprováveis, aceitaram subordinar a racionalidade científica às conveniências partidárias. Na verdade, quanto mais lemos mais confusos ficamos. Porque há uma série de fatores a intervir no aquecimento / esfriamento (há também sinais de esfriamento: invernos mais frios a norte, anos mais quentes a sul) e cada parte só leva em conta o que lhe convém. Um dado recente, saído na Science, pode servir para experimentar uma contraprova na linha do que propunha Karl Popper para a lógica da pesquisa científica. O dado é simples, inicialmente: desde há 100 mil anos que há idades do gelo com regularidade; mais ou menos de 10 em 10, ou de 15 em 15 mil anos o planeta esfria – e há períodos opostos de aquecimento, mais lentos em geral e mais moderados, mas não obrigatoriamente (o que parece acontecer em função de variações na rotação e órbita do planeta). Assim, como já se tornou conhecimento vulgar, o Saara foi uma floresta e hoje é um enorme deserto. Ora bem: há 11 mil anos que não há uma idade do gelo e, portanto, é bem possível que os fenómenos a que assistimos estejam a prenunciar a próxima. Com aquecimento global? Aparentemente começando por aí. O jogo das correntes marítimas no hemisfério norte, sobretudo entre a Inglaterra e o Golfo do México, transforma gradualmente o aquecimento em esfriamento. Mas tudo é muito confuso ainda, confuso demais para atingirmos uma perceção de conjunto que nos permita perceber exatamente o que se passa.
O dado novo trazido pela Science (eles tiram a informação da Nature geoscience) prende-se com o jogo das correntes no hemisfério norte mas em outra zona geográfica: o famoso estreito de Bering alarga ou diminui a sua extensão (cerca de 80km) ciclicamente. Conforme ele estreita ou alarga aumentam o esfriamento ou o aquecimento. Não se conhece ainda a causa dessa mutação no Estreito mas ela é, por si, causa de aquecimento ou esfriamento em todo o hemisfério norte. Segundo estes últimos dados, a formação e extensão dos lençóis ou blocos de gelo pode fechar ou abrir o Estreito (porque diminui o caudal de água), bloqueando a ligação entre dois oceanos: Pacífico e Ártico. Isto faz com que as águas salgadas e quentes do oceano Atlântico influam mais facilmente sobre o Ártico. Isso traz três consequências importantes: algum degelo, refrescamento das águas do Atlântico e consequente subida do nível dos mares. A moderação do clima frio do hemisfério Norte arrastará consigo o alargamento do Estreito e, por consequência, o esfriamento das águas do Ártico pelas águas frias do Pacífico, fazendo o ciclo repetir-se. Sem qualquer intervenção humana.
Quanto ao hemisfério Sul não tenho notícias. Acho que andaram por aqui sáurios vários quando estávamos ligados ao continente americano via Antártida e parece que resolvemos, a partir do Senegal, o problema da reconstrução do Haiti fazendo a sua população 'retornar' para África, aparentemente seguindo uma maré mítica. Sobretudo para aquela grande maioria que nunca esteve cá. Estamos bem organizados, não haja dúvida. E com isso aumenta, embora não se note, a nossa oculta sabedoria acerca das correntes aquáticas e do aquecimento global.
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