Avançar para o conteúdo principal

Fotografia e ideograma



Ao longo do século XX muitos poetas europeus andaram fascinados com a escrita chinesa, ideogramática, os hieróglifos egípcios e sistemas similares de notação. A fascinação deriva da potencialidade expressiva dos ideogramas e hieróglifos mas de mais alguns aspetos. Um deles prende-se com outra preocupação constante dos escritores de vanguarda ao longo do século passado, que era a preocupação com o movimento; outro com a potencialidade de cada ideograma funcionar como despoletador metonímico de imagens de ação, de conceitos e respetivos entornos teóricos ou filosóficos ou teológicos. Alguns destes aspetos atiravam-nos para anseios estéticos hoje realizados pelas novas tecnologias e pelo que se chama poesia virtual, ciberpoesia, tecnopoesia, poesia cinética, enfim, poesia produzida e partilhada por computador. Outros nos podem levar a reinterpretar a nossa própria escrita, os nosso alfabetos ('ocidentais') e muitas outras práticas tradicionais em comunidades onde predomina a transmissão oral e icónica.

Os desenhos na areia do leste de Angola dão exemplo de hieróglifos efémeros que vinham cumprir a mesma função. A mulher que encomenda ao escultor um homem segurando dois peixes numa das mãos e voltando a casa encomenda-lhe um ideograma, que vai funcionar como tal quando oferecer a peça ao marido.

Em resumo, em todas as práticas ideogramáticas – que hoje as novas tecnologias nos permitem projetar a três dimensões e numa interatividade intensa – o que temos é uma imagem que dá sinal de um conjunto de imagens e de um pensamento que a envolve e se aplica a muito variadas situações. Para mim, o que há de 'mágico', sublime e profundamente artístico na fotografia pode exprimir-se explorando vários aspetos por assim dizer técnicos: a maneira como se trabalhou a perspetiva, o enquadramento; o que na imagem funciona como uma espécie de moldura interna (quando há); o jogo de cores; o jogo de luz e sombra; as ambiguidades através da fixação de traços em perspetivas e instantes em que a nossa perceção pode recebê-los de mais do que uma forma. Etc. Mas isso é uma prosa muito longa. O que há de 'mágico', sublime e profundamente artístico na fotografia vem-lhe de ela funcionar como um ideograma, um dito, um provérbio, um mantra, um insight, uma kharja, uma lápide. A partir da imagem que ela nos comunica podemos ficar a vida inteira pensando e escrevendo. Essa é a fotografia artística, melhor dito, poética.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Plínio Palhano

Plínio Palhano é um desses extraordinários criadores pernambucanos cuja obra fica mal conhecida fora de um círculo ou circuito estrito. Desde poetas como Carlos Pena Filho, ou Alberto Cunha Melo, ou Ângelo Monteiro e Lucila Nogueira, até este artista plástico a arte e a literatura de Pernambuco, particularmente de Olinda-Recife, continua a constituir uma experiência instigante para estudiosos e apreciadores. Talvez recursos como a Internet estejam subaproveitados por alguns destes criadores artísticos. Atualmente foi colocada em rede uma mostra significativa, que vale mesmo a pena visitar, de quadros de Plínio Palhano. Para ela remeto os visitantes do blogue. É só clicar em Plínio Palhano