Está ainda pouco estudada, sobretudo para os não-brasileiros, uma geração pernambucana – talvez a última a definir-se geracionalmente. É conhecida como a geração de 65 e agrega personagens, obras, performances muito diversas. É, portanto, uma geração heterodoxa, multímoda, pluridisciplinar também – nisso antecipando o que se iria seguir. Muitos são os nomes associados a ela, como Alberto Cunha Melo, Ângelo Monteiro, Marcus Accioly, Maria de Lourdes Hortas, Paulo Brucsky (talvez o menos geracional), Tereza Tenório, vários outros nomes que agora não recordo e os que recordo citei por ordem alfabética.
Construiu Lucila Nogueira, ao longo dos anos, uma já longa obra enquanto poetisa (é também ensaísta e professora universitária), principalmente em verso. Também nos seus livros encontramos o cariz heterodoxo, heteróclito e heterogéneo da geração. Vivem eles entre o épico, o lírico e o dramático – predominando os dois primeiros modos.
Um dos mais recentes livros publicados intitula-se Tabasco e centra-se na América Latina, particularmente no antigo México e vizinhanças a sul. Editou-o em Paraty a Selo Off Flip no ano passado (creio estar o selo associado ao famoso festival internacional de poesia). A obra é estimulante para a crítica e a teoria literária, inserindo-se numa das linhas da sua autoria.
Talvez a primeira impressão do leitor seja a de uma cascata de frases atiradas pela janela (página), que nos ofuscam, deixando-nos algo perplexos, com a tal ruga na testa e a passar a mão pelo queixo. Só depois de lidas todas as páginas com atenção, retendo os fios de sentido que ligam e religam os fragmentos projetados sobre o nosso campo visual, é que percebemos que há até um percurso narrativo, que o poema não é só uma lírica de tons épicos mas também uma viagem e um macrotexto.
A disposição do conjunto organiza-se em 10 cantos, numa linhagem bem conhecida pelas literaturas lusófonas e que, por exemplo, Ungulani Ba Ka Khosa verteu para um híbrido (épico anti-épico e também lírico) moçambicano: Ualalapi. Não é esta a única semelhança, coincidência, com literaturas africanas lusófonas. Também M. António relata liricamente e em catadupas de imagens uma viagem (até que ponto imaginária) pela América, a do Norte, mas também a América mestiça, híbrida, dos antigos poderes, dos comandantes das guerrilhas, do melting pot que é hoje toda a América mesmo só por dentro, quero dizer, mesmo ignorando por instantes os emigrados mais recentes.
O principal recurso utilizado pelos dois poetas é o da colagem, da colagem em cascata. Isso é possível cada vez mais porque o advento de fenómenos globalizantes com a própria Internet, através da qual vocês estão a ler-me, desenvolveu-nos a prática de interseccionar imagens, fragmentos, unindo-os por fios de sentido momentâneos, alguns mais duradouros, mas em geral efémeros. É, de resto, o que nos acontece no quotidiano das cidades aceleradas, com tráfegos intensos, vidas apressadas, angústias instantâneas por vezes inexplicáveis: vamos apanhando os mais diversos estímulos, em catadupa e simultaneamente, apercebemo-nos de algumas ligações possíveis entre as 'coisas', outras percebemos porque estamos mesmo atentos a elas e, no geral, seguimos dois ou três fios de conduta que se relacionam genericamente com o nosso projeto de vida.
Desenvolvido esse mecanismo psicológico, hoje o poeta pode jogar-nos imagens fragmentárias umas a seguir às outras (com recursos informáticos algumas em simultâneo), sem ter que desenvolver alguma delas, sem ter que nos dar uma ligação explícita entre elas, porque nós apanhamo-las conforme lemos e vamos juntando no cesto, agrupando-as entre o aleatório e os tais fios de sentido, momentâneos ou mais extensos. Isto vem potenciar imenso o método ou processo poético da colagem, muito desenvolvido já pelas vanguardas artísticas do século XX em diversas disciplinas. A leitura efetiva-se, assim, por uma semiose reticular. As sinapses que dão registo ao conteúdo podem ser quaisquer umas, sendo no entanto que a sua definição determinará (minimamente que seja) um perfil semiótico e diacrítico.
No caso de Lucila Nogueira e de Tabasco há dois ou três liames recorrentes: o mítico, o espiritual, o mágico, a migração hiperbólica do «eu» (os deuses me continuam em Pomona), mesclada com breves instantâneos autobiográficos que nos dão sinal do percurso narrativo que estrutura subterraneamente esta lírica de tons épicos e arremessos iniciáticos. Tal como n'Os lusíadas a viagem começa a meio, mas neste caso do meio para o regresso, enquanto Camões vai do meio da ida para o início, depois para a previsão de um futuro histórico-mítico e finalmente para o regresso. Percebe-se que aqui o sujeito lírico é perturbado na sua viagem por telefonemas, preocupações, passagens de avião, dois dias de avião, retorno ao quotidiano do Recife, atribulado por um incidente que não se descortina aqui mas talvez em outra obra (talvez em Casta maladiva). A imersão no presente-passado histórico-mítico mexicano (contraposto ao presente-futuro histórico-mítico de Camões) é assim interrompida mas depois de se dar uma fusão essencial entre ambiente, história, mito, espírito, magia, diversão, amor, natureza – uma cópula cósmica operada a partir do sujeito poético, o operador da trama que o transcende.
Para quem se interesse em conhecer melhor a obra – vale a pena – a morada da editora é a seguinte: Selo Off Flip Editora L.da, CP 74901, 23970-000, Paraty, RJ, Brasil. Seguramente o preço de capa será mais baixo do que a viagem do livro até Angola, Cabo Verde, ou Moçambique, ou Portugal, ou São Tomé e Príncipe (para já não falar de Timor). Aproveite e mande vir mais dois ou três que, provavelmente, pagará o mesmo.
Boa leitura!
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