A instauração e quase perpetuação do realismo em Angola teve por base uma sedimentação do legado clássico europeu (ut pictura poiseis – como a pintura, a poesia).
Esta afirmação pode ser chocante para quem pensa que a literatura angolana começou em 1949 ou 1950 e que, para trás, havia umas tentativas infelizes, diletantes e esparsas. Mas não foi assim, nem o nosso século XIX foi isso. O problema da realidade e da racionalidade não se colocou nas poucas obras que nos vieram de trás, principalmente do século XVII e principalmente não se coloca nos vários níveis de composição textual e paratextual da História general das guerras angolanas, de Cadornega. Esse é um problema que vem com o século XVIII, o Iluminismo, o Racionalismo, o Neoclassicismo. Que, sendo originalmente europeus, tiveram uma expressão – ainda que minoritária e restringida a uma pequena elite – tiveram expressão na literatura brasileira. Por aí, tanto quanto pela presença entre nós de D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, nos veio um sedimento clássico não reconhecido mas que funcionou, subliminarmente, quase até hoje.
A História de Angola de Elias Alexandre da Silva Correa, português do Brasil, é já um sinal da passagem a um novo paradigma. A vivência, no solo angolano, de vários exilados da Inconfidência Mineira teve também consequências culturais e literárias que não podemos reduzir à permanência de quase um ano (permanência e morte) de Inácio José de Alvarenga Peixoto. Trata-se de um dos neoclássicos brasileiros, nascido no Rio de Janeiro em 1744, mas que falece em Ambaca em 1793. Tal como ele, muitos dos indiciados na revolta mineira vieram para Angola. Uma vez aqui, rapidamente foram absorvidos pelo meio, pela estrutura colonial e não só, assumindo postos de relevo para a organização da 'província'. Com eles terá vindo, naturalmente, a sua cultura neoclássica.
A par, tínhamos aqui o rigor do ensino dos jesuítas e, já nesse tempo, da nova retórica racionalista, bem desenvolvida pelo Pe Teodoro de Almeida. Em termos literários e retóricos, os ensinamentos do Pe António Pereira e de Verney pontuavam a favor dos novos cânones. Eles se fazem sentir nos livrinhos publicados por Joaquim António de Carvalho e Menezes e por Manuel Patrício Correia de Castro, os dois mais eminentes intelectuais angolanos de que temos conhecimento nos princípios (ainda 'clássicos') do século XIX em Angola. Esse classicismo, junto à forte presença de uma bibliografia romântica moderada (com Chateaubriand à cabeça), levou ao sabor a clássico de muitos dos poemas românticos de Maia Ferreira – curiosamente manifestando-se menos em Arsénio de Carpo (no Dedo de pigmeu).
No século XIX a leitura dos clássicos continuava a ser feita com vigor e frequência, pelo que se lê nos nossos ultrarromânticos. Não admira. Na Europa, 'centro do mundo civilizado', eles estão presentes até hoje e, muitas vezes, onde menos se espera…
Horácio, Quintiliano, Filinto Elíseo, a Marquesa de Alorna, os épicos brasileiros, José Agostinho de Macedo, os dois primeiros livros de poemas de A. F. Castilho, junto ainda com algum racionalismo do século passado, são presenças bibliográficas por várias vezes e por várias fontes atestadas entre nós nesse tempo. Como já escrevi acima, Chateaubriand, o romantismo cristão e moderado, com pudores e cautelas, a retórica de Villemain – um dos melhores comentadores de Chateaubriand, que via nos autores da Antiguidade greco-latina um compromisso entre aquilo de que se reclamava o romantismo e aquilo de que se reclamava o neoclassicismo; enfim, os textos mais clássicos ou classicizantes de Garrett e de Alexandre Herculano formavam uma mentalidade que, não sendo já neoclássica também não seria, pelo menos na prática, hostil ao legado clássico. Mais tarde esse legado vem ligar-se com a estética naturalista, representada nas nossas bibliotecas do século XIX por Júlio Lourenço Pinto; positivista, representa por Teófilo Braga e a sua História do romantismo em Portugal; e de um Sampaio Bruno inicial, representado pela Geração nova e pelo Brasil mental. Algumas destas obras estavam assinadas por pessoas tão importantes para a literatura, o jornalismo e a educação como Alfredo Trony e Joaquim Eugénio de Salles Ferreira – cujas biografias precisam ser tornadas públicas. Na poesia, o parnasianismo de Pedro Félix Machado repõe também um rigor aparentado ao clássico e a sua biblioteca (os livros que leu) devia estar bem recheada das recuperações do racionalismo e da afirmação do parnasianismo na segunda metade do século XIX na Europa e no Brasil.
Este classicismo também está presente no discurso poético de Viriato da Cruz. Isso vê-se pelo tipo de discursividade – bem concatenada, lógica, com sequências racionalmente programadas. Pela reserva (também política, é certo) em face de crenças populares, alegoricamente rentabilizadas. Mesmo pela progressão dialética dos raciocínios implícitos de cada poema. É da nossa urbanidade novecentista que vem essa componente do nacionalismo literário angolano. De uma amálgama particular que nos conduz à expressão 'neoclassicismo angolano' – ainda que ela nomeie mais uma vertente subjacente que uma escola afirmada.
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