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Anarquismo, individualismo e descondicionamento social


Os ensaístas anarquistas, os conservadores, os da nova direita francesa, todos apresentam uma caraterística comum, que é a de não criarem um sistema propriamente, uma ideologia. Por consequência não têm nenhuma grande obra onde sistematicamente se demonstre a ideologia, a sua oportunidade, a cronologia para a implementação do sistema, como fez Karl Marx. 

Isso é um bom sinal, porque a política não pode ser pensada como num laboratório. O seu caráter assistemático é uma garantia de autenticidade e aplicação às circunstâncias da vida real. Por essa razão, ser anarquista ou conservador, hoje, não é o mesmo que tê-lo sido em 1900 ou em 1950. Como as tradições, essas escolas de pensamento político são integradoras em função das adaptações às circunstâncias. O que as guia são princípios e valores que depois se aplicam aos diversos momentos, como os provérbios se aplicam às diferentes situações.

De entre essas teorias, ou visões, não ideológicas, parece-me útil fazermos uma primeira divisão entre as descondicionantes e as condicionantes. Os ensaístas políticos conservadores são geralmente pessimistas; isso leva-os a escreverem no sentido de condicionar o nosso pensamento numa direção concordante com os consensos sociais quando estes, por sua vez, estão estruturados sobre lições tiradas da experiência e sobre a erudição que os liga a uma tradição política e socialmente considerada válida, cordata, moderada. Os anarquistas e liberais (no sentido radical da palavra) servem de exemplo para exercícios de descondicionamento.

É claro que não podemos reduzir as respetivas obras a uma dicotomia, mesmo esta. Por exemplo ser conservador antes da 'era Reagan' implicava ser descondicionante, no caso descondicionar o pensamento costumeiro da esquerda americana bem comportada, politicamente correta e profundamente idiota e superficial, que no entanto constituía uma franja significativa do eleitorado e da militância do Partido Democrático. Esse partido estava esgotado de ideias naquele tempo, era redundante e não tinha resposta para os fracassos e o desgaste causados pela experiência do poder. O neo-conservadorismo dos EUA foi a resposta – inicialmente nem sequer ligada ao Partido Republicano. Hoje, em 2026, vemos que se tornam cada vez mais nítidas essas conclusões: o Partido Democrático esvai-se nas malhas de grupos, grupinhos e oradores de esquerda radical, por sua vez presos a causas discutíveis e que não geram votos suficientes para tomar o poder democraticamente (não por acaso são candidatos que apresentam um perfil - até na forma de vestir - moderado, de senhores bem comportados, iguais aos de jovens gestores, que venceram as poucas eleições que venceram; além disso gerem poder e influência com discrição, com tato, embora não pareçam abdicar dos seus princípios e valores: o grosso do eleitorado não é radical e há que satisfazê-lo). 

O anarquismo, pelo contrário, como nunca foi nem será poder, está sempre numa atitude de descondicionamento. Mas não só por esse motivo. Um dos valores reiterados por muitos teóricos e propagandistas do anarquismo é o da pessoa (eles tendem a chamar-lhe indivíduo, mas parece-me que seria mais apropriada a palavra pessoa). O conservadorismo, por seu turno, por mais que nutra (e nutre) respeito pela pessoa humana, tem sobre esse princípio um valor acrescentado e superior que se prende com o bom senso, os cânones coletivos, portanto com o que é dominante numa comunidade, sendo a comunidade percebida pela tradição, como algo que se prolonga no tempo estabelecendo continuidades que nos fornecem um corpo de costumes e tendências de pensamento que nos orientam – que, por isso, conservamos e atualizamos.

A mesma relação do indivíduo com o Estado, que expõe Emma Goldman no ensaio fundamental «O indivíduo, a sociedade e o Estado», acaba sendo assim a relação do anarquismo (ou das doutrinas descondicionantes) com o conservadorismo. O anarquismo afirma que "o indivíduo é a verdadeira realidade da vida, um universo em si. Ele não existe em função do Estado, ou dessa abstração denominada «sociedade» ou «nação», que não é senão um ajuntamento de indivíduos". O conservadorismo acha que esse "ajuntamento" tem um corpo e uma personalidade próprios a conservar. Daí o que ele traz de coerção, mas também de continuidade, estabilidade, moderação. Face ao conservadorismo, o anarquismo é um verdadeiro exercício de descondicionamento e limpeza mental: "a civilização é o resultado de um combate contínuo do indivíduo ou grupamentos de indivíduos contra o Estado, e até mesmo contra a «sociedade», quer dizer, contra a maioria hipnotizada pelo Estado e submetida a seu culto" (Goldman, 2007: 31). Porém, numa democracia, pelo menos hoje, conta a maioria dos votos... 

Na verdade não será uma luta mas um jogo e esse jogo fundamental, entre coerção e libertação, é que nos faz evoluir. Aí o anarquismo desempenha o papel da ascese quando a pessoa ascende a experiências místicas: ele desmonta os discursos que nos coagem e faz-nos ver cruamente, em direto, o drama humano desenrolando-se. Fá-lo quando nos alerta, por exemplo, para o facto de "o Estado" não ser "mais do que um nome, uma abstração" (infelizmente é mais, é uma realidade opressiva como a própria Emma diz também). "Assim como outras conceções do mesmo tipo – nação, raça, humanidade – ele não tem realidade orgânica. Denominar o Estado de organismo é uma tendência doentia de fazer de uma palavra um fetiche". Isto não implica desconhecer o que nos une enquanto homens, enquanto nação (quanto à raça nada nos une mesmo), mas sim dessacralizar essas palavras, que se reportam a realidades acidentais, não essenciais. "A palavra Estado designa o aparelho legislativo e administrativo que trata de certos negócios humanos – e, na maioria das vezes, trata mal. Ele nada contém de sagrado, de santo ou misterioso. O Estado não tem consciência, não é encarregado de uma missão moral, não mais do que /// uma companhia comercial seria encarregada de explorar uma mina de carvão ou uma ferrovia." Vistas assim as coisas, "o homem, o indivíduo é a única realidade. O Estado é só a sombra do homem, a sombra do seu obscurantismo, de sua ignorância e de seu medo" (Goldman, 2007: 33-34).

Esta consciência anarquista abriu os olhos à própria Godman, tornando-a percursora em vários aspetos (o pacifismo, por exemplo). Um desses aspetos é o da consciência de que nos tornámos meras engrenagens, ou elementos dentro de engrenagens. Ao mesmo tempo essa crítica é percursora e ignora as doutrinas que vinham já dizendo o mesmo. A despersonalização do trabalhador pela mecanização do seu trabalho é precisamente outro aspeto positivo deste anarquismo. A alienação da pessoa relativamente ao que produz é denunciada aqui com toda a pertinência.

Há no entanto lacunas e contradições que deixam muito por explicar. 

Por exemplo, se o Estado é só a sombra do homem, como é que se volta contra ele e se tornam antagónicos os interesses do Estado e os do indivíduo? Goldman afirma lucidamente isso: "os interesses do Estado e os do indivíduo são fundamentalmente antagónicos". Daí que o homem só possa conhecer "a verdadeira liberdade, individual e coletiva, quando se libertar da autoridade e de sua fé nela". 

Daí também que "as perseguições contra o inovador, o dissidente, o contestador" resultem do medo "de que a infalibilidade da autoridade constituída seja questionada e seu poder solapado". Que é o desastre maior ainda do Estado quando ideologizado. Porque a ideologia fornece-nos uma eficiente máquina retórica para desmontar o poder quando está na oposição mas, quando alcançam o poder os representantes de uma ideologia logo se começa a verificar que a ideologia não se concretiza e, nessa altura, entra o Estado, reprimindo para que não pareça que é isso o que está a passar-se. Narrativas como Quem me dera ser onda e O cão e os calús, de Manuel Rui e Pepetela, mostraram (não queriam ir tão longe?) como o poder encobria a desrealização das promessas e dos projetos marxistas; foi uma autocrítica de exceção, porque os autores estavam comprometidos com esse mesmo poder. Mas demonstrou a tese que acabo de expor e que, de resto, li num pensador católico e monárquico britânico.


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