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O bom mito anarquista

"A crescente complexidade da sociedade faz o anarquismo mais e não menos relevante para a vida moderna. É precisamente essa complexidade e diversidade, e acima de tudo sua preocupação central pela liberdade e pelos valores humanos, que levaram os pensadores anarquistas a fundamentar suas ideias nos princípios da difusão do poder, autogestão e federalismo.
O grande atributo da sociedade livre é que ela é autorregulada e "traz dentro de si as sementes da sua própria regeneração". As associações auto governadas serão flexíveis o suficiente para ajustarem suas diferenças, corrigirem-se e aprenderem com seus erros, experimentar novas e criativas formas de vida social e, por meio disso, chegar a uma harmonia verdadeira em um plano humanístico mais alto. Erros e conflitos restritos à alçada limitada de grupos com objetivos especiais podem causar danos limitados.
Porém, as decisões criminais e os erros realizados pelo Estado e outras organizações centralizadas de forma autocrática, que afetam nações inteiras, e até mesmo o mundo todo, podem ter as consequências mais desastrosas.
A sociedade sem ordem, como o significado da palavra "sociedade" é inconcebível. Porém, a organização da ordem não é monopólio exclusivo do Estado. Pois, se a autoridade do Estado é a única garantia da ordem, quem irá vigiar o vigia? O federalismo é também uma forma de ordem que precedeu a autoridade do Estado. Porém, essa é uma ordem que garante a liberdade e a independência de indivíduos e associações que constituem as federações, livre e espontaneamente. O federalismo não é como o Estado, nascido a partir do desejo do poder, mas sim o reconhecimento da inelutável interdependência da humanidade. O federalismo surge dos desejos pela harmonia e solidariedade."

O texto está no 'blog' http://anarquista.no.comunidades.net/ e dá-nos uma visão sensata, creio, do bom mito anarquista – que em grande parte partilho. Mas fica-me sempre uma dúvida, uma dupla dúvida: as leis, o Estado, os mecanismos inibitórios e as ações libertárias, no seu conjunto, não são os mecanismos autorreguladores da sociedade? Com federalismo ou não, não vamos evitar as tentativas de manipulação das instituições e da sociedade no seu conjunto por interesses individuais egoístas e por interesses 'corporativos'. Não há como evitá-lo: o confronto faz parte da vida social. O que podemos é, a cada momento, abrir espaços de criatividade, imaginação, liberdade – sem postularmos modelos ideológicos ou meramente políticos. Resta-nos apenas o quotidiano, viver diariamente a liberdade e afrontar diariamente a coerção.

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