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Anarquismo e monarquia


Estes termos representam conceitos etimologicamente contraditórios. Não sou só eu, porém, que os tenho por complementares.
Aparentemente, a anarquia corresponde a uma ausência de ordem, ordem no sentido de archia – palavra que deu por exemplo arquitetura (arte ou ciência dos princípios), arcano, arqueologia (ciência que estuda os princípios), etc. Monarquia junta à mesma origem a designação de único, tal como sucede em monopartidarismo por exemplo. Quando Salvador Dali dizia que era monárquico de uma maneira morfológica, não falava à toa. Aliás os surrealistas falaram sempre muito menos à toa do que parecia. Ele queria dizer que via a ordem, a organização das coisas, a partir de um princípio, numa linha vertical e não na horizontal, numa total ausência de princípio.
Postas assim as coisas anarquia e monarquia parecem conceções irreconciliáveis. Porém, se nos lembrarmos de que a anarquia diz respeito aos homens e a monarquia é uma visão englobante, onde se incluem o humano e o trans-humano, então ambas as teorias se complementam. Entre os homens não há nenhum que seja origem de poder, que tenha legitimidade sobre os outros para lhes dizer o que devem fazer, substituindo as suas consciências. Daí o sentido de se escolher, através de eleições livres e cíclicas, um Presidente, um governo, um grupo dirigente que são sempre provisórios porque ninguém tem, na verdade, uma legitimação transcendental. Mas no conjunto, para quem tem sensibilidade religiosa, Deus é o único princípio, a fonte de vida e de energia, o arcano e portanto a ordem provem dEle. Uma vez que não O conhecemos, não podemos exprimir por atos de linguagem tudo o que lhe diga respeito, nenhuma organização humana tem autoria ou autoridade que legitime qualquer espécie de poder de consciência sobre os outros homens. Portanto, ser monárquico de uma maneira morfológica implica ser anárquico no que diz respeito à conceção da ordem entre os homens. Este ser anárquico não é um ser desvairado como julga o senso comum, mas aquele que, posto perante a transcendência do único princípio, entende sem falar nem mandar a ordem das coisas de tal forma que não é necessária nenhuma ordem para que viva em sociedade sem ferir os outros. Esse é também o símbolo da Cruz: uma linearidade horizontal cruzada com a linha vertical, uma anarquia cruzada com a divina monarquia.
É uma grande abstração, podem-nos dizer. Talvez, mas aconselho-vos a tentarem viver de maneira a que a ordem exterior se torne desnecessária, desnecessária porque descobrem essa outra ordem das coisas que não fere nem agride os outros seres humanos e os outros seres vivos. Por uma progressão de consciência chegaremos então a uma sociedade anárquica, neste bom sentido que a palavra pode ter. Assim definida, a anarquia é um estado mental de extrema lucidez e que implica um total descondicionamento face a crenças, doutrinas, ideologias, face a tudo o que a sensibilidade e a razão, juntas, desconhecem (não face a tudo o que não conseguem definir, mas face a tudo aquilo de que nunca se apercebem por mais que ouçam falar). Nesse instante a monarquia funcionará e só por isso é que a anarquia será possível.

Comentários

  1. http://www.nucleos-fasp.blogspot.com.br/2012/11/o-rei-anarquista-edward-foi-chamado-de.html

    http://www.nucleos-fasp.blogspot.com.br/2012/11/anarquismo-em-poucas-palavras.html

    http://www.nucleos-fasp.blogspot.com.br/2012/09/o-rei-anarquista.html

    http://www.nucleos-fasp.blogspot.com.br/2012/08/o-anarquismo-e-os-seus-pricipes.html

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