Avançar para o conteúdo principal

Emma Goldman: contradições e fraquezas

O estimulante ensaio de Emma Goldman «O indivíduo, a sociedade e o Estado» serve também para exemplificar algumas das fraquezas e contradições do anarquismo. Na postagem anterior apontei uma delas: conceber-se ao mesmo tempo o Estado como uma sombra do homem e fundamentalmente o antagonista do homem. A resposta anarquista a essa objeção, no caso de Goldman, seria fraca e sintomática.

Ela baseia-se ainda no mito rousseauniano do bom selvagem. Para mostrar que o anarquismo é uma realidade natural e que o Estado é uma invenção forçada ela perde algumas linhas a reedificar e resumir o mito na sua versão de comunismo primitivo. Aí ela confunde núcleos familiares e indivíduos livres até desses núcleos, "livres e iguais" e solidários espontaneamente. A imagem é a de seres humanos vivendo sós ou com pequenas famílias, que se entreajudam, se protegem mutuamente mas deixam a cada um as decisões acerca da sua vida. Claro que isto nunca existiu. Por algum motivos os povos, mesmo antes do Estado existir, chamavam a si próprios 'homens' e aos outros uma infindável lista de sinónimos para 'bárbaros', 'selvagens', enfim, quase homens. Não foram só os gregos que inventaram palavras como essas. Os bantos são os homens; os umbundos são os homens; os povos que já não se adjetivaram como homens, excluindo os outros, imaginaram-se como veículos de passagem a um mundo superior, mais evoluído, extraordinário, para o qual tinham de levar os outros (por isso tinham de convertê-los, trazê-los à civilização, libertá-los, etc). Porque o egoísmo dos homens, em grupo ou sozinhos, é tão natural quanto a solidariedade, ou mais. E quanto mais só mais egoísta se torna, logicamente, uma pessoa – como sabem os psicólogos e as pessoas que se tornam companheiras de parceiros que viveram sozinhos muitos anos. Ao contrário do que postula Goldman, é bastante provável que o Estado começasse por surgir para que as pessoas se protegessem do egoísmo das outras. A arqueologia e a história nos demonstram que, desde que houve homens, houve guerras, tanto quanto amor, houve roubos, apropriação abusiva de bens comuns ao mesmo tempo que, por parte de outros, contenção e respeito. Essa dualidade tensa e dinâmica infelizmente nos define, em comum com várias espécies animais e nos faz avançar apesar de tudo. O que sucedeu ao Estado sucede sempre que os seres humanos criam uma instituição com fins benéficos: tanto 'bons' quanto 'maus', tanto boas quanto más atitudes terão lugar nessas instituições, dependendo da correlação de forças na sociedade e da personalidade das pessoas mais influentes na instituição. Vejam o caso do futebol: ele surge integrado num conjunto de exercício que foram criados para ocupar, desenvolver e dar uma adolescência saudável aos jovens da elite inglesa; e transformou-se numa expressão, cada vez mais violenta, de egoísmos e tribalismos (urbanos) vários. Com o Estado é provável que tenha sucedido o mesmo e que o egoísmo de que muitos se queriam proteger tomasse também conta do projeto social que é um Estado organizado. Feito isso é que se abusa dele como se abusava antes da força própria de um grupo e da desorganização dos outros. De maneira que o Estado e a sociedade organizada passam a ser o palco da luta entre 'bem' e 'mal', que antes se desenrolava 'diretamente' entre 'bons' e 'maus'. O egoísmo das pessoas passou para o egoísmo dos corpos sociais, das famílias, dos grupos de interesses – e realmente só um personalismo lúcido, impiedoso na sua lucidez, permite rebater os condicionamentos e a confusão mental sobre os quais os grupos de interesses raptam, literalmente, a nossa vontade e existência em seu proveito próprio.

Tal como os homens e os grupos, também o Estado e os sistemas políticos tendem (tão naturalmente quanto o seja o impulso anárquico) para a sua perpetuação. Mais ainda: os raros instantes da história dos homens em que eles agiram livremente e numa cooperação espontânea foram breves e tiveram por sequência a instauração de Estados autoritários – como aconteceu na Rússia com Lenine e Trotsky e depois Stalin, que se limitou a afinar (portanto a piorar) o aparelho repressivo já montado. Por este motivo é que não se realiza o anarquismo em parte nenhuma: porque ele nem sequer pode (para continuar autêntico) defender-se, não pode criar um sistema de defesa eficaz face aos ataques dos outros grupos e Estados.

O próprio anarquismo, descondicionante à partida, se tornou uma doutrina, passou a fazer parte do "labirinto das doutrinas" que Emma Goldman, com toda a razão a meu ver, aponta como obstáculo à progressão do homem no sentido de uma liberdade consciente. E veio a ser (já o era em Goldman) uma doutrina social. Como é que uma defesa tão visceral e autêntica do individualismo, da imaginação criadora e da atividade libertadora de cada pessoa se transforma numa doutrina social com as caraterísticas, por exemplo, do anarcosindicalismo, concebendo que há necessariamente classes opressoras e classes libertadoras, como se o espírito de classe suplantasse a personalidade e a individualidade? Como pode uma teórica da polítca afirmar que "o poder corrompe e degrada tanto o senhor quanto o escravo" e depois distinguir as duas classes como se os membros de uma fossem necessariamente opressores e os de outra necessariamente libertadores? Há raros momentos em que a autora descortina essa contradição e afirma que a libertação é a de cada ser humano e não de uma classe. Nesse caso não se percebe como e porque se engajou na luta de classes no início da revolução russa.

A lucidez das suas críticas, por exemplo aos intelectuais marxistas do Ocidente (que escondem com cinismo que afinal preferem viver na liberdade burguesa), deixam-nos na perplexidade quando deparamos com estas fraquezas. Se, por um lado, ela foi precursora de críticas e atitudes dignas e lúcidas, foi também, graças às fraquezas e contradições das doutrinas, precursora de atitudes que me parecem bem mais confusas, fugas para passados idílicos aos quais não podíamos nunca voltar porque nem sequer existiram. Um desses exemplos prende-se, precisamente, com a crítica à despersonalização no trabalho, a alienação da relação entre o produtor e o objeto produzido. A solução dela parece apontar para um regresso a uma sociedade não mecanizada, em que se produziria o necessário à sobrevivência e mais qualquer coisa para trocas. Daí uma recusa radical da tecnologia moderna e contemporânea que a torna precursora do pior ecologismo, aquele verdadeiramente reacionário que parece resultar do medo dos adolescentes quando olham para o mundo e, naturalmente, se assustam com a fera, não querendo enfrentá-la. Daí gritam, fazem 'trinta por uma linha', mas na verdade o que desejavam, como os hippies na maioria dos casos, era que não tivessem de enfrentar a fera e criam passados míticos aos quais regressar para fugir a luta que a vida é também.

O percurso das sociedades tecnologicamente mais evoluída nos últimos anos tem mostrado pelo menos duas coisas: por um lado que os trabalhadores, enquanto pessoas, continuam a não contar para nada; por outro que a tecnologia é que nos poderá dispensar (como pensava um assessor do presidente Carter) da mecanização e alienação no trabalho. Os ecologistas mais avisados pereberam já isso e perseguem na procura de 'tecnologias limpas' e na rentabilização dos avanços tecnológicos em favor das pessoas. As pessoas, livres de trabalhos mecânicos, podem orientar-se para atividades artesanais, como vem acontecendo muito no 'primeiro mundo' apesar de os Estados não terem preparado a transição do sistema capitalista anterior para o futuro sistema em que estamos a entrar. Com isso o Estado deixou, mais uma vez, as pessoas desamparadas mas, por força da evolução tecnológica, da consciência de alguns homens e da pressão económica (percebendo o empresariado que a invenção é uma vantagem sobre a concorrência), podemos hoje vislumbrar sistemas de trabalho e sobrevivência nos quais a nossa relação com o que produzimos não será alienante. Sem termos que deixar de fazer a limpeza dos dentes ou de cortar os cabelos como nos apeteça para recusar a sociedade burguesa e poluidora.

Neste sentido, a aposta dos novos países e dos países subdesenvolvidos só pode ser na direção de evitar a importação de tecnologias poluentes e apostar na participação da criação e da aplicação de tecnologias limpas e libertadoras da escravização do homem pelo trabalho mecânica e a exploração desalmada – como sempre é – da mão de obra. Neste sentido, igualmente, a criação de autonomia científica e universitária é fundamental, não só no aspeto institucional mas sobretudo autonomia que nos tira das dependências estratégicas e nos coloca na cooperação estratégica a par e passo com os outros países. Neste sentido, ainda, a recuperação de saberes tradicionais será fundamental se aplicada ao mundo em que vivemos hoje, rentabilizada na produção e na criatividade científicas e tecnológicas.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Assis Júnior e o segredo da morta - relações intertextuais e biográficas

Um dos patronos da literatura angolana e defensor acérrimo dos interesses legítimos dos filhos da terra, António de Assis Júnior foi, nesse contexto, hábil advogado. Ele veio na sequência de outros que se destacaram durante o século XIX. Mas é particularmente sugestiva a sua comparação com outro notável fundador da ficção angolana, Pedro Félix Machado. O advogado e poeta de Sorrisos e desalentos publicou uma obra baseada na defesa que fez do comerciante Eduardo Braga (Minuta do Agravo do Despacho de Pronúncia de Eduardo Braga). Braga fora acusado - segundo parece, injustamente - de estar ligado à famosa revolta do ossoma Ndunduma (Bié, 1890), contra as autoridades coloniais. Assis Júnior também nos legou uma obra resultante, em grande parte, da sua atividade como advogado. Envolvido na defesa jurídica dos filhos da terra expoliados, acabou sendo preso e sofrendo, ele próprio, em 1917, as arbitrariedades que denunciava. Deixou-nos um relato de todo o processo, o qual se tornou mais um...