Gilberto
Freyre tem sido discutido por angolanos mais em função das eventuais relações
com as autoridades coloniais. O mesmo acontece com o lusotropicalismo. No entanto,
a obra freyriana tem um interesse muito mais vasto.
A
publicação de Vida, forma e cor pela é-realizações (São Paulo: 2010), reunindo vários textos dispersos, é uma
demonstração cabal disso.
Uma das vertentes interessantes e comuns a vários textos é a da
modernidade como “continuidade criadora” – assim realçada pelo conciso e completo
prefácio de Ângelo Monteiro. Outro aspeto interessante faz alinhar Gilberto
Freyre com todos aqueles que perceberam (numa altura em que isso não estava na
moda) que nunca haverá políticas científicas, pois a política é uma arte e só
pode sê-lo.
Lembra
também Ângelo Monteiro que o autor, neste livro debruçando-se sobre
arte e artistas (incluindo os da palavra), começou por incomodar, “justamente
como artista da palavra”, aqueles que lhe criticavam a literariedade do estilo
(que devia ser ‘científico’) e aqueles que a não reconheciam por estar a fazer
ciência. Em ambos os casos havia o mesmo preconceito subjacente: a
incompatibilidade entre arte e ciência, que tornaria irreconciliáveis o
discurso da ciência e o poético, literário ou simplesmente artístico. A obra e o pensamento de Gilberto Freyre foram também uma luta contra esse preconceito e uma séria tentativa para superá-la pela prática.
Ângelo
Monteiro cita uma passagem sobre esta relação entre arte e ciência na conceção
freyriana. Vou transcrevê-la aumentada e deixar-vos com ela. Antes, porém, quero notar que ele se coloca assim numa linhagem de pensadores lusófonos que defendem
o conluio, a proximidade e a mesma origem para a criatividade científica e artística
(era o caso de Sampaio Bruno, por exemplo).
Segue
a transcrição:
[…] sou dos que pensam que não há fronteiras rígidas entre a região da poesia e a região da ciência. Da ciência criadora, é bem de se ver. Se – para voltarmos às palavras de um poeta que é, ao mesmo tempo, um estudioso do fenôneno poético, Murilo Mendes – a poesia é “força de transfiguração”, também o é a ciência criadora: aquela ciência como que apocalíptica e quixotesca, tantas vezes próxima do ridículo e do absurdo, que é a mais alta das ciências. Apenas não está completa sem a pedestre, a gramatical, a prosaica, a útil, a que lhe faz as vezes de Sancho Pança. Para Ellis [Havelock Ellis, “humanista e cientista inglês e também poeta”], o próprio Darwin – tido por alguns por cientista pedestre – foi um daqueles transfiguradores que tanto por meio de números como de palavras, de imagens como de sons, dão expressão poética à natureza, à vida, ao homem. Pois só um poeta – pensa Ellis – teria sido capaz de, da simples leitura de Malthus, “conceber a seleção natural como a principal força criadora da infinita sucessão de forças vivas”; ou a teoria da pangênese. /// Tanto a poesia como a ciência criadora nos comunicam alguma coisa que é como uma virgindade: virgindade no ver, no ouvir e no pensar. São as duas juntas que desembaraçam o homem de tendência para se tornar convencional ou se endurecer dentro de convenções; para simplesmente soletrar os rótulos em vez de ver as coisas; para simplesmente escutar os ruídos já catalogados do mundo em vez de ouvir as vozes novas dentro e fora dos mesmos ruídos.
(pp.
128-129)
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