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Fernando Pessoa e a Maçonaria em Benguela em 1935


O Jornal de Benguela foi, sem dúvida, um dos periódicos mais prestigiados em Angola e dos que de maior continuidade desfrutou. Foi, também, um jornal de maçons. O que não sabia é que Fernando Pessoa foi comentado nele já perto do fim da vida, a propósito de um artigo seu sobre a lei das associações secretas.


Ao longo de várias décadas sustentou uma secção chamada «Crónica de Portugal». Nos anos 30 do século XX (pelo menos entre 1933 e 1935), ela era assinada por um misterioso "X."

No n.º 10, de 9-3-1935, a pp. 9, a primeira das duas secções da coluna era dedicada ao projeto sobre as Associações Secretas. Afirmava o seguinte (a crónica foi escrita em Fevereiro):

"Nesta carta de Lisboa procuraremos resumir os dois acontecimentos mais importantes ocorridos nos domínios da politica nacional, durante as últimas semanas: a apresentação do projecto de lei relativo às associações secretas e a publicação do livro do Sr. Cunha Leal. Vejamos o que se passou com o projecto de lei sobre associações secretas.

Apresentou-o o deputado Sr. dr. José Cabral com o objectivo de tornar efectivo e regulamentar convenientemente o artigo do Codigo Penal que ao assunto se refere. De acôrdo com o regimento da Assembleia Nacional, o projecto seguiu para a Camara Corporativa a fim desta dar o seu parecer. Estava o caso nêste pé quando o «Diário de Lisboa» apareceu com um artigo, que tem despertado natural curiosidade, e em que o projecto do sr. dr. José Cabral é atacado sem rudeza, embora com energia. Assina esse artigo o sr. Fernando Pessoa e esta circunstancia era de molde a aumentar ainda o sentimento de curiosidade que referimos. Em resumo diz-se no artigo do sr. Fernando Pessoa que o projecto de lei visa a atacar a Maçonaria e que desse ataque podem resultar, para o nosso paiz, complicações sérias de ordem interna e externa. De ordem interna que derivam da obrigatoriedade para os servidores do estado, a ser aprovado o projecto José Cabral, de certas declarações que os filiados não estariam dispostos a fazer; de ordem externa porque sendo a Maçonaria um organismo de feição internacional e encontrando-se os seus filiados na obrigação de mutuamente se protegerem, o caso podeira acarretar uma contrapartida de represalias desagradaveis. Estes pontos essenciais, acompanha-os o autor do artigo de numerosas citações e referencias que documentam o seu saber naquilo que podemos chamar a ciencia Maçonica. Esta não é acessivel aos profanos, e não é facil que todos os filiados a conheçam tão profundamente como o autor do artigo. Sobretudo no aspecto da actividade que aquela organisação tem desenvolvido atravez do tempo, e ainda hoje desenvolve em muitos países da Europa e da America, o sr. Fernando Pessoa alicerça as suas afirmações no conhecimento perfeito da materia que se encarregou de tratar. As suas opiniões são naturalmente, discutiveis; o seu conhecimento da causa é que não sofre discussão. 

Ora sucede que o sr. Fernando Pessoa não é maçon. Ele o diz, e não ha nenhuma razão para deixar de dar credito ás suas afirmações a esse respeito. Pergunta-se: como conhece êle então de maneira tão completa os assuntos que se prendem com a vida e a historia da Maçonaria?

O sr. Fernando Pessoa é escritor. E escritor de raras aptidões, geralmente conhecidas e louvadas. Escritor tão distinto que ainda ha poucos dias o Secretariado da Propaganda Nacional lhe atribuiu o premio de poesia, no valor de seis mil escudos, pela sua obra recempublicada «Mensagem». Nunca se ocupou de coisas politicas; mas as suas afinidades e até relações pessoais recrutam-se todas nas fileiras conservadoras. Como escritor o sr. Fernando Pessoa conhece profundamente a lingua e a literatura inglêsa; escreve-a mesmo correntemente em prosa e em verso, sendo justamente reputados alguns pequenos ensaios da sua autoria sobre poetas e prosadores britanicos. Viveu alem disso muitos anos em Inglaterra e trabalha ainda agora para varias casas inglêsas que teem sucursais entre nós. Ora a Maçonaria é uma instituição de origem britanica, entre inglêses se recruta o mairo numero dos seus filiados e adeptos; ninguem ignora a influencia de que ela dispõe na sociedade e nos meios dirigentes da Inglaterra. Ahi deve procurar-se a razão dos conhecimentos revelados pelo autor do artigo e o fundamento das suas afirmações. 

Respondendo ao sr. Fernando Pessoa, o sr. dr. José Cabral publicou em «A Voz» um extenso artigo intitulado «Chove no templo»; e depois nas colunas do «Diario de Lisboa» inseriu novo artigo onde não são raras as alusões pessoais, algumas delas bastante contundentes, dirigidas ao seu contraditor. Tratando-se dum debate jornalistico travado a volta dum problema de evidente atualidade, compreende-se o interesse que êle tem despertado em todos os meios da capital."

Que o Jornal de Benguela era ligado à Kuribeka sempre ouvi dizer. Não sabia que nesta altura ainda tinham tão forte ligação à Maçonaria portuguesa, como de resto se nota por outras notícias  e tomadas de posição. Uma delas saiu no n.º 13, 30-3-1935 (ano XXIV), na secção «Ecos e Factos»: “São do Sr. Henrique de Paiva Couceiro as seguintes palavras, publicadas no primeiro número da recente revista Actualidade Colonial – “Há quem se queixe de que as Kuribécas (as lojas maçonicas) os impedem de trabalhar. Não creio nisso, porque governei Angola no periodo de mais intensa propaganda republicana e nos seus membros encontrei sempre sincero apoio e franca colaboração. E isto porque eu não fazia politica. Ali éramos todos portugueses” // Num momento em que para melhor gloria de Deus se está fazendo tão intensa campanha contra a liberdade de cada um pensar como entender, as palavras do valoroso caudilho monarquico, que foi um dos maiores governadores de Angola, são tão oportunas como insuspeitas e devem servir de lição a certas alminhas do Senhor…”


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