Geralmente os estudos biográficos procuram uma articulação entre o texto artístico e os factos da vida do autor. Mas pode não ser assim.
Essa articulação pode ser dialética, pode procurar compreender que facto terá levado a um pensamento ou a um sentimento recorrente na obra, mas em geral ela funciona por um pressuposto não assumido, julgo mesmo que não consciente: o de que a relação entre biografia e obra há-de ser de carater analógico na base. Portanto: de que há uma similaridade entre um dado biográfico e um dado artístico.
Ora o pensamento e a criatividade exercem-se por semelhança e por contraste; também o autor pode assumir ou negar um facto e a importância que ele tem - assumir ou negar perante si próprio ou perante os outros.
A retomarem-se as comparações entre biografia e obra literária, parece-me que o estudo deve ser totalmente reformulado para prever relações de contraste e de negação.
Muitos leitores ficam dececionados quando conhecem o 'seu' autor. A deceção vem de ele não corresponder à imagem que fizeram a partir dos seus livros - em geral é o contrário, desmente essa imagem, contraria os valores que o autor textual parecia testemunhar e assumir.
Só uma comparação pelo contraste poderá explicar essa desilusão dos leitores, o distanciamento entre uma biografia real e uma figura textualmente construída.
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