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A entidade 'ocidental'



Há frases que já não tenho paciência para ouvir. Do tipo: "a partir da nossa perspetiva ocidental não será fácil entender o complexo fenómeno" ...de tudo o que julgamos não ser 'ocidental'. Santa paciência! Desconstruam-se sozinhos, porque "a nossa perspetiva ocidental", ou a deles, não é nada, é a visão deles de que essa visão é só deles e que, portanto, não conseguem ver nada além disso, embora vejam isto. 



Em primeiro lugar: que diferença tão significativa existe entre os seres humanos 'ocidentais' e os outros que não lhes permite ver os outros? Não é isso também uma mania de superioridade disfarçada sob a capa de uma aparentemente humilde autocrítica? E, no caso dos intelectuais 'não-ocidentais' que dizem o mesmo, não estarão só a tentar tornar-se indiscutíveis, aproveitando e revertendo a falsa autocrítica dos 'ocidentais'? Houve alguma diferença no processo evolutivo da humanidade que separasse tão radicalmente os seres humanos? Claro que não. Põem-nos somente cortinas de fumaça em frente aos olhos.


Em segundo lugar, o que é isso de 'ocidentais'? Eu também sou ocidental, criado (e, portanto, conformado, formado inicialmente e inicialmente condicionado) numa cidade multicultural, numa praia ocidental (virada para onde cai o sol), na costa-sul da África... ocidental e sei desde pequenino que a Europa existe, que o mundo existe, que os fantasmas e a feitiçaria são maus e não existem mas, apesar disso, funcionam e recorremos a eles para nos sentirmos mais fortes e seguros de nós. 


Conheci razoavelmente algumas zonas do Brasil e de Portugal onde vivi. Tendo vivido muito mais anos em Portugal e descendendo diretamente de portugueses, e sendo naturalmente curioso, conheci mais em pormenor a 'alma portuguesa'. Vi lá feitiçarias e crenças e conformações mentais e coações chamadas consensos familiares ou locais que, uma vez postos na boca de certos intelectuais (ocidentais ou não), a falar, por exemplo, sobre África, tornam-se coisas que, no mírifico planeta 'ocidental', não existem, se existem são resquícios arcaicos de uma antiga presença 'negra' ou, muito menos mencionada, 'índia'. Mas existem sim, que eu vi. Tal como assisti à recuperação de crenças tradicionais, pagãs, mezinhas, medicina tradicional, celtismos e outros modismos que envolvem o inconsciente mais duradouro e profundo dos europeus. Isso tem acontecido mesmo no coração da Europa que dizem ser 'ocidental' e não ter capacidade para perceber os outros. 


Eu sei de muitos países europeus onde os consensos locais são construídos sobre formas de coerção familiares e oligárquicas em plena democracia, fundadas também por vezes em agremiações secretas  como a Opus Dei ou muitas lojas maçónicas. E o que tem isso de tão diferente do genuíno 'banto', 'africano', 'inca', 'précolombiano', précristão e não sei que mais? 
É o mesmo sob formas diferentes. 


Essas oligarquias locais e familiares condicionam e, por vezes, determinam políticas, eleições, decisões nacionais. Muitos dos casos de corrupção, de chantagem política, de conflitos de interesses, de favorecimentos, não são mais - como em África ou no 'terceiro mundo' - não são mais do que a ponta do iceberg de consensos construídos sobre uma verdadeira conspiração de famílias e uma série indeterminada de pequenas e grandes pressões, coerções, que nos obrigam a tapar a panela, xé menino não fala política, vamos calarmo-nos no dia-a-dia para garantir a sobrevivência. 


Depois ouvimos dizer que a governação por consenso (sem referir a coerção que está por traz dos 'consensos' ditatoriais que sustentam muitas ditaduras do mundo) é típica de África. Ouvimos dizer que, para os africanos, a liberdade individual nada significa, ao contrário do que sucede com os 'ocidentais', que tanto a prezam. Que para os africanos a liberdade dos partidos não tem qualquer significado porque não tem relação com as tradições africanas. Que para os africanos o liberalismo se torna impossível e uma imposição impiedosa porque as suas soluções económicas são familiares e sociais, nunca individuais. E dão-nos como exemplo... o Zimbabwe, onde uma minoria derrotada nas eleições se mantém no poder à custa do... consenso que subjuga a maioria que, ou se submetia, ou era esmagada pelo exército e pela  polícia de Mugabe. 


Não posso ter por credíveis académicos que lançam tanto sofisma e lugar-comum para as páginas das revistas 'científicas' como se estivessem a dizer algo comprovado pela mais rigorosa sabedoria e que nunca ninguém teria, nem descoberto, nem posto em causa - exceto alguns horríveis... 'ocidentais', liberais e alguns cínicos capitalistas. 


A governação por 'consenso', a coesão social construída sobre coerções familiares e de grupos de interesse, é típica de todos os meios pequenos. A partir de uma certa grandeza e complexidade social não se consegue aguentar. Estoira de uma forma ou de outra e não adianta querermos voltar atrás porque os vínculos que a sustentavam quebraram-se. E felizmente, na medida em que, ao mesmo tempo, quebrou-se ou diminuiu-se, ou deixou de ser legítimo o poder absoluto dos chefes e dos oligarcas sobre qualquer outra pessoa, que é o que chamam muitas vezes de coesão social, personalidade coletiva e outros eufemismos que nos retiram o direito de sermos pessoas, seres próprios, com personalidades, caminhos e desejos próprios. 


O liberalismo, para dar outro exemplo, rompeu com a tradição monárquica europeia, com a organização da sociedade e da representação típica do corporativismo monárquico, onde o filho do nobre seria sempre nobre e só podia representar os nobres, o filho do sapateiro seria sempre sapateiro e só podia representar os artesãos e os padres teriam sempre gente da família como padres e só podiam representar o clero. Claro, os filhos dos reis alguns deles seriam também reis e só podiam representar a Casa Real. O liberalismo, se na Inglaterra foi surgindo paulatinamente (sem no entanto promover a igualdade, ou mesmo a liberdade para os operários, camponeses, proletários), em toda a Europa teve que se impor para vingar. As eleições vinham depois sancionar o que fora uma imposição, geralmente militar. E a maneira da 'tradição' se resguardar foi entrar nas organizações 'democráticas', ocupar fasquias de poder ali, para depois impor 'consensos'. O mesmo aconteceu no Brasil, onde por exemplo há famílias que se preocupam em ter membros em vários partidos para estarem sempre no poder; e hoje acontece em Angola, acontecendo menos nos partidos haver membros das mesmas famílias porque a oposição não tem chances de chegar ao poder, portanto não vale a pena investir nela. Mas é por isso é que é tão natural alguém entrar para um Sindicato para chegar a Deputado ou a Ministro e não para defender a sua classe (mas defenderá o seu grupo de apoio e a sua família até se corromper para os enriquecer). 


O liberalismo, portanto, foi tão estranho à França, a Portugal, à Espanha e a outros países europeus quanto pode hoje parecer estranho se confrontado com tradições africanas ou précolombianas. Os liberais eram homens que se tinham conseguido desvincular mentalmente das suas condicionantes originais e imaginaram um mundo novo, diferente - por isso estranho a tudo o que vigorava então... no 'ocidente', essa entidade mítica do papaguear académico atual. 


A crença absoluta na ciência (o cientismo) foi também obra de meia dúzia de intelectuais, completamente afastados em relação à mentalidade tradicional, a mesma que ainda hoje, nos países ditos 'ocidentais', leva tantos populares "à bruxa" ou, já globalizados, a um "mestre" que se anuncia nos jornais como "mandinga". 


Se, cada vez que um povo quer ser livre, ou desenvolver-se, olhar para trás e fixar-se no que antes foi, não sai do mesmo lugar. Se um 'ocidental' quer olhar para outra pessoa, também não pode vê-la, nem pelo seu passado, nem pelo passado da outra pessoa. E, para compreendê-la, basta lembrar-se do que é humano, das condicionantes básicas do ser humano, vendo o outro como seu semelhante contemporâneo - analogicamente, portanto. 


Sem isso, realmente, o mundo é um bicho com muitos fantasmas e os 'ocidentais' são entidades muito estranhas, uma espécie de cazumbis, homens transparentes a tal ponto que se tornaram invisíveis.

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