A leitura de um livro de crítica literária de Ângelo Monteiro é sempre uma lição, um estímulo e um prazer. O texto que pode ler em seguida é um comentário ao seu estudo sobre o poeta Jorge de Lima.
Nos
estudos literários perseguimos basicamente dois métodos para garimpar um texto:
no primeiro procuramos explicar (e, portanto, compreender) como ele se
estrutura nas nossas mentes, o que as faz brilhar quando o lemos; no segundo
procuramos exaurir um único ou vários fios de sentido que dele se desprendem
como de farta cabeleira.
Este
segundo método é geralmente o da hermenêutica. O leitor-crítico funciona, mais
do que no papel de tradutor-intérprete (logo, hermeneuta), funciona como
verdadeiro hierofante. Essa tentação, a tentação do hierofante, é na verdade
uma casca de banana onde muitos críticos escorregam, revoluteam feito
borboletas ou se extremam em espalhafatosas piruetas. Principalmente porque
não podemos esgotar os sentidos ao texto, portanto podemos apenas alvitrar que
ele nos permite produzir, em contexto e com razoabilidade, estes e não aqueles
significados. A ignorância deste limite leva a passarem-se os intérpretes a fio de espada uns aos
outros para esconderem os seus próprios deslizes, ou disfarçarem e retorcerem
as partes das obras que os desmentem (por isso dão piruetas).
Há,
porém, um método mais produtivo dentro do que podíamos chamar o trabalho, ou
garimpo, do sentido. Ao invés de tentar fixar uma interpretação, ou de revelar a
mensagem oculta do poema, este funciona como um 'chip' no qual se condensam linguagem, imagem e pensamento. Vai-lhe explorar as potencialidades a crítica filosófica – se não usa
meramente as obras para ilustrar, com flores poéticas, a teoria que defende ou
o sistema que expõe. Recorro a uma metáfora de Álvaro Ribeiro, filósofo
aristotélico português: o poema (a obra, a peça), etimologicamente, é um novelo,
o emaranhado inicial, um magma de sentidos e de apreensões associados de
repente, de través, entrevistos, apenas vislumbrados e por isso propostos assim
no poema. A peça dá-nos uma intuição, trabalhada ou em bruto, mas uma intuição.
Num diálogo profícuo e recíproco o filósofo irá, então, construindo a ‘sua’
verdade ao mesmo tempo em que procura acompanhar o vislumbre do
poeta. Sem deixar de ser fiel à teoria ou visão do poeta, mas sem deixar de ser
fiel ao que lhe parece verdadeiro para além de toda a linguagem ou suposição.
O
crítico-filósofo trabalha, por isso, numa dupla escuta: a do poema (obra) e a
da sua própria intuição da verdade. Este é o método que segue Ângelo Monteiro
nas suas leituras de poesia. A precisão e fidelidade com que o faz é que as torna tão instigantes. Sem deixar de se aperceber dos pontos fracos e
fortes da técnica de cada autor, ele persegue sobretudo esse duplo diálogo
levando a uma reflexão própria mas acompanhada, comendo o mesmo pão do poeta
(ou escritor). A vivência de Ângelo Monteiro é de cariz espiritual e por isso
ele tende a se acompanhar de poetas espiritualizantes ou mesmo místicos. A
fonte da qual emana o cursivo poético, para um filósofo como Ângelo Monteiro, é
essa mesma espiritualidade. Poeta e crítico derivam do mesmo rio de silêncio,
numa poesia e numa verdade que precedem e preenchem a linguagem e a
comunicação. O crítico procura recriá-la num discurso próprio, em que a
reflexão nos conduz à poesia entre e ante vista. Condenado inevitavelmente ao
fracasso se lhe cometemos a função de ser espírito, condenado fica
também o escritor ao recomeço, paciente, qual copista que apura a letra cada
vez mais perfeita em sua beleza. Só num aspeto ele não fracassa: remetendo-nos
a leitura e a reflexão para o silêncio de que derivaram discurso, pensamento e
sentimento.
Num
estudo editado pela Calibán (agora no Rio de Janeiro), Ângelo Monteiro faz isso
com Jorge de Lima. Por via das visões sugestivas da sua poesia, principalmente
da mais metafísica e expectante, mas também amparado na ciência segura do fundo
mitológico da humanidade nos termos em que Jung o percebeu. Aprendemos, com
este estudo reflexivo, que é por essa proximidade e cumplicidade com a origem –
na qual se irmanam o poeta e o leitor – que Jorge de Lima presentifica os arcanos
das nossas visões do mundo. Mundo esse que se transfigura para regressar à sua
própria génese, a do Verbo, que já os antigos egípcios conheciam, pois desde
cedo conceberam que Khnoum, o pai das águas e dos deuses, por impulso criativo,
criara o mundo ao pronunciar a palavra.
(Ângelo Monteiro - O conhecimento do poético em Jorge de Lima. Rio de Janeiro ; Alagoas: Calibán ; Edufal, 2003)
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