Faz algum tempo que não
tomava contacto mais demorado com a poesia de Domingos Florentino. Tanto que
foram saindo vários títulos e não li todos. Pude agora desfrutar da leitura de Vocifuka
colonyañe (o diário da ilha Garças), publicado pela UEA em 2007.
Prefaciado por Akiz Neto, o miolo da obra estrutura-se em dois tomos, sendo que o primeiro subdivide-se em três cadernos. O que faz pressupor, desde logo, duas coisas. A mais específica: estamos perante uma obra com pretensão de totalidade organizada; segunda: que se justifica por isso os índices ficarem no começo dos livros, para irem desde logo orientando a leitura.
A leitura começa por ser orientada no título, escrito em umbundo com tradução – traduversão – em português entre parêntesis. O título remete-nos para uma ave que se traduz por garça. Esse pássaro pode viver junto de águas pouco salgadas mas habita geralmente junto a rios e lagoas, aumentando muito em número na época da chuva. Uma espécie particular, conhecida pelo cancioneiro popular umbundo, é a ‘garça’ que se alimenta de insetos e limpa geralmente a pele dos bois enquanto eles pastam junto a rios e lagoas. Lembro-me de memória destes versos: onhyañe, onhyañe, / vyakanh’ o vava (a garça veio beber água). O termo colonyañe nos remete, portanto, para uma ave fortemente ligada à água, elemento por sua vez conotado muitas vezes com a fertilidade – por óbvios motivos, quer pela chuva, quer pelos rios. O título nos sugere, portanto, que a temática abordada se vai centrar na reprodução, na paixão que leva à fertilidade, enfim no amor. O instinto com que ela vai mexer é o da reprodução, da sobrevivência da espécie, não é o da sobrevivência pessoal, nem o da morte; o sentimento que vai transmitir-nos é o do amor heterossexual. O que não é novo, nem na poesia do autor nem, muito menos, na do mundo inteiro.
Mas o título remete-nos ainda para mais alguns aspetos que no livro se vão desenvolver: a tensão criativa entre duas línguas (portanto, o bilinguismo do autor e da obra e da comunidade em que ambos inicialmente se inserem); os mitos e os instintos da espécie humana; a cultura e a geografia peculiares de uma zona de Angola, representada por uma das línguas (umbundo), que desenvolveu localmente esse fundo mítico e instintivo; a sua interação com uma cultura globalizada, que é a do autor que insere a traduversão do título na capa. Essa interação, que torna criativa a tensão linguística, transforma o português padrão logo na própria capa: em vez de ‘ilha das Garças’ encontramos “Ilha Garças” (elidindo a preposição e o artigo definido: “das”) e, dentro do livro, “Ilha Garças dos voos circulares” – estendendo o nome da ave por um epíteto. Assim prevenidos (espero que não propriamente condicionados, mas apenas avisados), assim prevenidos entremos no miolo da obra e nas impressões e reflexões que, entre outras, nos trará.
Comparando com os primeiros livros de poemas de Domingos Florentino, este caderno mostra uma franca e segura evolução lírica e artesanal. A intensificação metafórica sem perda de tensão significante enriquece o discurso, cujo poder sugestivo cresce igualmente por elisões e processos equivalentes de suspensão.
Ressalta, nesse jogo entre intensificação metafórica e tensão significante, o trabalho criativo – logo, transformador – aplicado a símbolos esculpidos variamente na história da nossa literatura. Por exemplo o da buganvília, tão cara à poesia do Centro e do Sul, como se pode ler em Alda Lara:
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
(Alda Lara, «Prelúdio»)
Ou Pepetela, em O
cão e os calus; ou, ainda e sem esgotar, Paula
Tavares, que publicou um livro de crónicas intitulado O
sangue da buganvília (1988).
A buganvília fica liricamente redimensionada nesta obra, sem se ignorar o que ela antes significou na poesia (literatura) angolana. Aqui dará sinal de esperança criativa (p. 31), ou da realização dessa esperança (pp. 59, 67) – em qualquer das citações acompanhada pelo sema ‘renascer’ e, na última, como em Alda Lara, também associada à mãe (negra, mãe do poeta, mãe-África) e ao regresso.
O primeiro dos poemas em que aparece a figura da buganvília é também o primeiro do livro. O poema, no seu conjunto, evoca a estrutura de algumas peças de João Maimona, pelo uso que este poeta faz da recorrência. Ele começa com uma frase lírica extremamente bem conseguida, uma abertura feliz:
O paraíso sobre os lírios soterrados já se pressentia no repicar dos sinos e na harmonização das margens acidentadas.
No final regressa ao campo semântico do lírio, já transformado:
E descortinar, nas cordilheiras desenhadas ao avesso, nos caminhos soterrados como lírios, as buganvílias por renascer.
O lírio
foi tão glosado pela poesia que se tornou daquelas flores que os leitores
conhecem mesmo ainda antes de verem. Veio da Europa e espalhou-se pela Ásia,
depois por outras paragens. Mas, literariamente, espalhou-se desde cedo por
onde circulassem livros de poesia. Esse lírio acompanha-nos à tumba (soterrado)
de onde alguma buganvília vai-nos fazer renascer ou florir. É o que vai morrer
– connosco. É o que não vamos ser.
Vale a pena acompanhar o percurso dos prefixos nesta pequena
prosa lírica. “soterrados” remete para ‘sub’, “pressentia” para ‘pre’ e
“repicar” para o repetitivo ‘re’; depois temos o ‘a’ de “acidentadas”, novamente
o ‘pre’ de “preciso”, de novo o ‘a’ (de “atentar”), o ‘per’ (de persistência),
o ‘a’ de “assustados”, uma terceira vez o ‘pre’ (“prever”), a seguir o ‘ad’ de
“advento”. Em seguida, a angolanidade contextual torna mais natural o “desaconchegado”, sequenciado por “descortinar” (em ambos os casos contrariando
a palavra); e o sentido original mais forte desse prefixo retoma-se em “desenhadas”, logo se retomando o comum
‘a’ de “avesso”, o ‘sub’ de “soterrados”, para terminar num prefixo que só
tinha surgido uma vez e como sinal de repetição e que, por isso mesmo, ganha a
proeminência: “renascer” (que não é
somente repetir o nascimento mas também ressuscitar, voltar à vida).
Acompanhando a proeminência, trazendo-lhe beleza, fica a buganvília, nesta
semiose oposta (como o prefixo ‘re-’), ao soterrado lírio do desaconchego
previsto, à persistência do susto esvoaçante no avesso dos caminhos.
Assim fica escrito o
primeiro poema do «Prelúdio».
O segundo («A Caminho da Ilha») estrutura-se por uma anáfora. O protagonista da
anáfora é o mesmo do percurso lírico sugerido pela obra, que é também o poeta
(o que faz pensar na Ilha como todo o poema-livro). A
repetição serve para reportar as funções desse protagonista: nomear e proclamar
(“quem contará o teu nome”), conter (“quem sustará o berro das cabras no cio”),
desmultiplicar (“teus sonhos de areia”), estruturar (“quem alinhará teus
cabelos no coro das copas das casuarinas”), reverenciar (“quem beijará o
chão”), totalizar (pelo amor: “quem abarcará inteiro o mar, por tanto
amar-te”).
Se repararmos com atenção, todas elas são funções atribuídas aos poetas, a maioria consensualmente. É o poeta cometido destas responsabilidades que se traduz depois para umbundo, no 3.º poema do «Prelúdio», traduversão da anáfora anterior (e viceversa). E temos aí uma primeira parte de uma simetria impefeita: no título, passa-se do umbundo para o português; no fim do ciclo introdutório passa-se do português para umbundo; retorna-se logo a seguir ao português e, no fim, o livro despede-se com um provérbio umbundo que desmente o nominalismo exposto nos poemas anteriores (v. mais adiante).
Assim ficamos prontos para entrar na peça, no interlúdio e no poslúdio, que pode assumir a forma de paráfrase, de “último clamor” ou de finale. A preparação nos disse, em resumo, que renasceria a buganvíla dos lírios soterrados e que ao poeta cabia cantar esse renascimento amoroso, em Angola, em português e umbundo.
O que vemos desenrolar-se
a partir daqui é uma delicada e sentida operação estética dentro destes
quadrantes e, no plano formal, completamente híbrida (entre verso e prosa,
minimalismo e perífrase, verso curto e verso longo). A palavra umbundo aparece
naturalmente no meio do português, como talvez suceda na própria mente do
autor. É por isso que não se traduz e cabe ao leitor, quando não falante de
umbundo, pesquisar para ir também descobrindo essa língua no seu convívio com a
portuguesa. Pena é que, muitas vezes, o leitor não tenha acesso às traduções,
porque a língua umbundo está pouco digitalizada ainda e não há muitos
dicionários, de fácil acesso, preço e consulta. Porém, agindo assim, o poeta
aumenta a pressão sobre a comunidade literária, e de pesquisa, no sentido de procurar
e propor mais léxico na sua língua natal. É um bom exercício, bem mais
consequente que os daqueles que passam o tempo a apregoar a defesa das línguas
‘nacionais’ mas pouco ou nada fazem para as divulgar.
Não se pense no entanto que, na recorrência do sema «ilhas» e até de excertos de declarações do autor quando do lançamento do livro, não se pense que este se fecha sobre uma realidade particular, obrigando a leitura a circunscrever-se a ela. Pelo contrário: aqui vemos é um universo de referências verdadeiramente universal, onde a cultura e língua umbundo florescem num jogo dinâmico de sugestões que nos levam de Angola a muitos outros países, a vários continentes e tempos, de maneira que o livro se torna, no pleno sentido, universal. No pleno sentido, não só por agrupar engenhosamente um conjunto de referências locais e universais, mas porque está centrado em sentimentos e reflexões que são também os do homem universal, aquele a quem nada lhe é estranho desde que seja humano.
O poema IX (p. 45) dá um exemplo talvez o mais concentrado e explícito deste jogo humano, amoroso, criativo e universal com raiz angolana e umbundo:
Hoje foi o dia de procriar. Do perfume das folhas de onduko e omanda, de ervas, de cinzas, de ventos, de labaredas incontroladas de fogo e fumos, deslizei aves que se perderam verticais, para lá das colinas. Planuras, horizontes e lezírias dos rios. Só assim me achei. Nos circuitos do Universo. Nas infinitas trajetórias visuais. Abertas pelo Huble.
Muitas outras peças podia citar. Acontece que esta abre também
caminho para outro aspeto, que emerge de quando em quando no livro gerando
assimetrias, disfemismos e boa disposição. Refiro-me ao humor que ambiguamente
espreita na frase final da citação. Ele surge principalmente no «Tomo II: o
mar, as coisas e o nome delas» (dedicado às mulheres angolanas por via do
primeiro poema). Ali deparamos com vários nomes (ou evocações diretas) de mulheres e o
humor evoca assim a graça, o chiste, a
‘boca’, melhor o dito, os jogos verbais que não são já os das crianças mas os da
idade da gestação.
Simultaneamente os jogos de palavras, para além de mimarem ou
ironizarem, são outra via de manifestação desta crioulidade verbal, semântica e
simbólica. É muito frequente, com poetas que vivem entre duas ou mais línguas,
que pelo menos uma delas vá sendo ludicamente decomposta e recomposta para
sugerir palavras outras sacadas, como que por magia, do esventramento do
dicionário. Lopito
Feijoo, por exemplo, recorreu a tais processos largamente nos anos 80.
Coincidentemente, num desses poemas o poeta assume o seu
nominalismo (wittgensteineano),
com também explícita referência a Alberto Caeiro e Fernando Pessoa (para além
de Sartre e Simone de Beauvoir). O seu nominalismo subtil é outra faceta da
consciência multilingue que relativiza pelo menos uma das línguas de maior uso.
O processo, no entanto, não fica circunscrito à língua portuguesa, como se pode
ver pelo poema «Titanic» (p. 68) ou pelo poema «Chiteculo» (p. 70) em trânsito
entre umbundo e português.
Não há nisso, não parece haver, um propósito de demolir alguma
língua, mas uma afetividade bem humorada que vai recriando a língua tal como,
por seu turno, faz Mia Couto em Moçambique.
No conjunto, esse «Tomo II» constitui-se por um paradoxo, que é
finalmente o limite do jogo de possibilidades e cruzamentos semânticos. O
paradoxo deriva de a secção terminar com um provérbio umbundo: onduko imomola mwenle. Encontramos aí o
único momento de tradução direta do livro, pois o autor nos dá a sua leitura do
aforismo: “diz-me como te chamas e dir-te-eis quem és, ou como te comportas”.
Conhecemos essa ligação forte que se afirma em culturas
diversas (por exemplo a do Egito antigo e a da maioria das culturas banto), a
ligação irremissível entre nome e pessoa. O autor fecha com ela a secção e o
livro em que o nome se assume como arbitrário. Leva-nos assim, pelas últimas
palavras, a repensar todo o livro.
Postscriptum: lamentável é que a revisora do livro tenha visto o seu nome substituído por outro. Mas disso não teve culpa o autor.
Francisco Soares,
Benguela, 15 de Agosto de
2011.
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