Escritor
de mão cheia, capaz de mostrar ou sugerir pelo estilo aqueles conteúdos a que
se refere, como também de avaliar imparcialmente o nível artístico dos seus
heróis literários, Gilberto Freyre foi um bom crítico literário.
Sendo
nele centrais as preocupações sociológicas e antropológicas, avalia também os
escritores pelo seu trabalho sociológico. Não identifica só visões,
posicionamentos, ideias – como se a literatura se resumisse a ilustrar o
pensamento; também não usa somente a literatura como pretexto para reflexões
sociológicas. Observa como o escritor, por exemplo um romancista, vai
construindo uma proposta sociológica – observação, teoria e descrição de uma
comunidade ou de um país.
Um
dos textos exemplares a este nível é «Interpretando José de Alencar», incluído
na antologia Vida, forma e cor (v.
anterior). Ele vê como José de Alencar, em consciência, constrói uma obra
linguisticamente, sociologicamente e ideologicamente tropical e, para ser mais
específico, lusotropical.
Aqui
se impõe um pequeno esclarecimento. Quase no princípio do texto Gilberto Freyre
explica a sua tese sobre a formação do Brasil. É de lembrar que ele estudava a
presença portuguesa nos trópicos, em particular no Brasil, e achava-a integrada
na presença ibérica na América. De maneira que centrava o seu discurso nas
transformações que os portugueses foram sofrendo em quotidiana interação com negros
e índios e a geografia local até se irem misturando e se criar aquela classe patriarcal que veio a governar
o Brasil tantos anos.
A sua tese, neste âmbito, afirma que a formação do
Brasil, cultural e sociológica, se explica “principalmente como expressões ou
resíduos de uma formação processada antes em torno da família patriarcal e escravocrática
do que em volta do Estado, da Igreja ou do indivíduo”. Continuando limitados ao
país brasileiro, é na Casa-grande e na Senzala, nessa complexa unidade familiar,
económica e social, que se faz o perfil identitário. Daí que Gilberto Freyre
dedique ao estudo da Casa-grande e da Senzala a maioria das suas melhores páginas.
A instituição Família (dentro e à margem do sistema escravocrático), “mesmo
quando o artista ou o escritor brasileiro foi ou é um revoltado contra esses
motivos e essas condições de vida […] mesmo em tais casos o familismo
transparece da arte ou da literatura coloniais, do século XIX e até dos nossos
dias, no Brasil, como a mais poderosa influência à base do que é mais dramático
ou mais patético nessa literatura e nessa arte” (pp. 129-130).
Confrontando
José de Alencar e Machado de Assis, Gilberto Freyre acha que é o primeiro quem mais
imbuído está desse familismo que é o primeiro dos brasileirismos literários, o
fundamental ou fundante. Não partilho deste género de oposições (como a que em Portugal
se faz entre Camilo e Eça, em Angola entre Agostinho Neto e M. António, faz-se esta no Brasil entre Alencar e Machado – são só
dois exemplos). Mas o que me interessa é o estudo literário realiado pelo fundador
do lusotropicalismo. Ele mostra como Alencar vai artificiando (de forma a parecer
natural) a brasilidade nos mais diversos níveis: fauna, flora, paisagem,
culturas, personagens, modas, costumes, mobiliário, até ao formato dos pés de moça.
Como
verdadeiro poeta, Gilberto Freyre observa a musicalidade, o jogo de sons que anima
a frase de Alencar (pp. 139 e 146), a par da cor local do vocabulário
(repetidamente referida). Como verdadeiro crítico sabe e reconhece que Alencar
não foi o escritor de génio que pretendia ser, apesar das virtudes que lhe
aponta (“faltou, na verdade, a Alencar, além do ânimo cearense, nele tão forte,
potência artística: a potência de um artista verdadeiramente criador como
Villa-Lobos na música ou Euclides da Cunha no ensaio” – p. 148). Como se fosse
um teórico da receção avalia também a receção do escritor no Brasil e regista a
frequência e multiplicidade de nomes brasileiros que saíram das páginas do
romancista de Iracema (id.).
É,
portanto, um crítico muito completo este Gilberto Freyre e, sem deixar de viver
pela crítica o lusotropicalismo, não deixa de ser mais do que um lusotropicalista
quando faz crítica literária. É isso e mais alguma coisa, sem contradição mas
sem limitação. Pelo que dele podemos colher mais lições do que as habituais.
Num
momento de hesitação e choque entre relativismos, sociologismos, culturalismos,
esteticismos e impressionismos, o seu exercício crítico parece-me constituir um
exemplo salutar, uma visita a agendar.
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