“O antropologo americano Edwin Embree acaba de
surpreender os seus compatriotas com a descoberta de uma nova raça, que
denominou americana-morena. Os
elementos que contribuiram para ela são sangue de branco, de indio e de negro,
devendo-se a sua iniciação a figuras distintas como Tomas Jefferson e Tyler.
Na América há 12 milhões de americano-morenos, estando-lhes reservado, segundo o professor Embree, o futuro da grande nação.
Isto é só para chocar a vaidade de certos apaixonados americanos de cabelos loiros…”
Na América há 12 milhões de americano-morenos, estando-lhes reservado, segundo o professor Embree, o futuro da grande nação.
Isto é só para chocar a vaidade de certos apaixonados americanos de cabelos loiros…”
(Jornal de Benguela. 272 [23-12-1931] 1)
... Mas não só. E a colocação deste texto aqui, para além da leve ironia com que o fiz, excita várias reflexões. Em primeiro lugar a queixa subtil do articulista relativamente ao preconceito e cânone estético privilegiando os cabelos loiros. Em segundo lugar a reflexão sobre os motivos identitários do articulista ao transcrever a notícia. E daí me abalanço para as outras reflexões.
Em primeiro lugar o referido Edwin Embree (1883-1950). Cresceu ele num ambiente de perfeita e lúcida integração racial e sexual (negros, brancos, mestiços, rapazes e raparigas, estudavam juntos), adotando esse ambiente como traço de personalidade e atuação para o futuro.
A sua afirmação sobre os 'morenos' americanos não é, portanto, despida de intenções morais. Nascido em 1883 (Nebrasca), graduou-se em 1906 em Yale na área de Ciências Sociais, criada 30 anos antes. O seu trabalho de licenciatura (grosso modo estou a traduzir 'major') foi no âmbito das ciências "mentais, históricas e sociais". A partir daí dedicou-se ao estudo comparativo das culturas. O seu interesse pela filantropia levou-o a trocar o cargo de administrador universitário em Yale por cargos nas Fundações Rockefeller e Rosenwald. Uma das marcas da sua gestão do fundo Rosenwald, mesmo após a crise da Bolsa (1929), foi precisamente o estímulo à criação e sustentação de condições de igualdade no Ensino para negros e brancos.
Provavelmente o articulista benguelense terá tido notícia da obra principal de Embree, datada de 1931, Brown America: The Story of a New Race - o que demonstra a atualização da informação no pequeno burgo nessa altura. Possivelmente já teria ouvido algo sobre a atuação de Embree a favor dos negros e dos seus estudos sobre os native americans (equivocamente, na verdade sobre os índios - outro nome equívoco).
Em Dezembro de 1931 (precisamente quando sai esta nota no JB) a North american review dedica algumas linhas ao livro de Edwin R. Embree e em termos parecidos com os do nosso articulista. Resume a tese do sociólogo-antropólogo dizendo que uma nova raça se vem e se virá criando nos EUA, mistura de negros, brancos e índios; prega a boa convivência racial; e define o negro americano como sempre misturado, logo desde o início por mistura entre etnias diferentes e até rivais, até àqueles anos, em que já se teriam misturado com brancos e com índios. É facto: resultaria uma raça 'morena', miscelânea de conteúdos culturais e genéticos que hoje se vê sem dúvida aumentada com as migrações dos 'latinos' (latino-americanos, incluindo brasileiros), de mais mediterrânicos e povos dos orientes (próximo, extremo e também médio) e, finalmente, com mais migrações de europeus e africanos. Já não serão somente os tais 12 milhões que Embree na altura pensava.
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