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Mensagens

Nota evolucionista sobre o Jardim das Estações de Nok Nogueira

Desde o tempo em que os animais falavam sabemos, seguramente, que andavam em grupo. Cada grupo conhecia uma rede de palavras através da qual se definia, se identificava, dentro do grupo e face aos 'outros'. O homem é um ser que deambula mesmo quando sedentário, com a intensidade de um vício, de uma paixão se quisermos ser mais saudáveis. Por andar muito, tinha de organizar a sua apresentação e representação perante os outros e perante si: garantia, desta forma também, quer a coesão do grupo, quer a sua 'autenticidade' - ou seja, particularidade que, destacando-o, justificava uma existência autónoma. Desde que se organizou assim, cada grupo tem algumas pessoas encarregues de, em nome de todos, recontar a história coletiva, trazer o discurso do presente, apontar ao futuro de forma que o grupo possa também seguir coeso na mesma direção, reconhecer-se, identificar-se por esse discurso futurante, quero dizer, nessa rede de palavras organizadas em função de um sentido, um ru...

Tudo isto aconteceu - criatividade em Óscar Ribas - 1

1 Em Tudo isto aconteceu  - livro fundamental para conhecermos a obra toda de Óscar Ribas e o seu tempo - ele nos conta acerca da relação com a composição literária, ou poética, nos primeiros meses depois de a cegueira o tomar completamente: A princípio, ditava o que concebia, quer o que armazenava no cérebro, quer o que obtinha na ocasião. (p. 274) Sobretudo pela construção quer ... quer ,    esse procedimento inicial de recuperação em face da cegueira me parece típico da oralidade. É na oralidade que diseur , ou griot , ou rapsodo , ou ainda o repentista , reproduzem quer  o que armazenam no cérebro, quer  o que de momento lhes ocorre, geralmente em função do público imediato.  Da mesma forma o poeta na oralidade vai concebendo, retendo e reformulando o poema no seu 'interior', até apresentá-lo. Muitos poetas conhecidos apenas no sistema da escrita compõem também dessa maneira, passando ao papel um texto já muito próximo do final. Portanto, e...

Kyandas e sereias e crioulizações encantadas

Kitutas, Kiximbis e Kyandas, segundo os antropólogos e, no nosso caso, particularmente Virgílio Coelho, são seres ou entidades criados por Nzambi, por metamorfose, no mundo primordial e são espíritos das águas.  Ao passo que as Sereias, segundo vários investigadores europeus, seriam seres criados por Deméter, ou pelos celtas antes dela. Ela os criara por metamorfose também, podendo ainda ser criados assim depois de um longo período de enclausuramento, período esse que pode ser visto como iniciático.  A aparência de Kitutas, Kiximbis e Kyandas é, geralmente, humana, ao passo que a das sereias é semi-humana. As sereias, porém, podem surgir na figura de belas mulheres, como as Kyandas no tempo colonial em certas zonas urbanas em que os dois mitos, ou somente os dois mitologemas, se misturaram, num processo comum às mais diversas semiosferas, principalmente quando menos vigiadas. As entidades da zona Quimbundo (ou Kimbundu), Kitutas-Kiximbis-Kyandas, podem assumir, na ...

Universais e padrões artísticos

Prosseguindo na reflexão começada com a mensagem anterior ( post ou  colocação ), passei a questionar-me sobre algo de certo modo oposto à inovação, mas que a torna social: os padrões artísticos, os géneros literários, a memória cultural. E mantive por horizonte as experiências referidas por Levitin e realizadas pela sua equipa de investigadores.  Na segunda metade do século passado e no princípio deste, as ciências humanas – e os estudos literários com particular intensidade – foram dominadas por um relativismo absoluto que, propositadamente, ignorava qualquer atividade científica para não ser posto em causa.  Estudiosos e pensadores como Denis Dutton desmontaram as falácias do relativismo contemporâneo, por exemplo em « Delusions of Postmodernism ». Ele baseou-se muito em dados da Antropologia e, sobretudo, em resultados inspirados pela teoria da evolução. Num dos casos observa, acertadamente, que sempre há receção crítica da arte onde houver arte. Recor...

Como adotamos uma novidade artística?

A mudança de gostos, escolhas, em suma, de prazer estético sustenta em grande parte as transformações literárias. Não parece temerário afirmar isso hoje. Mas há questões que essa recorrência levanta e que não costumam ser tratadas, na teoria literária, ou são tratadas sem se atender aos estudos científicos envolvidos. Por exemplo: quais as condições para que se dê uma tal mudança?  Certamente, uma das condições há de ser a do esgotamento, saturação, dos modelos anteriores e sua mera repetição. Nada mais óbvio. Sendo que o mundo muda constantemente, se os modelos não mudam e as transformações reestruturam as nossas perceções, as obras poéticas (e artísticas em geral) tornam-se obsoletas. Esta uma das razões pelas quais o criador, ou simplesmente o criativo, tem que dar atenção ao seu ‘ouvido interno’, que nos avisa quando o que dizemos ‘não pega’, ou 'já não pega'.  Porém, a introdução de inovações, mesmo num ambiente saturado, não pode fazer-se apresentando-se ...