Kitutas, Kiximbis e Kyandas, segundo os antropólogos e, no nosso caso, particularmente Virgílio Coelho, são seres ou entidades criados por Nzambi, por metamorfose, no mundo primordial e são espíritos das águas.
Ao passo que as Sereias, segundo vários investigadores europeus, seriam seres criados por Deméter, ou pelos celtas antes dela. Ela os criara por metamorfose também, podendo ainda ser criados assim depois de um longo período de enclausuramento, período esse que pode ser visto como iniciático.
A aparência de Kitutas, Kiximbis e Kyandas é, geralmente, humana, ao passo que a das sereias é semi-humana. As sereias, porém, podem surgir na figura de belas mulheres, como as Kyandas no tempo colonial em certas zonas urbanas em que os dois mitos, ou somente os dois mitologemas, se misturaram, num processo comum às mais diversas semiosferas, principalmente quando menos vigiadas.
As entidades da zona Quimbundo (ou Kimbundu), Kitutas-Kiximbis-Kyandas, podem assumir, na figuração, sexo masculino ou feminino - assim como certas entidades brasileiras de provável origem nigeriana. Apesar disso, principalmente em Luanda e próximo de Luanda, a Kyanda é tratada muitas vezes no feminino. O que pode ocorrer em função da dita crioulização de mitologemas e mitos, pois as sereias, nas tradições europeias, firmaram-se com perfis femininos ainda que, inicialmente, se constituíssem apenas como entidades espirituais.
O elemento comum que mais aproxima estas entidades é a água, pelo que podemos classificá-las como entidades da água:
- Kitutas aparecem nas nascentes, rios, lagos, cacimbas, no próprio mar, na floresta e na montanha, em lugares húmidos.
- Kiximbis as acompanham, exceto no mar, a grande água...
- Kyandas as acompanham, primeiro que tudo no mar.
- Sereias também surgem no mar e são frequentadoras de fontes, rios, até lagos, enfim, de lugares onde brota água, onde há água, húmidos.
Entidades aquáticas e com prestações sociais específicas:
- as entidades quimbundo (kimbundu)
- dispensam vida e luz
- trazem fecundidade à mulher
- trazem fertilidade ao pescador ou riqueza a qualquer um
- manifestam-se por nascimentos extraordinários, como de resto sucede em outros mitos bantos (bantu), como o romanceado por Alain Mabanckou, o dos 'duplos'.
- as entidades europeias
- ajudam, em geral, os homens (os seres humanos) e tornam-se, assim, promissoras
- manifestam-se diretamente pelo canto (encanto) atraindo as 'vítimas' para dentro do mar, ou da água.
Ambas mudam o nosso comportamento, cobrando mais tarde seu preço: as entidades quimbundo (kimbundu) levando alguém consigo, geralmente um filho querido; as entidades europeias devorando as vítimas dentro de água, assimilando-as ao seu elemento.
Ambas também surgem ligadas, intimamente, à natureza e à fecundidade. Embora as sereias, nos mitos europeus, em muitos exemplos percam a sua arcaica ligação à fertilidade (ilustrada, no caso romano, com a filiação em Deméter) e, por vezes, até mesmo à água.
Na essência e na origem são figuras idênticas: míticas, mágicas, espirituais, religiosas, ligadas à água e à fertilidade. Embora se tornassem divergentes com as migrações e adaptações a diversos ambientes, elas no entanto se podem reencontrar, quer por etimologia e pesquisa, quer nos meios urbanos em que se misturam e se tornam femininas por recuperarem, intensamente, a sua ligação à fertilidade, à fecundidade, que promovem.
A ligação dos mitos às teorias evolucionistas, em vez de nos conduzir à mera rejeição purista das misturas, explica-nos que o instinto de sobrevivência e de reprodução também operam na arte e sobre mitologemas, organizando-os em função do estímulo, pela beleza, da função reprodutora. Não explicam a beleza - que, aliás, dispensa explicações - mas essa tendência que reúne, em função da fertilidade, mitologemas diversos. Explica, de resto, essas sereias com seios e rostos de modelos vivas que por vezes encontramos nos calendários das oficinas...
Por essa razão desaparece, nos calendários e nas sereias urbanas, a menção à morte, ao pagamento com a vida, que é a outra face da reprodução (pois, para nos mantermos como espécie, desaparecemos como indivíduo), mas aquela, justamente, que o macho e a fêmea se escondem (escondem um do outro), mesmo quando, após o êxtase, parecem cair num torpor profundo que, tal como o gozo, atravessa o corpo todo...
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