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Em Tudo isto aconteceu - livro fundamental para conhecermos a obra toda de Óscar Ribas e o seu tempo - ele nos conta acerca da relação com a composição literária, ou poética, nos primeiros meses depois de a cegueira o tomar completamente:
A princípio, ditava o que concebia, quer o que armazenava no cérebro, quer o que obtinha na ocasião. (p. 274)Sobretudo pela construção quer ... quer, esse procedimento inicial de recuperação em face da cegueira me parece típico da oralidade. É na oralidade que diseur, ou griot, ou rapsodo, ou ainda o repentista, reproduzem quer o que armazenam no cérebro, quer o que de momento lhes ocorre, geralmente em função do público imediato.
Da mesma forma o poeta na oralidade vai concebendo, retendo e reformulando o poema no seu 'interior', até apresentá-lo. Muitos poetas conhecidos apenas no sistema da escrita compõem também dessa maneira, passando ao papel um texto já muito próximo do final. Portanto, esse tipo criativo vai armazenando a sua conceção na memória, de onde a colhe depois para pronunciar e, nesse instante, em função do que lhe ocorre, pode modificá-la ainda, quase no próprio ato de escrever ou dizer.
Quanto ao 'armazenamento', Óscar Ribas reporta uma "retenção de dias, penosamente o obrigando a repetir" (p. 274). O que significa, para esse período, que várias vezes ele ia ao 'armazém' buscar os mantimentos e, portanto, várias vezes podia mexer neles.
Por sugestão do irmão, começou a passar à escrita o que tinha em mente. E aprendeu Braille. Quer dizer que o procedimento anterior, não o tinha por influência de práticas orais, por imersão na esfera da oralidade, ou seja, quer dizer que era um homem da literatura, da escrita, ou da letra. Foi a cegueira que o levou a recorrer, numa fase inicial, a processos compositivos típicos da oralidade.
Supondo, como até aqui, ser Osvaldo o seu alter ego no livro, é de registar que o exercício criativo passava por algo, também, mais forte na escrita que na oralidade. Na oralidade, o autor retém, para depois repetir. Isso não quer dizer que 'armazena', pois a memória (e então essa!) é criativa. Portanto, a cada repetição pode acrescentar o que 'obtém na ocasião'. Se sim, temos uma reescrita. Mas o processo de reescrita, não para aumentar o número de palavras, apenas para caprichar na apresentação das "suas produções o melhor possível", apurando-se "nos retoques", é mais comum e mais intenso no processo criativo através da escrita (v. p. 275). Em vez de recuperar da memória o que já tinha concebido, alterar partes e rememorizar com as alterações, o processo pela escrita leva-nos a escrever no papel e, em função da releitura, riscar, alterar, rabiscar, anotar, passar a limpo em novo papel e reler de novo. O texto a reformular e re-armazenar está visível e não audível, está num suporte intermédio (o papel, ou a tela do computador), que faz de espelho e fixa a imagem.
Perante nova sugestão para emendar e acrescentar, o escritor recusa já: "desenvolvendo-o, estragava". Isso podia suceder tanto no processo 'interior', meramente mental, quanto na re-criação pela escrita. Mas é como que um retorno à oralidade, melhor, à fidelidade ao original que se retém na mente.
Este constante ir e vir, entre suspender a reescrita ou recorrer a ela, também é típico da criatividade literária. Na própria composição de Tudo isto aconteceu se nota, a cada passe. Para tanto, é fundamental um dos traços da personalidade criativa: a flexibilidade no pensamento e no critério. Mesmo a estrutura da obra vai ser flexibilizada e reconhece-se que o seu crescimento passa por isso. Trata-se de uma adaptação, afinal, ao próprio funcionamento da mente, como assume Óscar Ribas na breve e incontornável «Introdução».
Nela o autor descreve, resumidamente, o processo de composição da obra e, dentro dele, o do estabelecimento do título desse "romance autobiográfico", cuja elaboração se adapta ao desfilar da vida e morte suas e de próximos. A obra foi sendo concebida e re-concebida (possivelmente escrita e reescrita) ao longo da vida do autor, desde muito cedo portanto, o que é notável para o que nos prende aqui.
Ela esteve para se chamar Foi assim... - curiosamente uma titulação de Rui Burity da Silva (Lisboa: SEC, 1971). No início, o alcance da estória se resumia à vida de Armando Relvas (e irmão) em Angola, terminando (a obra) com a sua morte. Assim concebida, "enfaixar-se-ia em Quilanduquilo - dramas angolanos".
Não sei como Óscar Ribas escreveu isso. Quilanduquilo publicou-se em 1973, mas com o subtítulo "Contos e Instantâneos". "Dramas angolanos" é o subtítulo de um livro bem mais antigo, chamado Ecos da minha terra. O que torna ainda mais sugestiva esta 'confusão' do autor, num livro que foi dos últimos a publicar, é que Ecos da minha terra ele começou a compor e escrever antes ainda da cegueira e só publicou em 1952 pelos transtornos causados pela doença...
Continuando a seguir as confissões 'genéticas' do livro, diz-nos Óscar Ribas que, "por efeito da extinção de uma outra vida - a de Jorge Relvas", prolongou-se o leque temporário abrangido pela obra. O alongamento se vê como natural, em função dos acontecimentos que mais tocavam o autor, assente "no desenrolar da própria acção" (ou seja: da intriga que escolhera para base da narrativa).
O alongamento lhe trouxe autonomia, relativamente a Quilanduquilo, começando as "memórias" (sem dúvida pessoais) a desmembrar-se "do todo primitivo".
Resumindo, para não baralhar. Houve um "todo primitivo", centrado numa biografia cujo desenvolvimento, porém, graças à "extinção" de uma das personagens, dará origem a duas obras distintas. A segunda, a que se destacou do "todo primitivo", muda de nome e deixará de se encaixar na outra. Em vez de Foi assim..., chamar-se-ia Vidas que passam. E o novo título nos acorda para outra intertextualização (esta, olhando para o passado): Sons que passam, de Tomás Ribeiro.
2 Ao nos falar nisto, Óscar Ribas aproveita para sugerir a identificação com a sua história pessoal e familiar. A conotação dos nomes ficcionais com os reais alimenta e orienta a leitura local, sendo promovida pelo próprio autor, que assegura, ou segura, assim, o seu público imediato - o que prova que a expetativa, o horizonte de receção está presente no próprio processo criativo, assiste ao escritor enquanto ele concebe e reformula a sua obra. Ele concebe e transforma a sua criação numa relação dialética com a intuição que tem das leituras possíveis e a imaginação do tipo de leitores que vão recebê-lo. De qualquer modo, a estória funciona fora disso, fora do circuito local, porque os nomes fictícios e a ficção que os desenha ficam disponíveis com a sua leitura, mas ela é conformada, igualmente, pelo ambiente de receção que resulta da intuição do escritor.
E a estória do título acaba confirmando isso mesmo: por sugestão de Amândio César, o livro acabou chamando-se Tudo isto aconteceu, para dar ao leitor uma imagem imediata e precisa do "conteúdo": um conteúdo autobiográfico resumido só ao que sucedeu na vida do autor. Ele, pelo título, propõe desde logo um pacto ao leitor: o que tens em mãos aconteceu na realidade, foi a minha vida (cf. p. 19).
Referência:
Ribas, Óscar. Tudo isto aconteceu: romance autobiográfico. Luanda: [autor], 1975.
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