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Nota evolucionista sobre o Jardim das Estações de Nok Nogueira


Desde o tempo em que os animais falavam sabemos, seguramente, que andavam em grupo. Cada grupo conhecia uma rede de palavras através da qual se definia, se identificava, dentro do grupo e face aos 'outros'. O homem é um ser que deambula mesmo quando sedentário, com a intensidade de um vício, de uma paixão se quisermos ser mais saudáveis. Por andar muito, tinha de organizar a sua apresentação e representação perante os outros e perante si: garantia, desta forma também, quer a coesão do grupo, quer a sua 'autenticidade' - ou seja, particularidade que, destacando-o, justificava uma existência autónoma. Desde que se organizou assim, cada grupo tem algumas pessoas encarregues de, em nome de todos, recontar a história coletiva, trazer o discurso do presente, apontar ao futuro de forma que o grupo possa também seguir coeso na mesma direção, reconhecer-se, identificar-se por esse discurso futurante, quero dizer, nessa rede de palavras organizadas em função de um sentido, um rumo, uma 'razão de ser' ...autónomo. 

Com o tempo, essas pessoas foram tendo cargos, estatutos, epítetos, cognomes, funções e alimentos diversos. Por exemplo 'poeta nacional', 'poeta do povo' - já para não falar dos 'guias imortais', poetas e políticos muito raros que só aparecem milagrosamente na estória das humanidades, em geral assistidos por kiandas e sereias, assinalados por algum traço psicofísico específico, em geral carimbado por espíritos do povo e da nação, coros dramáticos e épicos e trágicos e cómicos, enfim, todo um estrato social muito marcado pela fantochada, que é a representação realizada por grupos de fantoches.

Os poetas que falam em nome do grupo, que se despojam até de si próprios (como Senghor disse uma vez) para assumirem a voz de todos, reconhecem-se uns aos outros quando grupos (por exemplo nações) diferentes entram em contacto. O reconhecimento tácito se dá porque usam táticas e linguagens parecidas, similares, derivadas precisamente das habilitações necessárias ao seu reconhecimento. Isto para além de costumarem ter aspetos particulares vincados, um olhar fora do comum muitas vezes. Assim acontece também com os filósofos, os ascetas, os músicos e até os etc's.

De modo que, ao se encontrarem dois grupos, duas etnias por exemplo, ou duas nações, eles falam pelos seus poetas apresentando a 'alma' comum, a genealogia comum, o sentido comum que os faz ir em direção ao futuro, geralmente radiante porque desenhado numa folha em branco ou num chão de areia. Isto implica haver então, entre os poetas, um tácito acordo transfronteiriço mediante o qual, cada um falando à sua maneira para marcar a identidade artística do seu povo, falam todos embora de maneira que todos se entendam. O que, por sua vez, obriga os poetas a manterem-se atualizados e a reconhecerem, na respetiva prática artística, os tiques e truques uns dos outros, fazendo sobressair alguns comparticular brilho e notoriedade - os que, nesse momento, vão definir a literatura nacional, ou da etnia, ou do grupo simplesmente. 

Há quem diga ter nascido, na Grécia, a Poesia (ou o Teatro) da máscara do morto que punha momentaneamente o poeta da sua comunidade no momento final. Possuído, sem dúvida, pelo espírito do falecido, ele enunciava todos os feitos que tornaram ilustre aquela pessoa perante a memória coletiva, os traços principais do seu caráter, as ações heróicas em que participou e que protagonizou, etcmaizumavez. E, também maizumavez, fazia-o de forma a que um convidado estrangeiro pudesse compreender e apreciar a beleza, atualidade, humanidade e universalidade do discurso e da personagem. 

Há, então, poetas que não falam de Deus, nem de si próprios, nem do Amor e da amada, enfim, de emoções particulares ou subjetivas. Há poetas que falam em nome do 'povo', 'nós', a 'nação', etcmaizumavez, portanto o seu tema, os seus motivos e os tópicos rentabilizados terão de ser comuns. A voz deles entronca - se não por completo se funda no fundo rumor coletivo que sintetiza as aspirações, as inquietações, as dúvidas, os projetos e as memórias desse todo constituído por uma fronteira semiótica e simbólica vincada pelo nome comum reconhecido ('angolanos', 'africanos', etcmaizumavez). Mas tem de o fazer contemporaneamente, para que se identifiquem as falas de hoje no discurso poético 'nacional' e não se confunda o poeta com a posse da sua boca por um antepassado já distante, que usou uma fala desativada com o passar (ou correr) do tempo. 

A poesia de Nok Nogueira, se tem um traço temático dominante e comum a toda ela, é precisamente uma poesia do coletivo angolano e africano de hoje que se entreolha, se interroga e procura ainda apontar ao futuro. Fá-lo numa linguagem contemporânea: cada vez mais solta (havia alguma rigidez inicial), ondulante, coligando pequenas frases ou versos (antigos com recentes, rígidos com informais), rimas ocasionais, jogos de palavras e aliterações num sopro mais longo marcado pela mancha gráfica na página. 

Ao superar alguma rigidez inicial - própria da disciplina necessária a quem precisava de dominar a palavra e, sobretudo, o vício da palavra pela palavra, ou seja, própria do poeta inicial, iniciando-se - ao superar essa rigidez o seu verso, a sua frase poética tornou-se melódica, musical, apanhando ritmos do quotidiano, da fala nas ruas, nos mercados, na fila do candongueiro, da hiace, dos encontros de ocasião, até do malandro aludindo um rap com bassulas (ou baçulas) de kuduro em cima, porém, de uma língua portuguesa dominada com soberania, sem estardalhaço nem folclore, por experimentação medida - e medida, justamente, por essa mesma ginga com que se expressa, a um tempo, a nossa luta pela expressão e o prazer que temos em lutar assim, ludicamente quando não lubricamente. 

Por esta via dá Nok Nogueira continuidade a uma linha forte no já longo percurso da literatura angolana e da literatura em Angola e das suas oraturas, que é a da poesia tendencialmente épica, no sentido de nacional. Neste caso: em que a afirmação nacional consiste na interrogação do coletivo, do património comum e na pesquisa dos artifícios e dos fios semânticos com que se poderá tecer ainda uma identidade nacional futurante. É, de certa forma (desta forma), a voz do coletivo, do grupo, questionando o próprio grupo e reatando rumos; a memória poética e política da nação momentaneamente impossibilitada mas pesquisando, mesmo assim, um futuro plausível e digno. 


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Curta nota biográfica: 

Nok Nogueira é o poetónimo de  Emílio Miguel Casimiro, nascido em Luanda a 24.12.1983 - em plena guerra civil. Jornalista destacado e de currículo respeitável, atua no panorama da comunicação social angolana. Além da poesia, interessa-se também pela pintura, pelo desenho, pelas Ciências da Comunicação e pela Ciência Política. 









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