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Universais e padrões artísticos




Prosseguindo na reflexão começada com a mensagem anterior (post ou colocação), passei a questionar-me sobre algo de certo modo oposto à inovação, mas que a torna social: os padrões artísticos, os géneros literários, a memória cultural. E mantive por horizonte as experiências referidas por Levitin e realizadas pela sua equipa de investigadores. 


Na segunda metade do século passado e no princípio deste, as ciências humanas – e os estudos literários com particular intensidade – foram dominadas por um relativismo absoluto que, propositadamente, ignorava qualquer atividade científica para não ser posto em causa. 

Estudiosos e pensadores como Denis Dutton desmontaram as falácias do relativismo contemporâneo, por exemplo em «Delusions of Postmodernism». Ele baseou-se muito em dados da Antropologia e, sobretudo, em resultados inspirados pela teoria da evolução. Num dos casos observa, acertadamente, que sempre há receção crítica da arte onde houver arte. Recorre, para isso, aos dados antropológicos recolhidos junto das mais diversas comunidades e que nos reportam uma interação intensa entre as reações do público e a performance do contador de estórias. Primário? Sem dúvida. Porém, continuamos a ser primários, porque há séries e telenovelas cujo terminus é modificado em função das pesquisas de opinião e de mercado e parece que também muitos escritores se deixam condicionar por aí. Naturalmente.

As conclusões a que Dutton chegou coincidem com as trazidas por outras áreas e teorias. Aproveitando as experiências de Levitin com a música, onde ele estabelece variadas relações entre audição de peças musicais e processos neurobiológicos, podemos atingir as mesmas conclusões quanto à universalidade da arte e podemos precisar os mecanismos de receção cultural que gerem a interação com peças originais. O que parece demonstrar a veracidade das afirmações de Dutton em favor do universalismo da Arte e da sua receção. 


Noticiando uma pesquisa recente, o sítio neurosciencenews detalha algo que alguma tradição crítica sempre afirmara: há padrões artísticos universais, seguidos por todas as comunidades humanas e relacionados com 'géneros', 'tipos' ou 'espécies' de músicas definidas em função dos efeitos procurados. Por exemplo a música que se destina à dança apenas tende a ser rítmicamente bem vincada e rápida, com frases musicais curtas, tocadas como se procurando o frenesim. Naturalmente, as canções de ninar tendem a ser lentas e suaves em todo o mundo. Citando ainda:

Além disso, todas as culturas mostraram tonalidade: construindo um pequeno subconjunto de notas a partir de uma nota de base, assim como na escala diatônica ocidental.
A música para terapia, que hoje inunda as redes sociais, tende a usar poucas notas arrastando-as. As canções de amor sobem a variedade, o volume em determinadas passagens, arrastam menos a duração do som e usam uma variedade maior de notas que as músicas terápicas ou de concentração, como quase todas as músicas rituais. 

Algumas das experiências reportadas por Daniel Levitin para a CNN apontam para que várias zonas do cérebro retêm e processam componentes estruturantes das músicas enquanto continuamos a ouvi-las. Trata-se de estruturas que não têm relação com o processamento do som enquanto tal, mas sim com a receção, podemos dizer, estética e intelectual através da qual enquadramos as peças e transformamos o nosso conhecimento global sobre temas e técnicas musicais. Enquanto continuamos a desfrutar o prazer (estético, sem dúvida) musical com o decorrer da canção, vamos simultaneamente preparando-lhe o feedback a partir do qual juntamos à audição o prazer intelectual ou intelectualizado dos enquadramentos e relações estruturais ou analógicas.

As estruturações dão-se em regiões do cérebro relacionadas com o movimento, a atenção, o planeamento e a memória, não diretamente com a música ou os sons. Não é tanto como se ouvíssemos uma música pela primeira vez, com ouvidos virgens e mente limpa, mas bem mais como se estivéssemos a escutar ao mesmo tempo uma peça nova e uma reminiscência musical. 

Isto sucede com os mais diferentes tipos de pessoas e em qualquer parte do mundo. As experiências nos mostram, portanto, que desfrutamos a arte articulando-a com reminiscências padronizadas que, na teoria da literatura, tentamos por vezes cristalizar sob a designação de «géneros literários», quero dizer, sob designação genológica. 

O que varia são, naturalmente, as nossas específicas memórias artísticas, filosóficas e musicais, mas não os padrões de receção. Não mudando os padrões de receção, recorremos a técnicas idênticas para sugerir, suscitar e recordar por exemplo ritmos básicos. Quem diz ritmos básicos pode referir igualmente imagens-conceitos primeiros ou simples, ou básicos, ou primitivos como lhes queiramos chamar e que, nas tradições, estão concentrados em provérbios e adivinhas. Eles correspondem a ritmos e relações estruturantes, quer da criatividade humana, quer da biológica, ou do funcionamento da natureza em geral e muitas vezes se prendem, como lembra a notícia da neurosciencenews, às características determinadas pela própria evolução biológica. Nem a nossa capacidade de sugestão, nem as articulações que ela traz (e vão determinar o nosso relacionamento com a originalidade artística), nem uma nem outra são relativas, embora sofram variações. A recondução da novidade aos padrões guardados e a eventual alteração de padrões em função da novidade e do gosto são universais. É de supor que também haja regras universais para determinar a rejeição ou consagração da novidade em função das sugestões retroativas que ela nos traz e do modo de se relacionar com as reminiscências. 

Mas isso exige muito mais estudos e pormenorizações. Deste se conclui sobre a universalidade e a instabilidade dos géneros, dos cânones, dos paradigmas que vamos agrupando sob circuitos estáveis para nossa orientação no variado mundo da criação artística.

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