A mudança de gostos, escolhas, em suma, de prazer estético sustenta em grande parte as transformações literárias. Não parece temerário afirmar isso hoje. Mas há questões que essa recorrência levanta e que não costumam ser tratadas, na teoria literária, ou são tratadas sem se atender aos estudos científicos envolvidos. Por exemplo: quais as condições para que se dê uma tal mudança?
Certamente, uma das condições há de ser a do esgotamento, saturação, dos modelos anteriores e sua mera repetição. Nada mais óbvio. Sendo que o mundo muda constantemente, se os modelos não mudam e as transformações reestruturam as nossas perceções, as obras poéticas (e artísticas em geral) tornam-se obsoletas. Esta uma das razões pelas quais o criador, ou simplesmente o criativo, tem que dar atenção ao seu ‘ouvido interno’, que nos avisa quando o que dizemos ‘não pega’, ou 'já não pega'.
Porém, a introdução de inovações, mesmo num ambiente saturado, não pode fazer-se apresentando-se pura e simplesmente uma nova peça, construída ou estruturada segundo uma nova conceção e perceção artística. É preciso criar um ambiente propício à receção estética da novidade no horizonte de expetativas de uma dada comunidade de leitura, ou de leitores. A sociologia sabe disso, os estudos de receção literária deram conta de que algumas coisas se passavam a esse nível, mas é preciso vermos como se processam e articulam as inovações e as reiterações no nosso próprio cérebro, pois sem a sua participação e configuração nada se torna social.
Um estudo relativamente recente, veiculado por uma reportagem da CNN, permite aclarar um pouco mais as condições do processo de preparação dos ambientes culturais para as novidades artísticas. É um estudo que se prende com a receção da música e quem chama a atenção para ele é um neurocientista preocupado, justamente, com as relações entre a neurobiologia e a música, de quem já falei neste blogue: Daniel Levitin.
Quando ouvimos um trecho de uma canção, ou dois ou três, antes de comprarmos o disco, há uma pequena área do nosso cérebro que entra em ebulição. Chama-se ela nucleo accumbens e está envolvida na formação das nossas expetativas. As expetativas criadas a partir dos extratos ouvidos, como também dos versos ou frases tolhidos numa leitura rápida na livraria, antes de comprarmos um livro, são depois articuladas com a nossa memória musical, artística, verbal, etc., e mais ou menos conforme os casos. Assim se suscita a expetativa, jogando com o que nos deu prazer e desprazer. Os excertos imediatamente visíveis ou audíveis reativam sensações de prazer ou desprazer ao recordarmos experiências anteriores idênticas (observe-se, de passagem, a importância da analogia no processo). Isso corresponde a uma atividade maior no nucleo accumbens e os cientistas afirmam que, sendo mais intensa a atividade, é mais provável que a gente compre aquela música específica – ou o livro, no caso da literatura – e não só: também nos dispomos a gastar mais dinheiro para comprá-la - naturalmente, se a recordação for agradável.
Em conexão com o núcleo (accumbens), opera uma outra zona chamada giro temporal superior. É nele que armazenamos modelos de músicas ouvidas antes e ele nos identifica certos trechos musicais com tais modelos. Isto é determinante para as transformações artísticas e, em particular, literárias numa dada sociedade. Porquê?
Em primeiro lugar porque uma novidade artística não surge do nada. A criação transforma, reforma e retoma estruturas anteriores e, pela conexão com o giro temporal superior, identificamos os modelos atualizados, o que nos permite 'identificar' o novo 'género' ou 'tipo' e começar a interpretá-lo. Com as imagens sonoras e as interpretações, obtemos prazer estético e intelectual, ou temos expetativa de obter, e isso nos leva também a comprar, assimilar, e divulgar o novo modelo.
Em segundo lugar porque, para uma transformação se tornar ‘viral’, ou pelo menos aceite por um número significativo de pessoas, é necessário tomarmos contacto, não com uma, mas com várias peças reiterando o mesmo tipo de sugestão e de estrutura estéticas. É por isso também que as novidades artísticas se dão por gerações, grupos literários, exposições, revistas, articulações entre manifestação criativa e reflexão estética, etc. Desde logo há o efeito, bem conhecido pelos publicitários, obtido quando se consegue dar a impressão de estarmos perante qualquer objeto de desejo coletivo: quanto mais pessoas a gente vê produzindo e gostando da novidade, maior a nossa tendência para também aderir. Isso acontece na política e na moda, por exemplo. Segunda razão, porque o surgimento simultâneo de obras (em diversos géneros) com traços novos comuns, ou pelo menos idênticos, além das estimulações da nossa memória artística, por analogias instantâneas (ou quase), permite esboçar (ainda só esboçar) um modelo novo (desconfiando de estar em formação novo modelo), que o desenvolvimento e a solidificação dos movimentos artísticos contemporâneos irão fixar melhor, através também de recensões, comentários, ensaios e manifestos.
O surgimento em conjunto, mais ainda se articulado pela reflexão intelectual, excita no giro temporal superior os circuitos necessários ao processamento modelar. A partir da conformação da estrutura inovadora, ao escutarmos um pedaço de música, ao vermos uma fotografia, um verso, um parágrafo, identificamo-lo e classificamo-lo, o que facilita a sua colocação na memória e reforça os estímulos lúdicos. Caso a 'solução' ou 'fórmula' seja atrativa (para o que precisa de ser atual e universal) adotamo-la, dispomo-nos a comprar mais exemplos onde se possa usufruir a diferença estética.
Há mais aspetos a levar em conta? Sem dúvida. E vou referir um deles da próxima vez...
Entretanto a pesquisa continua sobre onde e quando gravamos novas memórias . V., por ex., aqui.
Comentários
Enviar um comentário
Comente