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Mensagem – reedição fac-similada: 14 notas soltas



fotos da nova edição em fac-simile (v. abaixo)























1. A publicação, em fac-simile (escrevo sem acento no primeiro [i], porque é o termo latino, que significa ‘fazer igual’, ou ‘faz igual’, ou semelhante), da muito comentada revista Mensagem, “a voz dos naturais de Angola” em 1951-1952, é um acontecimento notável para qualquer estudioso, ou qualquer amador, da literatura angolana – essa fina dama oscilante e fugidia, que sob várias máscaras nos surpreende noite e dia.

2. Financiada pela empresa DST, com papel destacado no apoio à cultura e à literatura escritas em Angola, ficou sob responsabilidade da Guerra & Paz, que soma já basta carteira de títulos acerca do país e da sua complexa história. Por isso tudo é pena que se note uma colagem-costura (há sinais de cola no começo, ligando a capa ao corpo do livro, e de costura depois) defeituosa nas páginas até ao princípio do fac-simile. As folhas ficam, por isso, onduladas, ondulação mais notória no primeiro caderno. Numa linha vertical estreita, equivalente à dobra que se faz (ou devia fazer) abrindo o livro, a capa fica separada do corpo do livro, portanto da folha de guarda (assim chamada nos livros de capa dura), que devia assegurar a junção das duas partes; o aspeto é como se ali faltasse um caderno, porque se descola rapidamente e a espinha de cola fica visível na primeira folha, desgarrada da capa. 

Comprei o exemplar na Feira do Livro do Porto, no expositor da editora (penso que o n. 40). Quando cheguei a casa tirei-o do saquinho de papel de outra editora onde o alojei para o caminho (a compra do livro não dá direito a um papel de embrulho sequer), abri, já estava assim. A contracapa, desde que abri o exemplar em casa, começa a descolar também, apresentando já buracos assinaláveis na ligação com a espinha do livro. A colagem e a costura não foram boas, o que é fatal numa edição em papel (na digital não há cola!).

3. Trata-se, tirando isso, de uma bela edição, cuidada em outros aspetos. A badana (aba) longa ajuda a capa a não dobrar com a humidade ou o calor, ou a atrasar esse processo. O trabalho visual de Ilídio J. B. Vasco me parece notável. Repare-se na capa. Desde logo na cor de fundo, entre papel de embrulho e de livro antigo – a mesma do fac-simile e que, no caso, lhe dá charme, como já se viu em mais edições, fac-similadas ou não. Revistas famosas como Occidente em Portugal, no fim do século XIX, recorriam a papel dessa cor, como alguns livros até hoje. Vale a pena reparar no desenho gráfico da capa. Desde logo, um grande retângulo, assinalado graficamente com bordas iguais às da capa da revista original. Lá dentro as letras a negro (como as bordas do retângulo). A vermelho, dentro do retângulo e abaixo das últimas letras a negro, em posição oblíqua, outro retângulo, com bordas vermelhas, assinala com letras também vermelhas: “a reedição integral e a homenagem às gerações da Mensagem e da Cultura, que devem inspirar a consciência nacional”. Não sei se o vermelho chama só a atenção, sei que recorda carimbos dos tempos da censura. Mas assinala a intervenção extra e informativa da editoria (exceto o “[fac-símile]”, que está com letra negra, no cimo do retângulo), ficando o nome da editora fora do retângulo, no fundo da capa, com letras vermelhas também. Portanto a distribuição das letras é sintomática e tem função semiótica: para cada uma um tipo de informação, para cada cor um espaço próprio. Quem aprecia poesia visual, ou simplesmente capas de livros, entenderá facilmente o que digo.

4. Posto isso passamos às considerações suscitadas pela publicação. Como se abordava antes a Mensagem? Por fotocópias, excertos, mais tarde algumas digitalizações. Foi assim que eu próprio li várias páginas de ambos os números e, lendo-as, terei compreendido o que escreveu Mário António sobre elas. Sem dúvida que houve demasiado rigor nas suas palavras, mas é também sem dúvida, como se confirma agora, que, tirando poucos textos literários (os dos autores que ficaram mais conhecidos), e o ensaio de Mário Pinto de Andrade (Questões de linguística «bantu»), a qualidade literária deixa muito a desejar – o que me desinteressou da revista enquanto leitor de poesia: o que nela interessava estava já nos livros dos melhores poetas do grupo, publicados depois e mais acessíveis, ou reproduziu-se por antologias diversas. Havia naqueles dois números (o terceiro triplo) qualquer coisa de incipiente ainda, que, pelo estudo contextual, entendemos hoje derivar da época (anos de transição para a literatura moderna em Angola), das condições enfrentadas pelo grupo ‘da geração da Mensagem’ (muito pequeno ainda – veja-se por exemplo que António Jacinto se desdobra em Orlando Távora como se fossem dois), e mesmo da juventude de alguns dos dinamizadores ou dos poetas. O propósito político de criar abrangência, dar a sensação de um novo cânone já seguido por muitos, a par do escasso número de membros do grupo militante ancorado na Anangola, levava a incluir quase tudo o que surgisse e que tivesse um mínimo de ligação com o propósito geral da revista, o “Programa”. Além destes condicionalismos havia o da censura e da ditadura, que explica a presença, na Mensagem e na Anangola, de elementos defensores do colonialismo com posições de chefia, de responsabilidade e em lugar de destaque. Isso tudo resultava numa ambiência tépida, ambígua, oscilante, mesmo indecisa (na aparência), que não tinha equivalência (estética) possível com revistas como o Orfeu, ou a Claridade, ou Claxon, de que fala Francisco Topa no prefácio, aliás oportunamente. É, no entanto, verdade o que recorda esse prefácio de Francisco Topa: estavam já lá todos os sinais do que viria a ser a ‘poética da geração da Mensagem’, na expressão feliz de Salvato Trigo, que se tornou popular entre estudiosos.

5. Quando se falava da Mensagem, falava-se de um momento e de um ambiente literário, político, ideológico, tendencialmente partidário, de que nos ficaram sinais antes e depois: na Costa negra, na Cultura sob a dinâmica direção de Eugénio Bento Ferreira[1], em algumas páginas de jornais das duas décadas seguintes e na Cultura da geração seguinte, a chamada Cultura II, igualmente republicada em Luanda por iniciativa dos editores (Irene Guerra Marques e Carlos Monteiro Ferreira), que assim nos disponibilizaram duas das colunas principais do edifício revolucionário, independentista, nacionalista, negrista ou negritudinista, e neorrealista, que marcou o arranque da literatura angolana para a modernidade e a definitiva diferenciação face às restantes literaturas - uma diferenciação dentro de uma partilha. Por ser assim, o que se dizia da Mensagem aplicava-se a todos os autores comprometidos, nessa e nas outras publicações afins, falando-se genericamente na geração como a da Mensagem. Se o que dizíamos, a partir da necessária contextualização, era extensivo a toda a geração, como a alguns membros da seguinte (a da Cultura II), não era redutível à revista agora republicada, mas encontrava no seu propósito programático o mesmo objetivo da Antologia dos novos poetas de Angola (que também só conheço por fotocópias), da Cultura sob direção de Eugénio Ferreira, e de algumas páginas literárias de jornais luandenses posteriores, ou coetâneos (sendo as páginas a que me refiro posteriores em qualquer dos casos). «O nosso Programa», publicado pelo “Departamento Cultural” na p. 2 do n. 1 da Mensagem, e referido por Francisco Topa no prefácio (p. 15 desta edição) é também o Programa da geração, melhor, um dos Programas da geração toda ela, não só dos colaboradores e promotores da revista Mensagem, sediados então na Anangola. Digo "um dos Programas" e sublinho, porque houve projetos individuais, ou melhor: pessoais, de literatura, por exemplo os de Alda Lara e seu irmão, o de Mário António - o canuco do grupo, dos 'miúdos do meu tempo' o que mais a fundo levou (no panorama das duas gerações) a personalização literária e uma aposta no aprofundamento da componente estética da poesia. Mesmo dentro dos cânones da poesia-objeto-social, ou seja, de propaganda política, há livros de lírica em verso, como os de Antero Abreu, Henrique Abranches, o Tempo angolano em Itália de Fernando Costa Andrade, logo depois a Fuga de Arnaldo Santos, que, sem prejuízo do Programa coletivo, personalizaram suficientemente a sua literatura.

6. Ao nos confrontarmos agora com a reprodução, em fac-simile, não nos surpreende o choque sentido por outros leitores, que nunca tenham visto nenhuma cópia de páginas, ou dos dois números inteiros da revista, e que façam dela a ideia que se formou para todo o movimento literário e político desses anos. Esta reprodução fará os leitores compreenderem o que diversos estudiosos e críticos disseram de menos elogioso acerca da revista, concordando ou não com eles.

7. O prefácio de Francisco Topa faz o ponto exato da situação. Ele confronta essas afirmações menos exaltadas, ou menos elogiosas, com o que se pode extrair à Mensagem hoje e que sustente a afirmação da existência, já nela, de uma poética geracional, de alguns dos seus melhores autores, de alguns (bem menos) dos seus melhores textos. Esse prefácio me recorda um ensaio de Francisco Topa que li faz uns anos, em 2022 penso, na revista académica brasileira Vértices, e que pode ser relido aqui, ou aqui. Nesse estudo colocava, o pesquisador e professor da Universidade do Porto, as ideias essenciais e as informações e considerações nucleares estabelecidas pelo prefácio ao fac-simile agora disponibilizado na Guerra & Paz. No ensaio de 2022 considera Francisco Topa que, apesar dos “poemas emblemáticos” (exemplificando com Viriato da Cruz e Agostinho Neto), representativos do projeto partidário (no amplo sentido da palavra) que animava António Jacinto e os seus companheiros, havia, também, outros com escasso interesse para o projeto de Mensagem exposto nos textos programáticos. O resultado é esse: permite a uns atribuírem menos relevância e perfil difuso ainda à revista, enquanto sustenta a consideração mais positiva dela.

8. Isso, porém, não legitima, claro, o “equívoco de Mário António” considerando a publicação “pouco mais que uma insignificância”. Mário António cultivava tais exageros de expressão, dramatizava, ou menosprezava, por estilo e provocação, garantindo assim reações fortes ao que dizia. Mas, esteticamente, era mesmo isso, pouco mais do que insignificante a literatura posta naquelas páginas (e que incluiu, no segundo tomo, peças do próprio Mário António). Enquanto literatura, a maioria das colaborações é fraca, própria de quem está no começo e não firmou ainda bem a caneta no papel, com aparo e apuro próprios. O que tornou significativa a Mensagem foi o futuro de alguns elementos do grupo inicial, que já se interseccionava com o dos colaboradores da Cultura do fim dos anos 1940, ou da Antologia dos novos poetas de Angola (cito de memória). Foi a carreira literária e política desses poetas, a par de uma propaganda partidária que, sistematicamente, martelava na memória da revista o selo do paradigma oficial - em termos absolutos após a independência. Mário António não falava, no entanto, só dos aspetos estéticos, mas também da consciência política nessas páginas representada e não representada. Não creio que se tenha equivocado, mas sim que tenha sublinhado os aspetos menos futurantes – permitam-me o neologismo, que vem já de décadas atrás e faz aqui sentido. Partidariamente, o grupo da Mensagem era bem mais coeso e definido do que transpira das páginas, portanto não dá para considerá-la insignificante: com outros títulos, assinalou o advento programático da geração - no entanto heterodoxa, não o esqueçamos.

9. Também no ensaio anteriormente publicado, Francisco Topa contextualizava a Mensagem luandense por um exercício comparativo com outros periódicos marcantes na modernização das literaturas lusógrafas, e com outros periódicos modernistas, africanistas, ou africanizantes (perdoem-me esse neologismo mais, e anotem, porque pode ser útil), de países subsaarianos (‘negros’) com línguas de colonização europeias. É um esforço comparativo salutar, que nos ajuda a colocar com mais precisão, no tempo e no espaço, a emergência da ‘geração da Mensagem’. Trata-se, de facto, de uma geração colocada entre as tradições (maioritariamente bantos no nosso caso) pré-, ou paracoloniais, as novas literaturas africanas, e as literaturas escritas em língua portuguesa, tudo imerso na globalização crescente dos mercados, incluindo os culturais – e com as vertentes enumeradas, descritas e consideradas na reflexão teórica de Itamar Even-Zohar.  

10. Ainda nesse mesmo ensaio, Francisco Topa falava na necessidade de uma reedição, que ele supunha também digital – e com boa razão, porque todos teríamos facilmente acesso a ela. Transcrevo a profética passagem:

Note-se, em primeiro lugar, que, num tempo em que a tecnologia torna essas tarefas relativamente fáceis e baratas, não dispomos ainda de uma edição fac-similada nem de uma versão digitalizada online, o que ajuda a explicar que muitos se pronunciem sobre uma revista que não consultaram, repetindo e consolidando apreciações imprecisas.

Com a presente edição, fica a falta do fac-simile resolvida. Oxalá apareça, tão cedo quanto possível, a versão eletrónica, ou, pelo menos, uma versão fac-similada com aparato crítico.  

11. Outro aspeto a levar em conta é precisamente o da ausência de aparato crítico. Não é fácil em papel, em formato fac-simile, será mais fácil eletronicamente. No entanto, por várias vias acrescenta-se aparato crítico a uma edição fac-similada. Foi, talvez, escolha editorial não o fazer e foi pena, porque é necessário tal aparato. Um dos aspetos a suscitá-lo reporta-nos a contextualizações mínimas mas importantes, por exemplo quem era aquela personagem a quem se dedicava um poema, quem era o poeta que assinava sob este ou aquele pseudónimo, quais os perfis biográficos mínimos dos que ali assinalaram posições pró-colonialistas. Um segundo aspeto a suscitar anotações esclarecedoras diz respeito aos próprios textos: origem, possível datação, se foram publicados iguais ao que saiu mais tarde, ou mais cedo, em outros veículos (revistas, livros), se houve amputações e quais os eventuais motivos delas. Terceiro aspeto – sem querer esgotá-los – reporta-se ao facto de, precisando mostrar abrangência maior, apresentar a Mensagem um número quase indiscriminado de autores. Visto que o núcleo da geração mensageira era escasso, como acima notei, aproveitava-se tudo o que tivesse um mínimo de relação com o Programa, ainda que mal se conhecessem os autores. Daí existirem textos publicados com deficiente informação sobre quem os escrevia. É o caso de Maria Joana Couto, filha de um colono com a irmã do soba do Amboim, que não nasceu no Huambo nem em Nova Lisboa, como se diz na Mensagem. Conforme afirmou recentemente o historiador angolano Carlos Alberto Alves, em Cântico de Natal e na esteira de informações anteriores que ele foi registando e que estavam publicadas, Maria Joana Couto nasceu na então Novo Redondo, a 9.8.1909. Aniversariou, portanto, há relativamente poucos dias e talvez fosse, pelo menos, de referir a minibiografia dela (ver aqui), com indicação do pai e da mãe, bem como da sua insistência na poesia de referência angolana e africana, mesmo que desenvolvendo carreira editorial no país colonizador, inserida na sua cultura literária. No mínimo, porém, seria necessário, numa nota própria, corrigir e acrescentar os dados de nascimento para percebermos as reservas colocadas na página onde se publica «A Vénus Negra», poema com que concorreu (“uma angolana”) ao posteriormente famoso concurso organizado pela Mensagem no âmbito do departamento cultural da Anangola: “está ainda presa a certos tradicionalismos desatualizados e vazios que prejudicam o conjunto”. Não sabiam, nesse momento, o ano de nascimento da autora, poucos dias mais nova do que Óscar Ribas, também publicado (mas mais apreciado) nas páginas da revista e por igual preso, na lírica, muitas décadas depois, aos mesmos “tradicionalismos”, ainda praticados por D. Alexandre do Nascimento (n. 1925) e Jorge Mendes Macedo (n. 1941) ao longo do século XX (como se pode conferir aqui), com Geraldo Bessa Victor  de permeio (n. 1917), mesclando modernismo, pré-modernismo, lírica tradicional e poesia erudita europeia, com a luso-brasileira também.

12. A introdução dos editores (Irene Guerra Marques e Carlos Monteiro Ferreira), com longa e produtiva parceria nestas iniciativas, esclarece-nos sobre o seu percurso recente e os passos que deram para a presente republicação da Mensagem. Na linha de vários dos estudiosos anteriores, perseguiram a definição de grupo envolvendo esta poética militante e modernista ao mesmo tempo, que leva em consideração todas as suas manifestações, habitualmente recolhidas sob o nome genérico da ‘geração da Mensagem’. Com a anterior edição de O boletim «Cultura» e a Sociedade Cultural de Angola, prefaciada por Henrique Guerra (um dos membros da geração da década de 1950), puseram os dois de pé o relevante papel desempenhado por aquela Sociedade (‘a Cultural’). Como agora esclarecem na Introdução, foi para a SCA que, por motivos partidários, migraram os membros da primeira geração nacionalista e modernista, nascidos na década de 1920, momentaneamente agrupados no departamento cultural da Anangola. A policópia de um panfleto político nas oficinas da Anangola, a direção conservadora dessa Associação, talvez também qualquer discreta atuação do aparelho repressor, determinaram a ‘fuga’ para a SCA, onde atuaram com mais segurança, garantida por Eugénio Ferreira e seus companheiros de luta, muitos do setor colonial progressivo (incluindo comunistas portugueses, maçons portugueses e, genericamente, oposicionistas que apoiaram a candidatura de Arlindo Vicente à presidência, depois a de Humberto Delgado). Biografados no final, em textos curtos, a história dos dois editores deste fac-simile resume bem a dedicação das suas vidas à causa de uma literatura nacional em Angola.

13. No processo que levou à saída do grupo mensageiro da Anangola, parece ter tido papel relevante uma figura hoje desconhecida, Pedro Morgado, proprietário da Mampesa – empresa que, essa sim, os velhos benguelenses conhecem. Foi o que me disseram quando me interpelaram sobre o assunto, absorvido eu nos estudos sobre o século XIX, entre a cidade e o mato. Quando me perguntaram se sabia quem era tal proprietário, embora estivesse completamente absorvido nessas pesquisas, o respeito e camaradagem que me ligam aos editores, a par da importância do seu projeto, me levaram a fazer um breve intervalo para responder-lhes. Concluí que se tratava desse empresário, Pedro Morgado, cuja família era conhecida no antigo meio empresarial da cidade de Ombaka. A nota em que os editores referem o meu tímido contributo vem, no entanto, fora de lugar. A referência à nota de rodapé surge no cimo da p. 22, a seguir a estas palavras de António Jacinto: “Porque este slogan já vem de 1948, quando Viriato da Cruz e outros se reuniam em casa do Ilídio Machado”. Faz-se a chamada para a nota de rodapé a seguir a “Machado”. Nessa nota escrevem que, segundo eu, “António Jacinto estaria a referir-se muito provavelmente a Pedro Morgado, então proprietário da Mampesa”. Depois de mais um parágrafo de cinco linhas e outro longo, no final deste maior é que se referem à atuação do presidente da Anangola, que tinha também negócios no Congo Belga, como mais empresários portugueses de Benguela, entre os quais um relacionado, por casamento, com a família de Alda e Ernesto Lara. Assim, por descuido que não sei se foi da tipografia, da editora, ou dos editores, atribui-se-me a afirmação de que Jacinto se referia a Pedro Morgado ao falar de Ilídio Machado! É pena, porque não é verdade, a verdade é a que fica registada nestas linhas. Mas, apesar desse deslize, a Introdução mantém-se indispensável para quem pretenda conhecer o contexto imediato e a movimentação de grupos que veio a dar, mais tarde, na Cultura do fim dos anos de 1950 e no tristemente famoso “Processo dos 50”. Podiam, mesmo, ter desenvolvido mais extensamente essa nota introdutória.

14. Agora, com o recente fac-simile entre mãos, os leitores (em cujo grupo me incluo) vão poder fazer uma ideia mais precisa do que foram os dois únicos números publicados de Mensagem: A voz dos naturais de Angola. Podem explorá-los, falar da revista incidindo por momentos apenas sobre ela. A publicação prestou-nos um serviço indispensável e torna-se, desde logo, incontornável. Por mim, regresso ao século XIX, de modo radical a origem disto tudo, como bem notaram Mário António Fernandes de Oliveira e Mário Coelho Pinto de Andrade. 



[1] Que se casara com Maria Áurea Nobre Monteiro em 1947 e passara também a chefiar o Atlético de Luanda. 

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