O Caso
A atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan suscitou uma
série de comentários contraditórios discutindo a sua pertinência. Por um lado
se argumenta que é um cantor-compositor e não um poeta; por outro, que sempre
foi poeta além de compositor e cantor.
Os anos de formação
Robert Allen Zimmerman cedo começou a escrever poemas e
publicou livros de versos até há bem pouco tempo. São, geralmente, ‘letras’ de
canções? Calma, já lá vamos.
Não foi por medo de o identificarem como judeu, ou
descendente de judeus russos (aliás, os avós vieram
de Odessa, Ucrânia), não foi por isso que trocou o nome para Bob Dylan, mas
por causa da poesia.
Zimmerman teve, como muitos jovens dos EUA, uma admiração
extraordinária pelo poeta galês (mas anglófono) Dylan Thomas (1914-1953), como
também por outros poetas modernistas. Dylan Thomas, que também foi jornalista,
era um boémio, grande bebedor (morreu em consequência disso, numa tournée pelos EUA), extremamente
instável e social ao mesmo tempo. Tornou-se famoso no mundo anglófono e
realizou quatro turnês esmagadoras
nos EUA. Foi em homenagem a ele – uma de suas fontes de inspiração – que o
jovem Zimmerman mudou para o poetónimo Bob Dylan, como disse numa entrevista
antiga (creio que dos anos 70 do século passado) e repetiu em Chronicles, numa passagem pouco lembrada
pelos divulgadores.
É certo que Zimmerman, ao longo dos anos, negou esta versão
muitas vezes. Por três motivos diferentes acho, no entanto, que se trata de um
caso típico de “angústia da influência”, como diria Bloom. Em primeiro lugar, a
poesia de Dylan Thomas e a de Bob Dylan têm muito em comum. Bob Dylan diz
(alguns amigos confirmam) que se interessava, nessa época, pelos simbolistas
franceses, como Rimbaud (passaremos por ele também), no qual admirava jogos
rítmicos e aliterações; mas um seu amigo de infância e de primeira
adolescência, Larry Kegan, lembra-se de ele andar por Hibbing (a pequena
povoação onde cresceu) com um livro de Dylan Thomas entre mãos. Não só: John
Buckeln, outro amigo da mesma época, assegura que, em 1959, Zimmerman lhe disse
que mudara o nome para Bob Dylan em homenagem ao poeta galês. O terceiro motivo
que me leva a desconfiar da versão ‘oficial’, autobiográfica, é o de o cantor nunca ter
apresentado uma versão única para substituir a de Dylan Thomas, apontando quase
uma razão para cada entrevista. E não só. Em certo momento reage contrapondo:
“se eu achasse que ele era tão bom, teria cantado seus poemas e poderia ter
mudado meu nome para Thomas”. Mas Bob Dylan canta sobretudo poemas seus, isso é
que lhe interessa, compor música e palavras em simultâneo. Mais significativo
ainda é ele dizer que teria mudado o nome para “Thomas”, quando ele próprio diz
que mudou o nome porque, no mundo musical, Bob Zimmerman seria pouco atrativo.
Pergunto: e Bob Thomas era mais? Thomas, tão comum como nome próprio (ao
contrário de Dylan), combinaria bem com “Bob” em nome de músico? Não.
Penso que
se deu com ele o que se tornou vulgar nas comunidades literárias desde o
Romantismo: ele não queria compor a sua figura pública de autor a partir de
alguma outra, ou colada a alguma outra.
Antes do Romantismo fazia-se ao contrário: Bocage, por
exemplo, nesse tempo em que os escritores não se envergonhavam de terem
aprendido alguma coisa com alguém, compôs a sua figura pública a partir da
figura de Camões. Mas o Romantismo tornou canónico um perfil de génio sem a aura
do qual o escritor não pode ascender ao podium
da sociedade literária. O génio é, na versão romântica, necessariamente
original, inconfundível e recebe diretamente a sua inspiração de uma transcendência (Espírito, Amor, Deus, etc.), portanto nunca se inspira em outro, não imita,
não toma nada de empréstimo... claro que isso foi mais um mito e os poetas
românticos estão pejados de intertextualizações, pequenos plágios e repetição
de imagens conhecidas ao longo da história da literatura europeia, sobretudo
retiradas ao que pareciam recusar: a herança greco-latina. Por isso é mais
prudente, a partir do Romantismo, verificarmos as possíveis intertextualizações
das obras antes de nos rendermos à ‘sinceridade’ mítica dos autores. No caso de
Bob Dylan, a prudência que se exige ao crítico tornou-se maior ainda quando os biógrafos
começaram a notar que, também ele, construía pelas entrevistas e conversas uma
personalidade falsa, aliás artificial. Recordemos algumas das invenções autobiográficas do cantor: teria
crescido no Novo México, sendo órfão de pai e mãe (uma das vezes que o disse os
pais estavam ligados à TV a poucos quarteirões de distância, para ouvir a
apresentação do filho, tendo-se desiludido amargamente com o que ouviram); teria sido
garoto de programa em Nova Iorque (indica mesmo os preços que praticava, quanto
fazia por dia, que ia tanto com mulheres quanto com homens - e não foi nada disso); também afirmou ter sido faxineiro de circo
aos 5 anos, mas nesse tempo vivia com os pais e brincava com os primeiros amigos em Hibbing... No meio dessa reinvenção autobiográfica falava, então, do seu nome e garantiu que teria
mudado o nome por semelhança com o apelido da mãe, Dillon – que, no entanto,
possuía por apelido verdadeiro “Stone” e não Dillon (Williamson,
2011, pp. 22-23) .
Ele teve, de facto, um antepassado Dillon, mas porque motivo convincente não usaria
esse nome e trocaria por Dylan? Característica recorrente nesse emascaramento autobiográfico é o facto de envolver músicos e poetas (mas sobretudo
músicos) que o influenciaram, que terá conhecido, que ouviu, com quem conviveu
e tocou…
Tudo isso nos levanta a suspeita de que o distanciamento
face a Dylan Thomas foi mais um artifício de Zimmerman para despistar os
arqueólogos das verdadeiras influências. Vejamos, portanto, quem foi Dylan
Thomas.
Dylan Thomas compunha com um lirismo extremo e sensível. A impressão final de muitos poemas era a de uma profundidade séria, grave, apesar
do humor revelado em várias passagens. A sugestão, creio que se devia ao
apurado sentido do jogo entre a morte e a vida, referindo já objetos e imagens
do concreto quotidiano, que integrava numa dinâmica
ao mesmo tempo musical e
atenta aos múltiplos significados de cada palavra – insinuante, portanto. A
esses traços associava outro, típico do género desde Alceu e Safo: a componente
amorosa e erótica, também notável em Bob Dylan e Leonard Cohen, um cantautor
que tem muito em comum com Zimmerman – a quem, de resto, admira e tem (tinha) por companheiro.
Ao mesmo tempo usava uma linguagem concentrada, simples, objetiva
com relação às emoções e aos sentimentos que pretendia provocar nos leitores.
Esse tipo de linguagem tem historial próprio na tradição literária
anglo-americana e foi levado ao extremo pela geração beat, sobre a qual falarei mais à frente. O grande mestre de Dylan
Thomas foi D. H. Lawrence (1885-1930), outra figura maior da poesia anglófona,
também jornalista e sobretudo por sobrevivência. Lawrence tornou-se prolífico escritor e um dos modernistas anglófonos mais salientes numa vertente
não-experimentalista. Poeta britânico, viveu uma vida atribulada, parte da qual
nos EUA, onde escreveu e publicou várias obras. Os seus poemas tendiam para a
concisão, com uso muito preciso do vocabulário – no que a profissão de
jornalista deve ter ajudado. Foi também um poeta (e romancista) erótico, e O amante de Lady Chatterley viu-se proibido e censurado por indecoroso. Há,
portanto, coincidências importantes com Dylan Thomas, ao nível da linguagem
poética, de uma boa parte dos temas e motivos e pelo facto de ambos terem sido
jornalistas, notando-se na sua escrita o que aprenderam com a profissão (a
linguagem objetiva, a nomeação de ‘coisas’ simples e quotidianas, a
objetividade no alcance do efeito). Vem desta genealogia modernista (e talvez neorromântica, pela tónica nos afetos),
acentuada mais à frente com o movimento beat,
o verso muito simples, a linguagem corrente (a que a geração beat acrescenta os tiques de rua, como
por exemplo a repetição banalizada da palavra merda), o poder de insinuação, caloroso e desdenhoso, de Bob Dylan,
tal como do seu parente literário e musical Leonard Cohen, também judeu, na premiada (Príncipe das Astúrias) lírica do qual se acentuou a vertente erótica.
Mas não se limita a ela a linhagem modernista de Bob Dylan,
porque houve realmente uma influência francesa, de fin-de-siècle sobretudo. Esta marca francesa é, porém, posterior à
de Dylan Thomas, o que tem significado para nós, porque muito cedo (parece
que aos 10 anos) Zimmerman escreveu o seu primeiro poema. Quer dizer que
andava a tentar a poesia quando leu Dylan Thomas e trazia o seu livro nos
braços pelas ruas de Hibbing.
Enquanto leitor, os registos da Biblioteca da Universidade
de Minnesota (na qual estudou) e os exemplares respetivos atestam, segundo Mark Spitzer,
que o cantautor foi um devoto de Rimbaud (1854-1891), conhecendo bem a língua
francesa. Entre Rimbaud e Dylan (Bob) há por isso uma interessante
familiaridade, baseada na linguagem lírica de ambos, na apreciação dos jogos
rítmicos e das assonâncias com que joga Rimbaud e que muito interessaram ao
poeta e músico norteamericano. O cantor leu também, já por sugestão de Allen
Ginsberg, Os cantos de Maldoror, do Conde de Lautréamont, poetónimo
famoso de Isidore Ducasse (1846-1870), outra das referências canónicas de
muitos modernistas, dos surrealistas e de muitos vanguardistas do século XX. Aliás
é sintomático aparecer, na secção «Books»
da sua página oficial, The anchor
anthology of french poetry, uma antologia de 1995, com prefácio de Patti
Smith…
Recorde-se, de passagem, que Irwin
Allen Ginsberg (1926–1997) foi amigo e companheiro de Jack
Kerouac (Jean-Louis Lebris de Kerouac, 1922-1969) e de William
Burroughs (William S.
Burroughs, 1914-1997) – dois ícones literários da mitologia rock e pop dos anos 60-70 (inspiraram, por exemplo, John Lennon),
juntamente com outro poeta do movimento beat,
Lawrence Ferlinghetti
– pintor também e o editor do movimento. A narrativa lírica, imprevisível e
subjetiva de Kerouac, em particular, exerceu verdadeiro fascínio sobre Bob
Dylan ao longo da vida.
O movimento ‘beat’
esteve sempre e muito ligado à música, em particular ao jazz e por muitos outros aspetos extraliterários, a maioria
contemporâneos, como o uso de drogas, o abuso do álcool, a liberdade sexual, a
aproximação da linguagem, dos temas, dos motivos e dos assuntos ao quotidiano.
Uma conduta pouco regrada servia uma postura de libertação de energias que eram
também criativas e a criatividade destes poetas foi, por isso, intensa, porque
mantida em aberto, uma espécie de vadiagem, vagabundagem pelas infinitas
possibilidades da linguagem artística. A irreverência literária e social que os
caracterizou começou com Lautréamont e Rimbaud, pouco antes deles com algum
romantismo exacerbado, de que é exemplo a segunda geração romântica brasileira,
que por sua vez iconizava Lord Byron e suas façanhas públicas e privadas, em
particular as ‘imorais’… mas, tal como a aproximação à linguagem e aos assuntos
do quotidiano, só com eles (movimento “beat”) essa indisciplina sistemática
atingiu total consecução.
Dois títulos de Ginsberg aparecem, também, na secção «Books»
da página oficial do cantor: Kaddish
& other poems 1958-1960 e Howl and other poems, com introdução de
William Carlos Williams. Isso nos confirma a importância que tinha e tem
Ginsberg para Dylan-o-cantor.
A poética, por assim dizer furtiva, que vem de Rimbaud, de Lautréamont e, por outro lado, da
geração beat junta-se, em Bob Dylan,
à que vem de D. H. Lawrence e Dylan Thomas – aliás nem eram discordantes.
A questão social
Entretanto, Bob Dylan fez carreira principalmente como
músico e daí vem todo o problema. Daí e da estrutura social das comunidades
literárias. Resumindo argumentos, o Nobel da Medicina dá-se a um médico, o da
Física a um físico, o da Economia a um economista, por aí vai. Dar o Nobel da
Literatura a um cantor e compositor soa parecido a dar o da Medicina ao
farmacêutico inventor de um remédio, ou o da Economia a um industrial ou
comerciante pelo seu sucesso que, sem dúvida, envolve um conhecimento real de
como funcionam as economias…
Por outro lado, ao longo das últimas décadas, as mais
diversas comunidades literárias incluem a moda e a crítica à moda de valorizar
as ‘letras’ de canções como poesia. O argumento apresentado pela Secretária da
Academia Sueca (pelos vistos, alguém com dificuldade em falar com Bob Dylan)
foi histórico: Homero e Safo também escreviam poemas que se liam com música, se
declamavam e cantavam. Isso não tem grande valor argumentativo, porque as
comunidades literárias em que viveram Homero e Safo nem sequer distinguiam bem
a Poesia da Música (arte das Musas), pelo menos até Aristóteles marcar a
diferença entre a “arte ainda por nomear” (que tinha o seu ponto máximo na
Tragédia grega, segundo o filósofo) e a das Musas. Mas a académica sueca
pronunciou a frase com suficiente à-vontade porque o raciocínio que empregou faz
parte de um movimento crítico tendente a valorizar a margem dos sistemas
sociais, no caso das comunidades literárias, em paralelo com posturas políticas
de ataque ao sistema capitalista. Esse movimento crítico teve alguma
popularidade no mundo anglófono, como no Brasil, acordando-se ao hábito de se
chamar ‘lyrics’ às ‘letras’ de música. Justamente a poesia lírica de Safo deve
ter sido muitas vezes cantada enquanto se tocava uma lira…
Note-se que a Academia sueca tem premiado, regularmente,
escritores empenhados em causas sociais, políticas e humanitárias –
principalmente nas últimas décadas. Há, portanto, um critério simultaneamente
político e literário, talvez em razão das preocupações humanitárias com que
surgiu o próprio Prémio. Com a ligeira renovação do velho Júri do Nobel, uma
renovação na continuidade, a nova geração trouxe ao prémio o que trouxera,
dentro da mesma linha, ao debate nas comunidades literárias: a valorização das
obras, não só pela sua beleza, mas também por estarem na margem do sistema
literário típico desta fase do capitalismo (e da anterior, parece-me…). Daí que
se valorizem géneros ou espécies a meio-caminho entre, por exemplo, literatura
e reportagem, como é o caso das de Svetlana Aleksiévitch, nascida na Ucrânia em
1948 e a quem foi atribuído o Nobel o ano passado. A ascensão ao podium de algumas obras de
jornalistas-escritores no século XX passa justamente por aí, não só pela
qualidade estética. A valorização dos poemas-letras de compositores como
Caetano Veloso no Brasil, também (e Chico César e Belchior e outros). Embora, entre lusófonos, houvesse uma antiga tradição para a qual, ainda no fim do Arcadismo, as modinhas brasileiras de Domingos Caldas Barbosa eram elevadas à categoria de poéticas (ainda que formalmente imperfeitas), as letras de mornas de Eugénio Tavares também, além de muitos poemas de Vinicius de Moraes e outros.
Seguindo esta vertente crítica, atribui-se naturalmente um
prémio literário a alguém que foi, toda a vida, conhecido como
cantor-compositor, ainda por cima tendo sido igualmente escritor. Não se atribui apesar disso, mas mesmo por isso, por ter ele feito uma carreira na margem e não no
centro do sistema social da literatura. Acresce que, tal como no caso da
esmagadora maioria dos restantes premiados das últimas décadas, Bob Dylan
revela também uma constante e profunda preocupação com a sociedade e as
mentalidades do nosso tempo.
O que está em causa, então, é se deve ser atribuído prémio
numa determinada área a autores que progridem nas margens dessa área, ou mesmo
fora dela. Nesse aspeto, as últimas atribuições do Nobel da Literatura aproximam-no
do tipo comum no prémio Nobel da Paz, que pode ser atribuído a um político, mas
também a figuras de outras áreas (até da económica), por exemplo figuras da
sociedade civil que se entenda contribuírem para a Paz no mundo sem terem,
no entanto, realizado uma carreira política.
A estranheza causada pelo Nobel oferecido a Bob Dylan deriva
disto, deste confronto entre os que defendem que se deve premiar o cerne, o
núcleo duro da produção literária e os que defendem a valorização das margens.
No caso de Dylan (Bob), o que gerou polémica não foi tanto o ser ou não poeta,
porque o tem sido à sua maneira, mas o não ter feito carreira como poeta. A
maioria das pessoas reage negativamente à atribuição por isso, não porque a
poesia do cantautor norte-americano seja má. O problema é o de uma expectativa
criada numa certa comunidade, a dos escritores profissionais (incluindo os que
não se assumem como tal mas, na prática, o são), que por sua vez influencia o
horizonte de expectativa dos leitores em geral. Os escritores tornam-se, nem que seja por teimosia, os proprietários
do sistema, os canónicos do sistema e, portanto, os prémios devem-lhes ser
destinados. A maka é que há escritores que levam toda uma vida dedicada
exclusivamente, ou principalmente, a essa carreira e, então, caem no argumento
falacioso do ‘nós que ficámos na fila, a aguentar, agora trazem esse de fora pra
lhe dar o prémio?’
É uma questão bem mais social do que literária.
Literariamente, poeticamente, é melhor lermos os livros de Bob Dylan e
considerá-los sem música (porque hoje avaliamos poemas sem música) antes de nos
pronunciarmos sobre o Nobel.
A literatura de um músico
O seu primeiro livro foi Tarântula
(1966). Taxado hoje como ‘prosa experimental’, este livro sofreu incompreensões
semelhantes às que enfrentou Kerouac por causa de On the road. E, já nessa altura, o
facto de Bob Dylan estar celebrizado como músico popular e ‘ligeiro’ pesou na
avaliação negativa de alguns críticos. No livro se misturam passagens líricas e
narrativas, prosas e versos, fragmentos de ‘letras’ de música, tentativas de
sugestão de canções ou cantilenas. Não parece seguir nenhuma regra nem programa
para escrever o livro – o que traz mais semelhanças com On the road e o aproxima da estrutura de uma coletânea de poemas líricos. A experimentação do absurdo e a completa libertação de
regras gramaticais, ou de fronteiras genológicas, aproximam-no dos surrealistas
(e dos dadaístas), para os quais Lautréamont serviu de inspiração. Mas também o
aproximam, de novo, de Kerouac e da geração beat
– embora radicalize ainda mais a experiência poética levada aos limites possíveis
de aproximação à sua própria origem psicológica.
A crítica negativa de uma parte da comunidade literária dos
EUA (e não só), remetendo já o autor para o campo da música e, literalmente,
aconselhado-o a manter-se afastado das propriedades literárias, pode ter sido
um motivo para que Bob Dylan se afastasse, em definitivo, de uma carreira
estritamente literária. A relação difícil entre o sistema literário socialmente
considerado e o poeta-compositor estava estabelecida. Mas não o fim do poeta
como tal. A intensidade lírica e a qualidade artística das ‘letras’ das suas
canções revelam uma preocupação do âmbito da arte literária, conjugada à
musical. A solução encontrada pode ter sido essa: harmonizar música e poesia
juntando-as em peças únicas. Daí que tenham saído praticamente só livros de
‘letras’, ou de ‘lyrics’, de resto mais rentáveis.
E a narrativa, teria sido abandonada? É possível, porém não
a prosa. Chronicles I nos permite ver como as preocupações estéticas de Tarântula se transformaram, passando
agora a uma linguagem mais coloquial, de rua, com frases curtas e incisivas e
mais autobiográfica ainda.
Uma surpresa para a maioria de nós é a do seu envolvimento
com a literatura infantil, que dá origem a uma pequena série de títulos, entre
os quais Man gave names to all the animals,
com ilustrações de Scott Menchin (1999), mais tarde reeditado com desenhos de
Jim Arnosky (2010). Mas são, ao todo, seis títulos com adaptações para crianças
de ‘letras’ de canções.
Além disso temos a publicação dessas canções, ou ‘lyrics’,
ou ‘letras’ em vários livros e edições. A última delas acaba de sair em capa
dura, aproveitando-se a atribuição do prémio: The lyrics, 1961-2012. É um dado interessante que Dylan não se
limitou a ver reproduzidas as ‘letras’ das canções, antes reeditou várias delas
para esta edição. Isso demonstra que alguma inquietação estética e alguma
preocupação com o legado propriamente literário permaneciam, então (2012?), na
sua mente.
Parece, portanto, que ele optou por concentrar nos poemas
das músicas as suas intuições e aspirações literárias. E talvez isso viesse de
mais atrás, antes de publicar Tarântula.
Muito novo ele se entusiasmou com as canções do ídolo country Hank Williams, que por acaso morreu (em 1953) on the road, melhor, nas traseiras de um
Cadillac, por insuficiência cardíaca
devida ao excesso de álcool e drogas. O próprio Zimmerman confessou, no livro Chronicles, que percebeu, nas canções de Hank, “as regras arquetípicas da
composição poética” (Williamson, 2011, p. 17) . Ou seja: desde o
início, poesia e música foram conceituadas em conjunto por ele. O que, mais uma
vez, nos inclina a ler a sua poesia em conjunto com a música, digo melhor, a
discernir a sua conceção de poesia e o alcance estético dos versos a partir das
‘letras’ das canções.
Analisando as suas ‘letras’ e comparando-as com a média da
época, desde logo se destacam pela qualidade, pela inquietação estética e pela
superação da ingenuidade artística. O problema, o que as torna menos poéticas,
é precisamente o limite imposto, penso, pela perceção que o autor teria do
mercado e que o levava, de quando em quando, a facilitar. Há vezes em que
deparamos com ritmos e rimas previsíveis e repetitivos, ao gosto de cantilenas,
fáceis de entrar no ouvido e ficar um tempo, como o sabor de um ‘bombom’, de
uma ‘bala’ ou ‘rebuçado’, ou mesmo chewing-gum
que, intenso à partida, saboreamos repetidamente até que se dilui na saliva e
desaparece.
Por esta imperfeição, por este facilitismo, deparamo-nos com
poemas dele que desmerecem o galardão oferecido pela Academia. Isso, porém,
podemos encontrar em muitos autores, por exemplo nos poetas românticos (há
muito em Garrett e em Gonçalves Dias, por aproximação a certa literatura
popular e musicada). Alguns escritores contemporâneos também facilitam muito, como Adonis,
que é sem dúvida um poeta com analogias quase mágicas mas, ao mesmo tempo,
várias delas são previsíveis, destinam-se mais a agradar um gosto imediato, uma
expetativa próxima, sem alcance quando pretendemos retê-las para saborear mais
tarde.
Houve, sem dúvida, prémios Nobel da Literatura que me
pareceram mais apropriados, não pela carreira profissional dos autores, mas por
esta exigência interior absoluta, que nunca transige com a sede de sucesso
rápido, por esta espécie de ascese através da beleza que só os grandes poetas
intensamente conhecem. Também me parece – a mim como a muitos outros – que houve
prémios Nobel atribuídos a autores cuja obra não os merece. Não é o facto de
ser Nobel que me faz dizer isto, mas o de ser hoje o maior galardão literário que
algum escritor pode alcançar. Se amanhã for outro, será outro. E já estivemos mais
longe da mudança…
Não nos esqueçamos, porém, das grandes canções de Bob Dylan
que são também grandes poemas, que atualmente podem ser lidos apenas e provocam
uma sensação intensa de beleza e sustentam um sentimento profundo de
humanidade. Ele foi, talvez, um poeta que não atingiu o máximo efeito estético,
no conjunto da obra, que hoje nos pode oferecer a poesia; mas foi também dos
mais notáveis da sua geração, nos EUA, tanto quanto conhecemos até agora.
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