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Mensagens

Universais e padrões artísticos

Prosseguindo na reflexão começada com a mensagem anterior ( post ou  colocação ), passei a questionar-me sobre algo de certo modo oposto à inovação, mas que a torna social: os padrões artísticos, os géneros literários, a memória cultural. E mantive por horizonte as experiências referidas por Levitin e realizadas pela sua equipa de investigadores.  Na segunda metade do século passado e no princípio deste, as ciências humanas – e os estudos literários com particular intensidade – foram dominadas por um relativismo absoluto que, propositadamente, ignorava qualquer atividade científica para não ser posto em causa.  Estudiosos e pensadores como Denis Dutton desmontaram as falácias do relativismo contemporâneo, por exemplo em « Delusions of Postmodernism ». Ele baseou-se muito em dados da Antropologia e, sobretudo, em resultados inspirados pela teoria da evolução. Num dos casos observa, acertadamente, que sempre há receção crítica da arte onde houver arte. Recor...

Como adotamos uma novidade artística?

A mudança de gostos, escolhas, em suma, de prazer estético sustenta em grande parte as transformações literárias. Não parece temerário afirmar isso hoje. Mas há questões que essa recorrência levanta e que não costumam ser tratadas, na teoria literária, ou são tratadas sem se atender aos estudos científicos envolvidos. Por exemplo: quais as condições para que se dê uma tal mudança?  Certamente, uma das condições há de ser a do esgotamento, saturação, dos modelos anteriores e sua mera repetição. Nada mais óbvio. Sendo que o mundo muda constantemente, se os modelos não mudam e as transformações reestruturam as nossas perceções, as obras poéticas (e artísticas em geral) tornam-se obsoletas. Esta uma das razões pelas quais o criador, ou simplesmente o criativo, tem que dar atenção ao seu ‘ouvido interno’, que nos avisa quando o que dizemos ‘não pega’, ou 'já não pega'.  Porém, a introdução de inovações, mesmo num ambiente saturado, não pode fazer-se apresentando-se ...

Lavra de rosa-lobo

A publicação de mais um livro de Luís Rosa Lopes – Forças da minha lavra – suscita-me reflexões acerca de um momento crucial e ténue da história da literatura angolana. Luís Rosa Lopes nasceu em 1954 em Luanda. Os poetas que nasceram por estes anos podem-se dividir em dois grupos: os de transição entre a poesia militante e a poesia dos anos 80 e os iniciadores da poesia dos anos 80. No primeiro grupo, entre muitos outros nomes, podemos colocar e destacar os de Paula Tavares (1952) e João Melo (1955). No segundo grupo podemos incluir e destacar José Luís Mendonça (1955) e João Maimona (1955). As datas confundem-nos, porque realmente se trata de um grupo de transição e, como em todos os processos de transição, uns ficam mais próximos do passado, outros mais próximos do futuro e outros ainda mais próximos… da transição, mais fiéis ao momento. Creio ser este o caso de Luís Rosa Lopes. Se as datas parecem confusas, o estilo que distingue uns dos outros pode ser diferenciad...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Almeida Garrett, Maia Ferreira e Cordeiro da Matta

Almeida Garrett (1799-1854), grande poeta português que Machado de Assis venera mas acha (com razão, a meu ver) por vezes ingénuo, era lido e louvado em Angola através de muitas obras. E não foi só lido por portugueses residentes, pois até a sua crítica ao colonialismo , quando escreve e poetiza sobre o Brasil, encontraria mais eco nos filhos da terra que nos estrangeiros residentes. Crítica, aliás, ao colonialismo, à escravatura e ao racismo: Malfadado Brasil; metal p'rigoso Germe de crimes preço de mil vidas Que de augusta razão por vil opróbio À dif’rença da cor veda o ser de homem. Em Angola encontramos obras suas a partir, pelo menos, de 1855, num espólio em Benguela, onde se menciona Camões: poema  (as fontes anteriores, em particular os Inventários orfanológicos  de Luanda, não me foi dado consultar até hoje, apesar dos esforços desenvolvidos). Logo no ano seguinte aparece a primeira edição das Flores sem fruto num segundo espólio. Não estávamos muito atr...