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Almeida Garrett, Maia Ferreira e Cordeiro da Matta



Almeida Garrett (1799-1854), grande poeta português que Machado de Assis venera mas acha (com razão, a meu ver) por vezes ingénuo, era lido e louvado em Angola através de muitas obras. E não foi só lido por portugueses residentes, pois até a sua crítica ao colonialismo, quando escreve e poetiza sobre o Brasil, encontraria mais eco nos filhos da terra que nos estrangeiros residentes. Crítica, aliás, ao colonialismo, à escravatura e ao racismo:

Malfadado Brasil; metal p'rigosoGerme de crimes preço de mil vidasQue de augusta razão por vil opróbioÀ dif’rença da cor veda o ser de homem.

Em Angola encontramos obras suas a partir, pelo menos, de 1855, num espólio em Benguela, onde se menciona Camões: poema (as fontes anteriores, em particular os Inventários orfanológicos de Luanda, não me foi dado consultar até hoje, apesar dos esforços desenvolvidos). Logo no ano seguinte aparece a primeira edição das Flores sem fruto num segundo espólio. Não estávamos muito atrasados nas leituras (leve-se em conta que os dados vieram de Inventários orfanológicos). No Arquivo Histórico de Luanda há um exemplar da edição conjunta, já tardia e consagradora, das Fábulas e das Folhas caídas e outro na Biblioteca do Governo Provincial de Luanda, onde está uma coleção de toda a sua obra, publicada pela Imprensa Nacional de Lisboa. 

As Fábulas e Sonetos reportam-se ao período neo-clássico da sua poesia, que inclui algum tempo do que passou na Universidade de Coimbra. Sintomático vermos aí as assinaturas de Alfredo Troni. Enquanto animador cultural e jornalista, advogado e ficcionista, ele conviveu com a geração do seu Jornal de Loanda. Joaquim Eugénio de Salles Ferreira, professor e político muito conhecido e respeitado em Luanda, possuía também as Fábulas – Folhas caídas (Garrett, 1859). A geração de 1878 deve ter lido Garrett pela sua mão também e o Garrett inicial, não só o das Folhas, o que é muito importante.

Faço uma listagem para tornar mais clara ao leitor a sua presença bibliográfica no nosso meio urbano. Encontrei, nas bibliotecas e arquivos investigados em Benguela e Luanda, os seguintes títulos saídos a tempo de a geração de Cordeiro da Matta os ler:

1)Camões: poema. Trata-se da edição de 1825, a primeira, encontrada num inventário de órfãos de 1855, em Benguela; esta é uma das obras em que o romantismo influenciado por Rousseau, Chateaubriand, Lamartine, mais se faz sentir no autor – a par de laivos ainda, e vincos, da formação neoclássica, particularmente de Filinto Elíseo (de que é exemplo também a estrofe citada acima).

2)D.ª Branca. Trata-se da 5.ª edição, incluída na publicação das obras completas na Imprensa Nacional portuguesa, saindo este volume em 1874. O exemplar foi comprado e assinado por Alfredo Troni, em Luanda, a “9 de Junho de 1880”, sobre uma data, manuscrita, de 1876. Apresenta ainda carimbo da “Biblioteca Municipal de Loanda”. 
Recorde-se que estas duas primeiras obras assinalam o princípio do romantismo em Portugal e estão marcadas pela educação clássica e neoclássica do autor (D.ª Branca, aliás, é dedicada a Filinto Elíseo), assegurada pelo Bispo de Angra do Heroísmo, seu tio. Apesar disso, diz Lopes de Mendonça, nelas Garrett “inventa o poema da actualidade, dando-lhe um cunho, uma individualidade toda portuguesa” (Mendonça, 1855 pp. 78, 81). Estas duas obras, superiores no entender de Lopes de Mendonça, teriam aberto o caminho poético e nacional de Garrett, sendo portanto seminais.

3)Flores sem fruto, encontradas num espólio de 1856 (de um jovem médico), em Benguela, sem mais indicações. A primeira edição é de 1845 e reúne um vasto arco temporal de produção lírica (1823-1844) – por isso mesmo elucidativo da progressão poética de Garrett. Como o título indica, são já poemas, em termos de motivos e temas, mais inclinados à melancolia do que à reprodução da espécie...  

4)Romanceiro, exemplar da 3.ª ed. (v. II), saída em Lisboa, na Imprensa Nacional, em 1875 e que se encontra na Biblioteca do Governo Provincial de Luanda. 
O Romanceiro veio coroar a adesão e atenção garrettianas à lírica popular, uma prática típica do romantismo europeu, que depois o realismo vai re-politizar. Antero de Quental possuía, na sua biblioteca, justamente esta edição do Romanceiro[1], que o poeta português iniciara quando exilado em Inglaterra e sob influência do trabalho de Walter Scott.
Mas o mais importante ainda sobre o Romanceiro, para nós, é lembrar, com Carlos d’Alge, que esta ligação de Garrett às tradições populares portuguesas lhe traz versões pernambucanas das mesmas. 
As tradições orais que os portugueses transportavam na memória, por exemplo quando vinham para Angola, não costumam ser consideradas quando estudamos a nossa literatura. Porém terão tido, em alguns lugares e momentos, uma presença mais insistente (quotidiana mesmo) do que a literatura portuguesa (escrita). Da mesma forma, tradições populares do Nordeste brasileiro, que são, por vezes, versões crioulas de estórias e lendas ibéricas, ou europeias, vinham também com os ‘brasileiros’ para Angola, mais numerosas provavelmente que os livros no porão. O romanceiro de Garrett, sobretudo por influência de uma velha criada pernambucana, realizará várias vezes uma síntese entre as tradições orais portuguesas e a sua versão brasileira. É daí que extrairemos termos de comparação mais úteis para, junto com outros elementos, entendermos por exemplo estórias populares nossas onde aparece um espelho mágico para dizer quem é a mais bela…
Além da contribuição para o intercâmbio entre oralidades diversas nas aldeias e pequenas cidades angolanas, o Romanceiro de Garrett serviu-nos como estímulo e sanção para o que o próprio Cordeiro da Matta pretendia: recolher as tradições locais, passá-las à tipografia e, por aí, divulgá-las no presente, conservá-las no futuro, cimentando assim um projeto nacional – como fazia Garrett com Portugal. Mesmo que só tenha lido esta edição, de 1875, o poeta do Quanza leu-a a tempo de ela exercer esse estímulo sobre si.

5)Duas edições de Versos: fábulas e folhas caídas – uma existente na biblioteca do Governo Provincial de Luanda e outra no Arquivo Histórico. O exemplar do GPL tem a assinatura de Joaquim Eugénio de Salles Ferreira, bibliófilo e professor já referido atrás. 
Sobre Folhas caídas não será necessário falar agora, pois é a recolha lírica mais famosa do autor. Em resumo lembro somente que é também a mais romântica das coletâneas de versos que publicou. No caso, trata-se de um volume publicado em 1853.
6)a 4.ª ed. de Versos: lyrica (vol.I), saída em Lisboa, na Imprensa Nacional, em 1869. O exemplar foi comprado por Alfredo Troni no mesmo dia da 5.ª ed. de D.ª Branca e pertence à mesma coleção da Biblioteca do Governo Provincial de Luanda, de obras de Garrett publicadas pela Imprensa Nacional portuguesa. Troni, como no exemplar de D.ª Branca, localiza-se em “L.ª”.

7)Discursos parlamentares. Trata-se da edição de 1871, das Obras completas do autor, saída em Lisboa na Imprensa Nacional. O exemplar encontrava-se na Biblioteca do Governo Provincial de Luanda e não tinha qualquer assinatura ou carimbo.

8)finalmente, a 1.ª ed. das Obras completas, feita pela Imprensa Nacional portuguesa a partir de 1845.

9)a biblioteca do Governo Provincial de Luanda guarda ainda uma Lírica de João Mínimo impressa em Londres em 1829 (reunindo poemas de 1815 a 1823), bem como as Flores sem fruto de 1845 (Garrett, 1845).

Sobre Garrett há bibliografia crítica suficiente para que me abstenha, por agora, de mais comentários. Apenas umas notas:

1)  A relação de Garrett com João Mínimo é no mínimo ambivalente. Um seu amigo, Duarte Lessa, escrevendo-lhe de Liverpool a 11 de Maio de 1829, trata-o pelo poetónimo[2]. O João Mínimo que ele tanto ironiza na nota introdutória (e com tanta graça que ainda hoje nos faz rir) é o próprio Garrett enquanto leitor do grego e do latim, dos clássicos gregos e latinos e admirador convicto das melhores obras do neoclassicismo. Isto acentua o que digo no ponto seguinte quanto à sua moderação estética.

2)  A influência de Rousseau, Chateaubriand e Lamartine sobre ele, que vem confirmar o espetro bibliográfico estudado para o período de formação do romantismo lusófono e a tendência esteticamente moderada desse mesmo movimento (Vieira, 1991: 76). Isso mesmo o próprio Garrett corporiza logo de início (Machado, 1986: 27), citando tanto Horácio e Virgílio quanto Schiller, Byron ou Lamartine. Bulhão Pato, referindo-se às preferências do poeta, menciona “Shakespeare, Schiller, Goëthe. Acima de todos Shakespeare; como Lord Macaulay, Garrett julgava-o o primeiro poeta do mundo, depois de Homero.” (Pato, 1877 p. 56). Ora Shakespeare, dramatizando no seu tempo sentimentos quase românticos, apresentava-se como síntese entre a sensibilidade do tempo e a forma clássica, uma síntese que talvez Garrett tenha buscado em alguns momentos da vida. Essa percepção (da contemporaneidade afectiva de alguns escritores clássicos, renascentistas, iluministas e neoclássicos europeus) conjugava-se com a sua própria vida. 
    A propósito da influência de Rousseau vale a pena mencionar um episódio aparentemente paralelo: foi através de notas colocadas a uma edição da Nova Heloísa que Almeida Garrett iniciou a sua relação com a jovem Adelaide, tão polémica e tão forte entre os dois (Pato, 1894 pp. 66-67). Justamente a sofrida relação de Heloísa e Abelardo representou para os românticos o tópico do amor profundo, invencível e esmagado pelas convenções. A apropriação dos clássicos fazia, mesmo assim, parte da moderação do Romantismo e Garrett constituiu eloquente exemplo. Outro factor importante nessa moderação estética foi o próprio método de trabalho de Garrett, em tudo oposto ao mito genial do romântico: “ninguém era mais cuidadoso e demorado em rever, corrigir, alterar, limar, polir as suas obras.” (Pato, 1877 p. 57)

3)  A sua crítica à voracidade colonial, exarada várias vezes no que ao Brasil se refere (recorde-se a estrofe citada no início), por exemplo nesta passagem: “...colonos só diligentes em explorar as entranhas da terra por haver, o fatal abandono tão longos anos retardou a prosperidade da América meridional...” (Vieira, 1991: 78). Estas considerações, incluindo na compreensão do papel da agricultura para o desenvolvimento, não ficaram longe das que propôs o nosso Joaquim António de Carvalho e Menezes, em e para Angola.

4)  A sua fascinação pelo exótico, o mito (rousseauniano) da natureza selvagem não corrompida pelo homem urbano europeu, que o leva a aconselhar (por exemplo os épicos brasileiros) a colocarem cada vez mais essa natureza nos seus poemas. Esta fascinação manteve-se em todo o Portugal no século XIX e levou os editores do Almanach de lembranças (um setor populista do ultrarromantismo lusitano) a estimularem a criação de poemas incluindo aspetos locais, quer linguísticos, quer etnográficos.

5)  A afirmação, no prefácio das Flores sem fruto, de que havia feito, “quando não devia […] prosa em anos de versos”. Falo disso por motivos que explicito mais à frente.

6)  Terá começado a circular muito cedo no Atlântico lusófono a sua obra. Data de 1830 um pedido do Maranhão, enviado a Duarte Lessa (o tal amigo de Garrett) em Liverpool, para que remetam vários livros de Garrett[3]. O anúncio mais antigo no Diário de Pernambuco é, no entanto, de 1840. Passados, portanto, 10 anos – o que reforça a sensação de desfasamento entre o circuito comercial e as leituras do escol intelectual.


Mas não foi só a geração de Cordeiro da Matta que leu Garrett, incluímos nesta pesquisa o primeiro dos nossos poetas a publicar em livro. Maia Ferreira teria lido, ainda no período de formação, com atenção e gosto, Almeida Garrett – em particular a lírica. A linguagem antiquada de Maia Ferreira, ele vai buscá-la em grande parte ao poeta lusitano. O léxico de ambos dá o mesmo sinal: “vergel”, “primor”, “candura”, “formosura” (fermoso(a)), “fel”, “deleite”, “luz funesta”, “fado”, “mago”, feitiço (enfeitiçar, enfeitiçado), etc. Garrett escreve:

Não sabe das flores
Senão viço e cores;

Maia Ferreira escreve:

És a flor em viço e cores.

Maia Ferreira também cultiva a combinação entre versos mais longos e seus quebrados, à maneira de Garrett. É verdade que estas características estão presentes em Gonçalves de Magalhães, que provavelmente Maia Ferreira leu. Mas os ritmos são os de Garrett, mesmo de forma geral as soluções estróficas se aproximam do lírico português e das métricas de Gonçalves Dias, muito mais que de Gonçalves de Magalhães ou de Alexandre Herculano.

Além destas relações intertextuais, é fácil explorar outras a partir de outros poemas de Maia Ferreira. Leia-se, por ex., «Era um anjo!» (Espontaneidades..., 2ª ed., pp. 44-46); «A uma menina» (Espontaneidades..., 2ª ed., pp. 46-49). Observe-se também o tratamento dado ao motivo dos olhos, um motivo central em «Os teus olhos / À Exmª Srª D. M. Rezende» (Ferreira, 2002 pp. 90-91) e «A uns olhos que eu vi» (Ferreira, 1849 pp. 111-112). Leia-se também a epígrafe de «A minha viagem / ao meu amigo António Pereira da Costa Jubim» (Ferreira, 2002 pp. 120-123).

A bibliografia de Almeida Garrett começa a divulgar-se no Recife a partir de 1840 (nove anos antes de saírem as Espontaneidades) e, nessa primeira fase, é preponderante o seu teatro, bem como a Lírica de João Mínimo. Portanto o que ele tinha de mais arcádico. Dão testemunho disso as Flores sem fruto, que também aparecem num espólio de 1856 em Benguela, como disse atrás. 

É na introdução ao livro que Almeida Garrett escreve: “fiz, quando não devia, fiz prosas em anos de versos”. O texto foi lido certamente por J. D. Cordeiro da Matta, que deu esse nome («Prosas em Anos de Versos») a crónicas suas. As Flores sem fruto são menos românticas que as Folhas caídas. Misturam clássicos, ingleses, outras referências mais e menos românticas, mas requentam muito o sabor dos versos de Filinto e de outros, alguns com inversões artificiais do calibre das que lemos em Castilho. Não foram de uma grande ajuda para o romantismo lusófono, por isso também não foram tão marcantes como as Folhas caídas. Explicam, porém, esse mesmo romantismo no que diz respeito a Angola, onde os tons e sons da lira sem frutos se atardavam no último quartel do século XIX.

Correspondentemente à sua influência sobre Maia Ferreira e os nossos versejadores novecentistas, as fontes estudadas, juntando agora os dois lados do Atlântico, atestam a circulação de “pessas de theatro”, o “Teatro”, A Padeira de Aljubarrota, D.ª Branca ou a conquista do Algarve (“obra posthuma de F. E.”), o Retrato de Vénus (publicado em 1821, com uma epígrafe do Paraíso Perdido de Milton), Camões, a Lírica de João Mínimo, as Flores sem fruto, as Folhas caídas, as Viagens na minha Terra, Mérope, Um Auto de Gil Vicente, o vol. II do Romanceiro (sobre “romances cavalheirescos medievais”), Da Educação, Portugal na Balança da Europa, Discursos Parlamentares. Destes títulos, até 1850, circulavam só A Padeira de Aljubarrota, Camões, D.ª Branca, Da Educação, a Lírica de João Mínimo, Portugal na Balança da Europa, Retrato de Vénus e o Teatro (portanto, provalvelmente, Mérope e Catão).

Para o período inicialmente estudado (1827-1850), a listagem era representativa de um gosto literário ainda muito marcado pelos neoclássicos, até porque a obra de Garrett não tinha sido toda publicada nesse período. A Lírica de João Mínimo, o Retrato de Vénus, mesmo Camões e D.ª Branca são exemplos desse gosto – apesar de iniciarem o Romantismo em Portugal. Fidelino de Figueiredo acrescenta as Fábulas e Contos (também constantes no corpus estudado, mas não na fase inicial), as tragédias, as Odes Anacreonticas, os Fragmentos – ao mesmo tempo retira daí Camões, D.ª Branca, e só considera “da primeira fase” o “1.º livro das Flores sem Fructo”.

Camões tem sem dúvida condições para ser colocado no início do romantismo, tal como D.ª Branca. Fidelino de Figueiredo aponta-nos as razões: no caso do Camões, a procura do “efeito sentimental da paisagem”, que, a par da “exaltação do sentimento” e da “sinceridade do culto de Camões, a identidade de situações e o prestígio da lenda amorosa do épico”, reúnem as condições de receção que reforçaram o frouxo vigor lírico da mal conseguida obra. Escrever “em verso branco e em estâncias sem número fixo de versos” não sei se foi propriamente uma invenção do Camões de Garrett, ou contributo para o romantismo (mais do que o de outros). É de notar, aliás, essa escolha em Filinto Elíseo e, por outro lado, de ressaltar que a evolução de Garrett vai no sentido contrário, da recuperação da rima, refrescada já pelo cancioneiro popular português.

Quanto a D.ª Branca, o crítico português realça, como para o Camões, “a irrupção nova do amor”, que “passou a ser considerado uma realidade, uma fatalidade irresistível”. Isso dá-lhes um romantismo temático, por assim dizer: tem motivos e temas, conteúdos, que são do romantismo, tal como o Castilho dos primeiros livros românticos. Mas ainda ali o verso muito se ressente da formação arcádica do autor e, particularmente, da influência de Filinto Elíseo, mais que de Bocage – pese embora o que diz Lopes de Mendonça. O verso traz um ritmo seco, empertigado, com vocabulário e imaginário camoniano (o “dos vastos mares”), clássico e neo-clássico (“a lamentosa Alcyone”), ou forçando uma sugestão popular e antiga (“a soidão melancólica das águas” – onde apenas a “melancholia” traz um eco moderno, talvez retinindo no nosso Maia Ferreira. Lopes de Mendonça corrige, ao transcrever, e fica realmente melhor assim: “a solidão melancólica das águas”, apesar de estragar a métrica e o ritmo). Note-se que, no «Prólogo» da 2.ª ed., Garrett confessa que, relativamente à 1.ª ed., “do stylo tirei muitas voltas do arcaísmo forçado que sabiam à reação filintista em que estava a língua [dos escritores, naturalmente] quando primeiro o compus”.

O romantismo era também, neste pensamento, uma escola, que porém se preocupava mais com o parecer autêntico e natural do que os anteriores poetas. Qualquer coisa que o parnasiano Olavo Bilac (cuja poesia Pedro Félix Machado conheceu bem) resume poeticamente no soneto «A um Poeta», quiçá alusivo ao beneditino forçado Junqueira Freire, uma das referências do romantismo brasileiro:

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

O prólogo de Almeida Garrett, que nos faz deduzir o artificioso do Romantismo, vem datado de “Agosto, 1848”, pelo que essa nova D.ª Branca só entra em linha de conta na segunda metade do século XIX. Para lermos a lírica da geração de 1878 faz-nos falta, era uma espécie de manual para escritores românticos, já depurado das conspurcações contemporâneas à adolescência do poeta. Para lermos a poesia de Maia Ferreira devemos, no entanto, ater-nos à primeira edição. Tudo junto, mais as estrofes sem rima nem número fixo de versos, factos literários envolvidos pela dominância bibliográfica neoclássica, todos esses traços deram ao contributo inicial de Garrett uma leitura que resulta, precisamente, no poeta luandense – também da adolescência e da juventude. Não esqueçamos que o seu livro é publicado em 1849 ou 1850 (recorde-se também que as Folhas caídas só caem para o público em 1853). Isso era já e também um romantismo habilidoso (talvez mais hábil que habilidoso nas Folhas caídas), o mesmo que distingue os melhores poetas do que tenho chamado o ultrarromantismo lusófono (que é “ultrarromantismo” no conteúdo, que para parecer autêntico exagera e porque não o é não se renova).
A colocação intermédia (entre neoclassicismo e romantismo) foi de resto referida por Herculano, o companheiro de romantismo – também ele intermédio: “elas [as obras de Garrett, “como poeta”] começam o período de transição entre a velha Escola chamada clássica e a Escola, que denominaram romântica, e a que nós chamamos ideal, nacional e verdadeira”. Repare-se que Herculano, menos dado aos artifícios da ‘naturalidade’ que Almeida Garrett ou Castilho, fala na “Escola, que denominaram romântica”. Era uma escola, que se opunha a outra. Se os dois mais destacados introdutores do romantismo escreviam assim, porque não fariam o mesmo os seus seguidores?

A progressão da poesia de Almeida Garrett, segundo Lopes de Mendonça, vai progressivamente aproximando-o do “ideal do poeta moderno”. O que implica a síntese, não apenas entre clássico e romântico, mas a síntese entre “popular” e “filosófico”: “nas suas obras ele combina ao mesmo tempo o elemento popular e o elemento filosófico da humanidade – e o problema da arte reside talvez nessa ligação espontânea: a mocidade gravita irresistivelmente nesse feliz impulso que há de fundamentar d’uma vez a poesia nacional.” (Mendonça, 1855 p. 79)
Esta lição de Lopes de Mendonça parece, mais uma vez, ter sido lida e acatada pelos poetas do Jornal de Loanda. Não recordo só Alfredo Troni escrevendo a Nga mutúri, nem Pedro Félix Machado as Scenas d’África. Recordo sobretudo a lírica bilingue de J. E. da Cruz Toulson, J. D. Cordeiro da Matta e alguns outros. Se ela nem sempre nos aproximou de qualquer reflexão filosófica sobre a humanidade, foi pelo menos uma séria e geralmente conseguida tentativa de aproximação ao popular e, portanto, ao nacional.


Um apontamento, para rematar, agora sobre intertextualizações de Cordeiro da Matta com a obra de Garrett. 

No poema «Zelos» o nosso autor escreve “Galerno vento lhe corre / agora no infindo espaço” (Matta, 2001 p. 149). A expressão “galerno vento”, que parece neoclássica, não é tão comum como podíamos supor – embora a encontremos na lusofonia do século XIX. Almeida Garrett usa-a por duas vezes na sua poesia, embora com a acepção própria, ou inicial, ou denotativa (uma delas em O chaveco liberal, em 1829 (Garrett, 1829)). A acepção em que a usa Cordeiro da Matta aparece no vol. 8 da Bibliotheca familiar e recreativa (D., 1841), num poema dedicado a “hum amigo / a respeito de outro, que se queixava de não ser contemplado nos despachos sendo fidalgo”. Também aqui a lírica de Almeida Garrett fazia a transição entre as duas escolas (neoclássica e romântica), usando o nosso poeta a aceção mais tardia, mais próxima do seu tempo – julgo.


A presença de Garrett no Romantismo português representa, à sua maneira, também uma parte da herança clássica e neo-clássica. As leituras que certos retóricos e críticos franceses faziam dessa herança cultural era idêntica. Ouvia-se nos grandes oradores antigos perorar um espírito vivo, critério a partir do qual uns eram mais elogiados que outros. Transfiguravam-se neles as discussões políticas, partidárias e filosóficas da época. Foi o que fez, assumidamente, Almeida Garrett no Catão:

Eu tinha feito o meu primeiro estudo sobre o homem antigo na antiga sociedade: pu-lo no expirar da velha liberdade romana, e no primeiro nascer do absolutismo novo, ou que deu molde a todos os absolutismos modernos, o que vale o mesmo. Dei-lhe as formas dramáticas, é a tragédia de Catão.

Aqui se continha uma identificação contemporânea, de caráter político, pela crítica aos “absolutismos modernos, o que vale o mesmo”. Catão já tinha sido classificado por Salústio como a antítese de Júlio César (este visto como benévolo, beneficente, misericordioso, Catão como austero, íntegro e impiedoso no cumprimento das Leis) e havia “versões setecentistas portuguesas do Cato de Addison”, às quais Lola Geraldes Xavier e José Baptista de Sousa ligam diretamente o Catão de Almeida Garrett, como já o fizera Lopes de Mendonça nas Memórias da literatura contemporânea (Mendonça, 1855 p. 80). Fidelino de Figueiredo fala também na obra de Raynouard como antecedente e associa a feitura do Catão ao cerco do Porto. Levada à cena em Plymouth (onde Alexandre Herculano escreveu o poema «Deus»), em pleno fervor liberal e numa estratégia preciosa de marketing político, a peça misturava também formalmente os traços românticos e clássicos.

Independentemente de o seu romantismo ser sincero, Garrett não se livra do jogo de influências e, quando o menciona, mostra mesmo alguma saturação do ‘ismo’. É o que o leva a escrever, no Camões: “não sou clássico nem romântico” e a seguir as suas “ideias, boas ou más”, sem procurar converter os outros ou ser por eles convertido. O que se confirma por estas citações:

[Byron] que tão ridiculamente aqui macaqueiam hoje os Franceses

Precisa [quem quiser escrever a grande obra da Inês de Castro], é verdade, ser um Shakespeare ou um Schiller; sobretudo precisa esquecer todos os exemplares clássicos e românticos, não querer fazer à Racine ou à Vítor Hugo, à maneira deste grego ou daqueloutro latino ou destoutro inglês, e criar-se a si, para o assunto. O que principalmente falta é esta resolução.

Estas palavras suscitam duas contradições interessantes e uma dualidade sintomática. A dualidade entre o “grego”, o “latino”, de um lado, e o “inglês” do outro. Sintomática, digo, porque se trata precisamente de duas das vertentes mais fortes dos mercados bibliográficos investigados.

A primeira contradição, interna, é ser Shakespeare ou Schiller para pegar no assunto ao mesmo tempo em que, logo a seguir, se critica o escrever “à maneira de”. A contradição é aparente, na medida em que é preciso ser “um Schiller” (possuir a sua intensidade e profundidade criativas) e não escrever “como Schiller”. É a defesa romântica da inspiração pessoal ou do génio, feita em muitos outros momentos e que possui várias vertentes também. Por exemplo a que defende que era preciso ter um génio extraordinário para igualar Byron. Por outro exemplo, da vertente que leva à impugnação das regras, que afinal eram respeitadas mas de uma nova maneira, é o caso do prefácio do autor ao Camões (1825), atrás citado: 

porém declaro desde já que não olhei a regras nem a princípios, que não consultei Horácio nem Aristóteles, mas fui insensivelmente depós o coração e os sentimentos da natureza, que não pelos cálculos de arte e operações combinadas do espírito. 

Também exemplar é o prefácio do autor (em 1843) às Flores sem fruto, quando carateriza a poesia: 

[...]isto porém que nasce espontâneo d’alma, que vem, como ejaculação involuntária de dentro, quando transborda o coração de júbilo, ou de pena, ou de admiração; isto que é o falar do homem para Deus n’aquelas frases incoerentes, inanalizáveis pelas gramáticas humanas, porque são reminiscência da língua dos anjos, que ele soube antes de nascer; isto que se intoa e se canta no coração, antes e muito mais belo do que o repita a língua. 

Por isso dele se diz também que “a vida de um poeta há de sempre ter capítulos misteriosos, transições inexplicáveis e inesperadas; a filiação de suas ideias e de seus sentimentos é quasi sempre cryptogâmica”. No seu próprio prefácio às Folhas caídas defende que “o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossível” e assume que 

as presentes Folhas caídas representam o estado d’alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito que, tendendo ao seu fim único, a posse do Ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a ele – ora ri amargamente porque reconhece o seu ingano – ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã.

Note-se que ele diz que a poesia “representa”, não grafa “cria”. A poesia, para os românticos, é ainda um reflexo. Ela reflete, porém, “o estado d’alma do poeta” em busca do ideal, é como um espelho do seu interior momentâneo e do percurso inquiritivo de uma vida própria de anjos caídos.

Essa ideia entra em contradição com outras de outros livros, por exemplo quando a poesia é comparada a uma ninfa (no «Hino à Poesia»), ou com os arcaísmos forçados. No «Prólogo da 2.ª edição» de D.ª Branca ele desdiz o mito romântico da espontaneidade, embora mantenha o da harmonia com a natureza, que era já neo-clássico. Escreve: 

puz-me a reler [“no campo”] a Dona Branca, marcando as incorreções do stylo e as criancices de conceito que lhe fui achando; e vi que [...] era preciso revolvê-la de alto a baixo. 

"O que hoje se publica”, na 2.ª edição, é isso. Após o trabalho de correção e aperfeiçoamento, “o enredo ficou mais claro, e os seus episódios mais ligados.” Como já transcrevi, “do stylo tirei muitas voltas do arcaísmo forçado que sabiam à reação filintista em que estava a língua [dos escritores digo eu] quando primeiro o compus”. 

O arcaísmo linguístico, associado por Garrett em 1848 à “reação filintista” e que também marcou soberanamente Alexandre Herculano, foi o que se aparou, por se achar forçado. Mas é estranho que o forçado seja natural o suficiente para só o percebermos depois… De qualquer modo, se isso implicou uma aproximação a parte significativa da linguagem literária romântica, ela foi realizada após a saída da 1.ª ed., a que se diz marcar o início do movimento em Portugal. O início era ainda “filintista”. Como diz no prefácio ao Camões (de 1825), não era “clássico nem romântico”.

Também se contradiz em muitos outros lugares, por exemplo quando afirma, no Catão:

O estudo do homem é o estudo deste século, a sua anatomia e fisiologia moral as ciências mais buscadas pelas nossas necessidades atuais [.../...] revesti-los [“os factos do homem”] das formas mais populares e derramar assim pelas nações um ensino fácil, uma instrução intelectual e moral que, sem aparato de sermão ou preleção, surpreenda os ânimos e os corações da multidão, no meio de seus próprios passatempos – a missão do literato, do poeta.

A defesa da função didática da poesia, que o liberalismo (pelo menos na altura) refundiu mas sobretudo prolongou, era canónica já para clássicos e neo-clássicos, passa pelos românticos e ganha novo relevo com o realismo, o naturalismo, a arte ‘empenhada’. Ela parece, porém, contradizer a teoria do génio que nos toma e nos torna “um Shakespeare” sem que escrevamos como ele, imitando-o.

A função didática da poesia articula-se com a função política do poeta, enquanto nacionalista. Ela vem exposta estrategicamente no Romanceiro, de que temos exemplar na Biblioteca do Governo Provincial de Luanda. O exemplar faz parte das obras completas editadas pela Imprensa Nacional e não tem assinaturas, apenas os carimbos da “Biblioteca Municipal de Loanda” (com o). Na «Introdução» do autor, ele assume que o seu “ofício” é 

popularizar o estudo da nossa literatura primitiva, dos seus documentos mais antigos e mais originais, para dirigir a revolução literária que se declarou no país, mostrando aos novos ingenhos que estão em suas fileiras os tipos verdadeiros da nacionalidade que procuram, e que em nós mesmos, não entre os estrangeiros, se devem encontrar. 

Entende-se como tais lições calavam fundo, mutatis mutandis, na alma angolense de Cordeiro da Matta e seus companheiros…

É por aí mais marcado o romantismo de Garrett e é esse romantismo nacionalista, nativista, que nos influencia até muito mais tarde. No prefácio à Adozinda e ao «Bernal Francês», Garrett mostra-se farto de “Olimpos e Gnidos”, indo por isso mais atrás, buscar “fadas e génios, encantos e duendes”, o que implica “outro modo de ver, de sentir, de pintar, mais livre, mais excêntrico, mais de fantasia, mais irregular, porém em muitas coisas mais natural”. A poesia romântica era, paradoxalmente, vista como “a nossa própria, que não herdámos de Gregos nem de Romanos, nem imitámos de ninguém mas que nós modernos, criámos” ressuscitando as “antigas galas”, porém “melhor talhadas”, com as “feições primeiras [...] mais compostas”. Ou seja: polidas.

Lembrando-se da espontaneidade romântica, sublinha que o trabalho feito sobre o antigo não tornou essa poesia “menos natural nem menos nacional, porém muito mais amável e encantadora”. Também na «Introdução» a Um Auto de Gil Vicente postula a construção de um teatro nacional a partir das obras de Gil Vicente e Bernardim Ribeiro (de onde aproveitava a “parte íntima”), Garcia de Resende (“parte material e da forma”) – todos escritores anteriores ao triunfo do Renascimento, embora para ele de alguma forma tenham contribuído.

Além de nos estimular por este seu nacionalismo romântico, traduzido para os respetivos lugares por poetas de outros países, Almeida Garrett ocupava certamente um território especial no afeto literário de muitos angolenses e brasileiros. Ele foi um defensor ativo da abolição da escravatura e dos direitos iguais para os libertos e os homens livres (defendeu isso, por exemplo, no Conselho Ultramarino). Teve como secretário F. Gomes de Amorim, que o informava sobre a vida no Brasil, dos emigrantes escravizados e dos escravos de raiz, ou dos africanos, e teve em Angola um particular amigo, Teixeira de Vasconcelos, uma figura que obriga a destacar novo parágrafo.

António Augusto Teixeira de Vasconcelos (1816-1878), que não sei se foi ascendente do poeta português Teixeira de Pascoaes (não figura nas genealogias do homem de Amarante, a que tive acesso em rede), foi jornalista e fundador de jornais muito temido em Lisboa. Foi também militar e político, miguelista e progressista, escritor, formando-se em Direito em Coimbra em 1844, junto ao Mondego se entregando às Musas com o grupo do Trovador de João de Lemos, Gonçalves Dias e outros (Pato, 1877 pp. 45-46).

Em face das dificuldades económicas decorrentes do seu envolvimento numa revolta no Porto, acabou montando banca de advogado em Luanda, para onde partiu em 1850. Aqui se tornou personalidade conhecida, liberal, endinheirada e gastadora, opondo-se muitas vezes ao Governador-geral. Logo poucos meses depois de chegar elegeu-se Presidente da Câmara Municipal, em oposição ao candidato governamental. O exercício do cargo permitiu-lhe descobrir muitas irregularidades oficiais relacionadas com o tráfico de escravos, que denunciou, pois era abolicionista convicto e, nesse sentido aliás, fez o famoso elogio fúnebre do Governador Pedro Alexandrino da Cunha (que não chegou a conhecer), uma extraordinária peça de oratória, proferida em Luanda, sem data mas muito provavelmente em 1850 (ano da morte do Governador). 

O Governador-geral que lhe sucedeu, muito diferente de Pedro Alexandrino, convenceu-o de que o chamaram à Corte, em Lisboa e, com isso, logrou que partisse para Lisboa não regressando mais a Angola, apesar de ter desmontado publicamente essa tramóia. A experiência angolana foi relatada nas páginas de A revolução de Setembro – órgão no qual colaboraram Lopes de Mendonça, João d’Aboim (amigo e padrinho literário de Maia Ferreira) e vários outros. Publicou em Lisboa o folheto Carta acerca do tráfico de escravos na Província de Angola, sendo aparentemente a carta dirigida ao ministro da Marinha e ao Secretário de Estado do Ultramar. Depois teve uma vida recheada de sucessos, brilhantismo e polemismo, quer em Paris, quer em Lisboa.


O Jornal do Povo noticiava, em 11-3-1854, que o causídico faria sair “uma obra com o titulo - Tres annos em Africa”, da qual se esperava, por “excerptos publicados na Revolução de Setembro”, que trouxesse contributo valioso aos “melhoramentos das nossas colonias d'Africa”. Não tive mais notícia da obra, portanto não sei se terá chegado a vir a público, ou se mudou de título entretanto.
Muito com base nas informações de Teixeira de Vasconcelos (e nas do seu secretário Gomes de Amorim) terá Garrett inspirado o relatório sobre a Organização e Regimento da Administração da Justiça nas Províncias de Angola, São Tomé e Príncipe e suas Dependências, para o qual escreveu um Relatório também. 

Para além disso revelou um conhecimento razoável acerca do Brasil (onde morou um seu antepassado, de apelido Leitão), conviveu com muitos brasileiros e leu a maior parte da literatura brasileira dos séculos anteriores. Censurou a Tomás António Gonzaga não ter aspirado a cenários mais “americanos” (como então se dizia), censurou Santa-Rita Durão por não ter ido mais longe no seu americanismo e elogiou Basílio da Gama por ter integrado, com beleza e perfeição, a paisagem brasileira na estrutura literária europeia, sem afetações e por nacionalismo.

Para nós, em Angola, tudo isso é muito significativo. Maia Ferreira, apesar do pai, foi um defensor da abolição da escravatura e terá, no Brasil, apanhado alguma coisa do nativismo de Garrett, reforçado pela proximidade de Gonçalves Dias e pela admiração que por ele muito provavelmente nutria. É significativo também porque vai enquadrar o trabalho de Cordeiro da Matta sobre a literatura oral. O nosso poeta buscava justamente fazer o mesmo que Garrett (levantar as “primitivas fontes poéticas” angolanas) e com intuito nacionalista. Não estava preocupado com o Romantismo já, com a “revolução literária”. Queria sim proporcionar, aos do seu tempo e aos posteriores, a par de uma patrologia e da sociologia urbana angolenses, um exemplo de “tipos verdadeiros da nacionalidade [literária...] que em nós mesmos, não entre os estrangeiros, se devem encontrar”. Teriam sentido ambos, apesar de todas as diferenças pessoais e contextuais, “que é preciso [...] estudar as nossas primitivas fontes poéticas” para construir uma literatura nacional.

Garrett deixou um lastro atuante na cultura portuguesa e o neogarrettismo veio comprovar exatamente isso, recordando-o como defensor da liberdade, da monarquia e da pátria. Francisco Gomes de Amorim, emigrante-poeta de que há duas obras na Biblioteca do Governo Provincial de Luanda, veio testemunhar com uma dessas obras um momento crucial para o arranque do processo. Em Luanda pude consultar o vol. II das Memórias biográficas de Garrett, escrito por quem lhe terá ouvido as últimas palavras e secretariado os últimos anos. O testemunho é vibrante, singelo e apaixonado, como os versos de Gomes de Amorim, conhecidos também pelos periódicos da altura, incluindo o Almanach de Lembranças...






[1] Catálogo da livraria de Anthero de Quental: legada à bibliotheca pública de Ponta Delgada. Lisboa: Ulmeiro, 1993. p. 7. Fac-simile.
[2] Eduardo Honório – Cartas a Garrett. Maia: CMM, 2000. p. 79.
[3] Eduardo Honório – Cartas a Garrett, pp. 80-81.

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