Alexandre Herculano (1810-1877)
foi um dos autores lido e reverenciado no Atlântico lusófono no século XIX. Aqui vou referir, em particular, o que circulava no Recife (de onde veio bibliografia para Angola até, pelo menos, 1850), quer em
Luanda, quer em Benguela.
Nos
Inventários orfanológicos de Benguela
aparecem:
.
“O Monasticon”, em 3 vol’s., num espólio de 1855
(um díptico narrativo constituído por O
monge de Cister e Eurico, o
presbítero). Pertenciam a um riquíssimo comerciante português.
.
“O Bobo”, na edição póstuma da Viúva Bertrand,
de 1878 (exemplar incluído no espólio da Biblioteca Municipal de Benguela, constituído e organizado pela Fundação Gulbenkian a partir de ofertas próprias e doações locais).
Em
Luanda predominavam
.
as Lendas
e narrativas (a 6.ª ed., na atual Biblioteca do Governo Provincial, e a 12.ª, no Arquivo
Histórico).
.
Os “Opúsculos – Questões públicas”, numa edição
de 1873 encontrada na Arquivo Histórico Nacional (as Questões constituem o tomo II dos Opúsculos, publicados a partir desse ano).
Vendiam-se
e procuravam-se dele, no Diário de Pernambuco do Recife, A harpa do Crente, com A voz do Profeta e as Questões públicas dos Opúsculos, obra para cuja importância
Fidelino de Figueiredo chamara já a atenção.
A
6.ª ed. das Lendas e narrativas,
encontrada na antiga Biblioteca Municipal de Luanda, é sintomática para quem
estude a circulação e uso da literatura na então colónia: no verso da penúltima
folha, toda em branco, vemos o carimbo da “CML/Biblioteca” (ao fundo à
esquerda) e, na parte de cima da página, em toda a largura, uma conta ou lista
de produtos de mercearia (p. ex.: “duas latas de leite”). O exemplar é doado à
Biblioteca por alguém cuja assinatura não se percebe, mas importa dizer que a
doação foi feita em 7, 17 ou 27 de Setembro de 1920.
Também
a nossa lírica de antanho denota a leitura de Alexandre Herculano em várias ocasiões. No
famoso poema «Libelo a Portugal», publicado no Pharol do povo (n.º 9), em que o poeta Cordeiro da Mata pede ao “velhinho” a
liberdade de Angola, há uma referência que põe Herculano ao nível de Camões,
logo na segunda estrofe (Mata, 2001 p. 146) :
De Camões o poema e de Herculano a história,Tudo, ó egrégio velho, fala em tua glória.
No
território que hoje é Angola, “Um Vimaranense” escreve em memória de Alexandre
Herculano um poema que publica no Almanach
de Lembranças para 1882 (p. 48). Aí é já do intelectual, historiador e
político íntegro que se fala, íntegro defensor da verdade e da liberdade. Mas,
curiosamente, nos anos pesquisados no Recife, era a poesia lírica dele que mais
circulava, em especial A Harpa do Crente.
Precisamente,
esse é um livro marcado pela poética neoclássica – apesar de Herculano
ser, no vocabulário e nas referências, o mais romântico dos iniciadores do
movimento em Portugal. Para além de algum verso forçado, com remendos para
manter a métrica ou provocar a rima (por exemplo no 4.º verso de «A Voz»: “das
ondas a ardentia”), há várias inversões sintáticas
de sabor latinizante, próprias de séculos passados. É o caso deste verso e
meio de mau gosto:
Passa o vento os do pórtico da IgrejaEsculpidos umbraes
ou deste:
– quem choredo sofrimento o Herói existe ainda
O
excerto pertence à série mais antiga, a inicial, sobre a Semana Santa, um
“poema da minha mocidade” (escrito em 1829), dedicado ao Marquês de Resende.
Nele se nota a formação neoclássica do autor, cujo romantismo o era mais pelos
conteúdos e temas escolhidos (motivos cristãos antigos – destacadamente a Cruz,
legado cultural dos “avós”; alguns traços breves de paisagens tétricas e ermas)
e pelo vocabulário ‘lusitano’. Mas os critérios de composição vieram dos
neoclássicos (e boa parte do vocabulário 'lusitano' veio de Filinto Elíseo). Repare-se na métrica e no ritmo: decassílabos, heróicos em geral e sáficos em pontos muito
precisos definidos por conteúdos melancólicos. Repare-se na rima: não existe
(ao passo que no Romantismo português ela domina largamente e também não
existia no neoclássico Filinto Elíseo).
Do
poema seguinte se poderá dizer o mesmo, quer no concernente aos temas,
motivos e conteúdos (românticos), quer no que respeita ao ritmo dos versos
(decassílabos predominantemente heroicos) e
à ausência de rima, quer no que diz respeito às inversões latinizantes, como a
seguinte: “sobre esta scena o sol verte em torrentes / da manhan o clarão”.
Escrito em 1830, intitula-se «A Arrabida» e vem dedicado “a rodrigo da fonseca magalhães, ornamento da tribuna portugueza”. A
escolha do tema e algumas intertextualizações nos remetem para o século XVI, um
século XVI já tardio é certo, caminhando para o Maneirismo, mas ainda Renascentista.
Frei Agostinho da Cruz é, neste contexto, um seguro termo de comparação e nos
seus versos à Arrábida há mais frescura, mais vivacidade e naturalidade que nos
de Alexandre Herculano. Que no entanto intertextualiza com Luís de Camões,
aliás com a poesia clássica ou renascentista. E que, partindo do motivo «Arrábida»,
explora também uma das linhas temáticas que mais o caraterizam: a do
distanciamento face ao vulgo e à cidade.
Aparentemente não seria romântico, tal
como vem tratado no poema. Mas há uma corrente no interior do Romantismo,
sobretudo do francês, que é conservadora, que não confia no vulgo, se distancia
do mundo. É nela que se filia «A Arrábida» e em grande parte o romantismo de
Herculano, como (desconfio) o de alguns portugueses residentes em Angola (José
Bernardo Ferrão, ao menos no fim da vida).
A
sequência seguinte, «A Voz» (Leça da
Palmeira, 1835), é a primeira que apresenta rima. Escrita em versos mais
curtos, reunidos quatro a quatro, ganha mais ritmo, apesar de algum vocabulário
perro e uns – muito poucos – versos frouxos. Os versos, no entanto, não são tão
populares quanto a mancha das estrofes faria supor. Na verdade são
hexassílabos, ou seja, correspondem à primeira parte de um decassílabo heróico. Em todos os poemas, a ‘chave’ métrica e-ou
rítmica tem base nas seis sílabas (decassílabos heroicos, eneassílabos e
hexassílabos, por vezes combinados com os heroicos em estrofes de quatro
versos). Estes hexassílabos apresentam um ritmo de 4+2, ou seja, fazendo cesura
e acento na 4.ª sílaba. Isso é que lhes dá um ritmo vivo, bem marcado, dinâmico
– longe portanto dos magnânimos versos longos dos outros poemas. Ainda assim
aqui se repete a “Alcyone”, certamente avistada com seu ninho sobre as águas;
repetem-se as estruturas frásicas com inversões forçadas também (“Mas voz soou
ignota”). É a temática religiosa que vem lembrar, uma vez mais, Victor Hugo,
Chateaubriand, enfim, o romantismo francês. Uma temática repetida num poema de
Cândido Furtado que é uma livre imitação, precisamente, de V. Hugo…
Enquanto
as Lendas e narrativas faziam
escolhas temáticas, lexicais e estilísticas românticas, A harpa do Crente seguia
uma pauta clássica. Ora, como vimos, foi justamente a prosa narrativa do
historiador português que nós lemos nesse tempo.
Mas não só a prosa narrativa. Também a oratória, o ensaio, a polémica. O
volume II dos Opúsculos, que terá
circulado por toda esta geografia cultural, transcreve um texto seu de
referência, que muito importa aos estudos literários. A peça chama-se «Da
propriedade litteraria» e mostra uma retórica enxuta, límpida, exigente. Ela
faz, entre outras coisas, uma análise impiedosa da literatura dominante na
época.
Herculano ataca a ideia de “propriedade literária” por associá-la à
mercantilização da literatura. O que suscita a polémica é justamente uma
convenção com a França, que dominaria o mercado bibliográfico de então com
produtos muito rentáveis e a quem, por isso, interessava (na perspetiva de
Herculano) a proteção da propriedade literária. A importância que tem para nós,
além da temática abordada, prende-se com os critérios valorativos que utiliza
para distinguir a boa da má literatura, as boas das más obras.
Eles
e elas inserem-se num conceito geral ainda clássico, onde se juntam “Pedro
Nunes, a Leibnitz, a Newton, a Vico, a Brotero, a Kant”. O que lhe permite
reforçar o critério da profundidade, medida pelo alcance gnoseológico e ético
das obras. Pelo contrário, com a proteção da propriedade literária os livros
passariam a ter um valor-moeda indistinto face a outras mercadorias: “a lei de
propriedade litterária, ou antes a lei do envilecimento, que pendura a ideia no
mercado entre o barril de manteiga e a sacca de algodão, essa o que produz em
regra é os tais livros absurdos, frívolos, prejudiciais”. Os livros dos “romancistas
modernos” eram portanto uma consequência, pelo menos em parte considerável, uma
consequência da lei dos direitos de autor e edição, reforçando por sua via a má
formação do gosto público, sustentada ainda pela entrega da “alma ao espírito
immundo do Jornalismo”.
Herculano junta no mesmo pacote “os Arlincourts, os de
Kocks, os Balzacs, os Sues, os Dickens” – autores frequentes no corpus e realmente populares no século
XIX. A associação entre a popularidade, a frivolidade, a imoralidade na literatura
passava pelas curtíssimas biografias destes autores: “homens, cujos estudos se
reduzem a correr os theatros, os bailes, as tabernas, os lupanares, a viajar
comodamente [...], a adornar os vícios, a exaggerar as paixões, a trajar
ridiculamente os afetos mais puros, a
corromper a mocidade e as mulheres”. Isso tinha uma consequência mais
estritamente literária: a procura de “effeitos que subjuguem as multidões, que
espreitam as inclinações do povo para as lisonjearem, os seus gostos depravados
para os satisfazerem”. Portanto escritores sem personalidade nem criatividade
próprias, meros intérpretes das fraquezas “do povo”.
É
um censor clássico e paternalista (que no entanto fazia falta, para contrabalançar
o que ele próprio critica), um censor cuja oratória povoou grande parte da
mentalidade romântica portuguesa e lusófona. Veja-se, por exemplo, como
perdurou esta associação entre o comércio literário, o mau em literatura e o
mal eticamente considerado. No entanto, o cenário que nos dá, em traços muito
breves mas sugestivos visualmente (a “ideia” pendurada “no mercado entre o barril
de manteiga e a saca de algodão”), repetia-se constantemente nas colónias
portuguesas e no Brasil.
Em muitos casos, como o de Francisco Gomes de Amorim,
a literatura não teria entusiasmado ninguém se não fosse distribuída assim. O
paternalismo, tanto quanto uma alta exigência artística e ética, por mais
preocupado que se esteja com a alfabetização, acaba por afastar da literatura
as grandes massas de leitores e mesmo alguns criadores não teriam chegado a
sê-lo se não houvesse na mercearia, na loja onde se vendia tudo, ‘calhamaços’
velhos distribuídos quase ao preço do kg de papel. O facto é que, se esse lugar
não é ocupado pelos “romancistas modernos”, será ocupado por outros, por
exemplo por livros de superstição (também referida por Herculano) e por literatura
de mais baixo calibre ainda. Uma necessidade básica das populações, a de se
distrair literariamente, sustentará qualquer aparição que a preencha sem muita
exigência.
Ironicamente, uma das obras de Herculano, Lendas e Narrativas, era vendida assim, previsivelmente em Luanda,
incluindo numa das folhas uma conta de mercearia…
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