Simão José da Luz Soriano foi médico,
historiador e político liberal que nasceu, segundo ele próprio, a 8-9-1802 (m.
18-8-1891). A mais conhecida e maior das suas obras circulou por Benguela a meio do século XIX - a História do cerco do Porto.
É uma “obra colossal” que
aparece numa edição em 2 vol’s (a primeira de 1846-1849) de um espólio
benguelense de 1855 e que pode ter sido enviada pelo próprio autor (Soriano, 1891 p. 435) , mediante
assinaturas prévias da publicação (pelo
menos 60 (Soriano, 1891 p. 547) ) e por via do então Governador (amigo de Maia Ferreira), o Major Joaquim Luiz Bastos. No âmbito das
funções exercidas na Secretaria de Angola do Ministério português da Marinha e
Ultramar, Soriano diz ter concordado com a nomeação de Bastos, a quem se confessou
afeiçoado e “posto que não deixasse de ponderar o inconveniente de ser o
nomeado homem de cor tendo por outro lado a fama de honrado, e de grande
inimigo dos que defraudavam a fazenda publica.” (Soriano, 1891
p. 543)
Num
espólio do ano seguinte aparece o que tudo indica ser a mesma edição (sem
menção, no entanto, ao nome do autor) e pode ser que o livro tenha sido
comprado no ano anterior aos herdeiros. Uma vez que levaram para lá muitos
exemplares, é igualmente possível que não fossem os mesmos volumes em ambos os
espólios.
A menção, no espólio de 1855, fala em Francisco José da Luz Soriano,
mas trata-se mesmo de Simão José da Luz Soriano, que se tornou famoso como
historiador das revoluções liberais, famoso e polémico, através de livros como
este, História do cerco do Porto
precedida de uma extensa noticia sobre as differentes phazes politicas da
monarchia desde os mais antigos tempos até ao anno de 1820.
A obra foi publicado
em Lisboa na Imprensa Nacional, entre 1846 e 1849 como disse, pelo que a sua
presença nos espólios benguelenses era contemporânea. Por Luanda tinham sido importados,
para serem distribuídos como prémios escolares, quatro exemplares da História do cerco do Porto em 1858 (Santos, 1973 p. 126).
Foi
este o título que deu mais polémica, entre todos os do autor, mas o que cita Cordeiro
da Matta publicou-se mais tarde (sem deixar de ser polémico também). A julgar
pelo catálogo da Porbase (da BNL), Revelações
da minha vida e memórias de alguns factos e homens meus contemporâneos saiu
em Lisboa, do prelo da Tipografia Universal, em 1860, havendo uma reedição
no Porto em 1891. Essa é uma das duas obras em que Luz Soriano aponta os erros
da monarquia constitucional, prevertida por jogos de interesses, intrigas,
corrupção sistemática, até pela manipulação de contactos maçónicos. Fá-lo a partir da sua própria biografia, como o título indica.
Tendo
nascido pobre, estudante da Casa Pia, Luz Soriano singrou na vida à custa de
esforço próprio, pelo que a sua biografia interessava de certeza muito ao nosso
poeta, quase autodidata, Joaquim Dias Cordeiro da Matta.
O
antigo menino da Casa Pia, que se bacharelou em Medicina em Coimbra, chegou a exilar-se em Inglaterra, veio para a Ilha
Terceira, desembarcou no Porto e, portanto, acompanhou toda a Revolução Liberal,
que repôs a legalidade e a liberdade em Portugal. Tendo estado no exílio e no
combate com Garrett e muitos outros, que se tornaram gradas figuras do novo
regime, as suas críticas representam as desilusões dos liberais moderados da
segunda metade do século. Luz Soriano chegou mesmo a simpatizar com os
cabralistas e talvez esta leitura contribuísse para a perceção que teria Cordeiro
da Matta da falência do regime monárquico-liberal.
Luz
Soriano foi “chefe da repartição de Angola” (ou Secretaria de Angola), como disse. Quem o investiu no
cargo, quando Ministro da Marinha e Ultramar, foi Joaquim José Falcão
(1842-1846), um Oficial maçom, cabralista, que foi também Ministro da Fazenda do Marechal
Saldanha e membro do Conselho de Estado.
Luz Soriano permaneceu nesse
cargo de Outubro de 1842 a Junho de 1851 (Soriano, 1891 p. 509) , quando as intrigas,
entre políticas e pessoais, levaram à sua demissão e à sua nomeação para as
Cortes. Ao relatar esse episódio da sua biografia nas Revelações, faz uma crítica directa, contundente, à colonização
portuguesa de África, dizendo que Angola serviu desde sempre e só como fonte de
escravos para a América (Soriano, 1891 p. 509) . Procurando
contrariar essa falha secular, Luz Soriano usou o cargo para promover a
colonização portuguesa de Mossâmedes (como ao tempo se escrevia). À segunda
Câmara daquela “colónia” enviou, com ofício dirigido por si próprio em 28 de
Setembro de 1860, um exemplar da primeira edição deste livro citado por Cordeiro
da Matta.
Curioso
anotarmos, de passagem, como começou a povoação de Mossâmedes: não havendo,
cronicamente, dinheiro para outras despesas, usaram-se 50 casais de escravos,
apresados a um navio brasileiro que fazia tráfico ilícito, isto em 1844. Os casais
foram tornados livres para o efeito. Um ano mais tarde (em Setembro de 1845)
usaram-se 40 dos degredados do navio Princeza
Isabel para completarem a colonização e “fazerem parte da respectiva
companhia de linha” (Soriano, 1891 pp. 412-413) . Só a 23-5-1849
saíram de Pernambuco, no Tentativa feliz,
cerca de 300 colonos portugueses (“de ambos os sexos”) do nordeste brasileiro
para irem fundar em Mossâmedes (onde chegaram, todos, a 4 de Agosto), uma
“colónia agrícola” apesar das condições agrestes. O nome de Luz Soriano estava,
a partir de então, ligado à Angola do século XIX e também por isso havia de ser
recordado.
É
natural que, nas Memórias que citei,
as passagens mais lidas fossem estas, que se iniciam com a crítica à
colonização e narram os primórdios da colonização de Mossâmedes (Soriano, 1891 pp. 409-418) . Mas não só. Luz
Soriano viu-se envolvido na demissão do Governador de Benguela Francisco Tavares de Almeida (1803-1879), acusado de vender ao Estado, por alto preço,
mercadorias suas e de desviar dinheiro público, tendo-se eventualmente
conspurcado no tráfico de escravos também, segundo acusações britânicas (Soriano, 1891 p. 436; Almeida, 1852) .
Veio a ser vítima
dessa atitude (que ele resume a ter deixado de defender a recondução de Tavares
de Almeida), porque o ex-governador não descansou mais enquanto não tirou o
autor do seu cargo na repartição de Angola. Entretanto, os muitos e bons amigos
arranjados em Angola propuseram-no para as Cortes sob sugestão do próprio e foi
eleito quase por unanimidade do respectivo colégio eleitoral. A vida nas Cortes, porém, tornou-o mais cético ainda com o sistema liberal.
Luz
Soriano também defendeu, como Deputado por Angola, a ocupação do Ambriz,
argumentando com o prejuízo que a sua liberdade fazia aos cofres da Alfândega
de Luanda (Soriano, 1891 pp. 536-537) . Denunciou, no
decorrer da sua “entrada nas Cortes” (1851), a ilícita subscrição anual de 8
contos de réis a favor do Governador-geral de Angola, o “montevideano” Visconde
do Pinheiro (Soriano, 1891 pp. 538-540) .
A julgar pelas memórias que nos legou Luz Soriano, suponho que a série dos “Anais Marítimos”, de 1840 a 1844, encontrada num espólio de Benguela de 1855, fosse distribuída na cidade a partir de alguma orientação dele.
Manteve, portanto,
ao longo de vários anos, uma intervenção ativa relacionada com a província e
colónia que, apesar de ser em favor da colonização, representava uma corrente
desenvolvimentista e de moralização da atividade colonial – o que era
apreciado por alguns sectores locais, principalmente por filhos da terra,
vítimas habituais dos abusos dos governadores e do seu desinteresse pelo
desenvolvimento da colónia. Isso mesmo se vê claramente nos livros de J. A. de Carvalho e Menezes, quase contemporâneos dos de Luz Soriano e muito valorizados por Cordeiro da Matta.
Se assim foi para os seus livros de interesse histórico e político, a poesia de Luz Soriano, de que o próprio pouco fala, não terá tido nenhuma
influência, nem qualquer espécie de interacção com a nossa.
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