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Mensagens

Paulo, Virgínia, novelas setecentistas, o romantismo e Angola

Geralmente mal consideradas – numa tradição crítica que vinha já do período helénico da cultura mediterrânica – as novelas, desde o século XVIII até bem dentro do Romantismo, desempenharam um papel fundamental no meio literário, cultural, político e social. Em primeiro lugar por serem tão populares. Em segundo lugar porque muitas delas estavam bem escritas, usavam com arte e subtileza os artifícios próprios da narrativa (erudita e popular) e as armas da retórica. Em terceiro lugar porque figuravam e veiculavam ideias e informações que, de outra forma, eram somente conhecidas por uma escassa elite intelectual. Em quarto lugar porque, entre essas ideias, havia ideias políticas avançadas que vieram a explodir e a tentar realizar-se a partir da revolução francesa do fim desse mesmo século XVIII. A novela se autonomizou relativamente aos quadros temporais e sociais, atravessando o século XIX quase imperturbável. Tendo ganho com o Romantismo (simultaneamente com o triunfo da burguesia...

Planta mui breve

A entrega do espólio norte-americano de José da Silva Maia Ferreira ao ANTT em Lisboa reveste-se da maior importância para os pesquisadores da literatura angolana do século XIX. Ali podemos investigar correspondência, diário, projeto de livro, documentação, que nos darão uma imagem muito mais completa e diversificada de quem foi este nosso poeta. Claro que alguns vigilantes de serviço e alguns universitários pouco dados à investigação farão os possíveis por ignorar e menosprezar aquele espólio. Mas, felizmente, são cada vez menos.  A notícia da entrega do espólio e algum tempo disponibilizado por uma doença que, provisoriamente, me imobilizou, permitiram-me retomar as leituras de José da Silva Maia Ferreira e completar notas que, pouco a pouco, vão ficando mais próximas de passarem a outro género ensaístico. Retomo, sobretudo, a leitura dos seus poemas das Espontaneidades  e, quanto mais aprofundo e sistematizo a sua leitura, mais me convenço do quanto essa poesia tem s...

Ultrarromantismo lusófono - propriedade e conceito

A designação «ultrarromantismo» terá tido origem em Teófilo Braga, segundo J. Prado Coelho, para designar uma vertente do romantismo português mais ligada ao medievalismo (o que obrigava a incluir uma fase da vida poética de Gonçalves Dias)  (Coelho], 1979) . Sublinho:  terá . Entretanto, os poetas que seria então mais justo chamar de ‘medievistas’ eram, na sua maioria, os mesmos e da mesma geração que foi publicando, sobretudo ao longo de duas décadas (1850-1870), uma lírica marcada por outros aspetos também. Ao mesmo tempo que eles se foi afirmando no Brasil uma geração idêntica na poesia. Para compreendermos o que fez essa lírica, simultaneamente o que fez a nossa (angolense), convém percebermos um tanto de ‘psicologia artística’.  Estes poetas, quando começaram a escrever, o romantismo português já se tinha realizado e o brasileiro também (de resto, a seguir ao alemão, ao britânico, ao francês...). Já tinham os seus ícones e um perfil definido. Esse é o p...

J. A. Carvalho e Menezes na Associação Marítima e Colonial - 2 breves notas

Joaquim António de Carvalho e Menezes foi, talvez, o nosso primeiro escritor protonacionalista. Homem ambicioso politicamente e ilustrado culturalmente, procurou intervir o mais possível na condução dos destinos da colónia de Angola, de maneira a desenvolvê-la mesmo dentro do regime colonial.  Uma pequena parte dessa tentativa prende-se com a criação de uma Associação que foi muito importante, no século XIX, para a determinação política e para a revelação de documentos históricos.  Foi em 1839 que se criou a Associação Marítima e Colonial, em Lisboa. Constituiu-se, desde logo, num centro de poder para os "negócios" do "Ultramar" e dela saíram muitos dos altos quadros da gestão militar, administrativa e comercial das colónias, incluindo governadores. Integrava, também, angolenses. Ela reunia, na verdade, uma vasta elite de políticos, intelectuais, investigadores, quadros do Estado, a par de empresários de vários ramos interessados vivamente nos benefícios d...

A viagem da Índia e a Mensagem, com Sagres pelo meio: Fernandes Costa, Olavo Bilac e Fernando Pessoa

Nenhuma literatura nasce do nada, nenhum poema também. Pelo contrário: de forma geral, um poema é tanto mais forte quanto melhor sintetiza e organiza as energias semânticas de vários outros. A Mensagem , de Fernando Pessoa, é um magma moldado por arquitetura verbal para realizar esse milagre das grandes obras. No entanto, parece muito original. Não admira, portanto, que – para ela como para todas as grandes obras originais – os mais variados especialistas, curiosos, interessados ou simplesmente leitores atentos vão encontrando ‘antepassados’, para além do grande arquétipo constituído por Os Lusíadas . E foi o caso, sem dúvida surpreendente, de Ariano Suassuna ao descobrir afinidades entre um poema («Sagres») de Olavo Bilac, de 1898 (publicado em 1902 em As viagens ), e a Mensagem . Lembro-me de Ariano Suassuna me ter falado nisso na sua casa do Recife, há muitos anos já, e de me ter convencido das proximidades entre os dois poemas. Entretanto o ensaio foi publicado em livro e to...

O rio Balombo na relação e localização "da conquista de Benguella"

Na colectânea de documentos que Luciano Cordeiro reuniu - documentos relativos às primeiras décadas da colonização de Angola (v. mais abaixo, texto sobre a baía das Vacas) - encontra-se uma interessante e genuína «Relação da conquista de Benguella».  Infelizmente, as indicações geográficas são vagas, confusas, até porque o lugar era muito mal conhecido e as designações locais ainda menos.  O autor é anónimo. Percebe-se, no entanto, que estava com Manuel Cerveira Pereira nessa "conquista" e relata passo a passo o que se passou. A partida de Luanda foi a 11-4-1617, mas esses pormenores não me interessam agora para além da data, que nos situa no período das últimas chuvas.  A expedição tomou primeiro "o porto do morro de Benguella" onde se instalou por 3 dias, com 80 homens. Ora, Benguela tem morros lá ao fundo e, do outro lado do rio Cavaco, as colinas suaves de N.ª Sr.ª da Graça, por trás do vale, ainda breve, do Kapiandalo (Tchiapiandalu).  Não se referindo...