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Ultrarromantismo lusófono - propriedade e conceito

A designação «ultrarromantismo» terá tido origem em Teófilo Braga, segundo J. Prado Coelho, para designar uma vertente do romantismo português mais ligada ao medievalismo (o que obrigava a incluir uma fase da vida poética de Gonçalves Dias) (Coelho], 1979). Sublinho: terá.

Entretanto, os poetas que seria então mais justo chamar de ‘medievistas’ eram, na sua maioria, os mesmos e da mesma geração que foi publicando, sobretudo ao longo de duas décadas (1850-1870), uma lírica marcada por outros aspetos também. Ao mesmo tempo que eles se foi afirmando no Brasil uma geração idêntica na poesia.

Para compreendermos o que fez essa lírica, simultaneamente o que fez a nossa (angolense), convém percebermos um tanto de ‘psicologia artística’. 

Estes poetas, quando começaram a escrever, o romantismo português já se tinha realizado e o brasileiro também (de resto, a seguir ao alemão, ao britânico, ao francês...). Já tinham os seus ícones e um perfil definido. Esse é o perigo: passou-se a seguir e perseguir um perfil. 

Como, no caso português e brasileiro, o romantismo foi tecnicamente herdeiro dos momentos anteriores, com poetas ainda influenciados por eles no início da sua formação, comparado com os primórdios do romantismo alemão (que foi bem um momento de ultrarromantismo) o resultado final é de moderação, musicalidade e harmonização (falo de aspetos técnicos e formais, não falo de aspetos políticos e ideológicos – exceto quando um sema, ou um ideologema, sejam funcionalizados poeticamente).

Conforme se foram conhecendo melhor outros romantismos, em particular o alemão e o inglês, ficou evidente a diferença. Os poetas dessa época estavam numa bizarra situação: por um lado haviam automatizado as principais soluções rítmicas, rímicas e estróficas do romantismo em português; por outro lado os resultados finais dos mestres românticos lusófonos eram diferentes do ‘verdadeiro’ romantismo, não surtiam os mesmos efeitos. 

O primeiro ‘lado’ leva a que se tomem por cânones soluções por vezes até pessoais; o segundo leva a que, não havendo mais nada a distinguir os epígonos dos primórdios, se tente remoçar o romantismo imitando também o inglês, o alemão, o francês, etc. 

Daí que surja uma literatura 'ultra', acentuando e exacerbando o subjetivismo, a emoção, a sensibilidade – pelo menos no papel - manifestados e defendidos pelos poetas românticos iniciais alemães e ingleses.

Quando as nossas atitudes partem de imitações automatizadas, pode acontecer que exageremos em aspectos meramente exteriores. Assim o declamador que ainda não encontrou voz própria exagera os ‘tiques’ do seu modelo: ou desata a gritar a torto e a direito, ou a falar muito baixo como se fosse desmaiar.

Era esta mistura de epigonismo e de exagero forçado, tendo por base o esvaziamento que provoca a imitação de cânones e não da vida, que definia tudo quanto chamámos, por esse motivo, ultrarromantismo em Portugal e no Brasil. A expressão resulta, afinal, adequada.

No Brasil, o ultrarromantismo (e a imitação) foi mais intensamente vivido no dia-a-dia. Basta observar as datas de nascimento e morte, e a biografia, de vários dos seus principais atores, como Álvares de Azevedo (1831-1852), Junqueira Freire (1832-1855), Fagundes Varela (1841-1875). 

A diferença reside no byronismo da geração brasileira, que se extremou tanto na vida quanto na poesia. Nesta, porém, o subjetivismo, a autorreferencialidade obsessiva, a hipersensibilidade, o culto da emoção excessiva e um ou outro toque de terrífico ou fatal resultavam nos mesmos efeitos estéticos que os do ultrarromantismo lusitano.

Isso mesmo terão percebido os angolanos ou angolenses da época, desde logo a começar por José da Silva Maia Ferreira, o mais precoce deles todos e um dos primeiros ultrarromânticos lusófonos a publicar.

A posição dos nossos autores do último quartel do século, na cronologia literária lusófona, é um pouco mais tardia. É, porém, idêntica à do “mancebo e trovador” Campos Oliveira, o fundador da Revista africana. Ele deve ter nascido em 17 de Abril de 1847, na Ilha de Moçambique, e residiu em Goa e Margão antes de regressar à sua terra natal. É autor de um Almanach popular (Margão, 1864-1866) e colaborador (em verso e prosa) nos jornais Ultramar e Ilustração goana. Publicou diversamente no Novo almanach de lembranças luso-brasileiro, entre 1872 e 1886, portanto em quase total incidência com os nossos colaboradores, acompanhando boa parte da fase mais ativa, carismática e interessante do ultrarromantismo angolano.


Com o mesmo tipo de incidência, mas mais para diante, estabelecem também relações íntimas os nossos versos ultrarromânticos com os de Caetano da Costa Alegre. Ele mantinha amizades na imprensa lisboeta realista e republicana, mas também chegou a passear pela academia de Tomás Ribeiro. A sombra de salões como esse por Tomás Ribeiro animado, e relatado pela sua filha Gonta, recebera ainda com simpatia os Ecos dispersos do então candidato a advogado o estudante Geraldo Bessa Victor, publicados em 1941, a par dos primeiros sonetos de Florbela Espanca…

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