Geralmente mal consideradas – numa tradição crítica que
vinha já do período helénico da cultura mediterrânica – as novelas, desde o
século XVIII até bem dentro do Romantismo, desempenharam um papel fundamental no
meio literário, cultural, político e social. Em primeiro lugar por serem tão
populares. Em segundo lugar porque muitas delas estavam bem escritas, usavam
com arte e subtileza os artifícios próprios da narrativa (erudita e popular) e
as armas da retórica. Em terceiro lugar porque figuravam e veiculavam ideias e
informações que, de outra forma, eram somente conhecidas por uma escassa elite
intelectual. Em quarto lugar porque, entre essas ideias, havia ideias políticas
avançadas que vieram a explodir e a tentar realizar-se a partir da revolução
francesa do fim desse mesmo século XVIII.
A novela se autonomizou relativamente aos quadros temporais e
sociais, atravessando o século XIX quase imperturbável. Tendo ganho com o
Romantismo (simultaneamente com o triunfo da burguesia liberal) um ritmo de
produção e consumo extraordinário, manteve leitores até ao século XX e ainda
neste, quando as fotonovelas italianas e espanholas e as telenovelas
brasileiras, venezuelanas, mexicanas, portuguesas, angolanas, etc., passaram a substituir o
suporte escrito.
Claro que há diferenças entre todas essas novelas. Mas a
maior diferença não se relaciona diretamente com aspetos cronológicos ou de
escola. A maior diferença é que alguns autores escreveram novelas com apurado
sentido estético e moral, enquanto outros pareciam perseguir apenas o objetivo
de satisfazer um mercado específico – e isso tornou-se mais comum depois do
romantismo, porque foi um subproduto da substituição do Mecenas pelo Mercado,
já como tal discutida por Alexandre Herculano na polémica travada em torno dos
direitos de autor. Ora, o predomínio do específico é fatal para a arte, como
disse Hegel na Estética.
As novelas de Walter Scott estão provavelmente na transição
entre os dois casos. Obras artísticas de qualidade universal, não deixaram
também de ser escritas em função de públicos específicos, embora vastos – pelo
menos a partir de certo grau de popularidade (Bakhtin,
2003 pp. 257-258) .
Emparceirava
com essas antecipações Paulo e Virgínia:
história fundada em factos (como se transcreve na tradução de 1807). O
livro destacava-se pela popularidade, logo mencionada pelo autor na edição por
subscrição que promoveu. E logo aí ele refere várias traduções, em geral feitas
por mulheres, às quais agradece e que repetidamente elogia como as grandes
transformadoras do mundo. Para português há, pelo menos, as de 1807, 1818,
1823, 1834 – para citar apenas o período inicial e de transição para o
romantismo lusófono. O livro anunciou-se no Recife, pelo menos, em 1837 e 1840,
e no Rio de Janeiro, pelo menos entre 1811 e 1843. É de crer que circulasse em
todo o espaço lusófono (também fazia parte da “livraria” de Antero de Quental
um exemplar da edição de 1836[1]),
apesar do achincalhamento do autor por figuras como Voltaire, que de resto
Saint-Pierre criticara (embora moderadamente, por mais estranho que pareça para
a sua personalidade).
Para
termos uma ideia mais africana dessa popularidade, José Osório de Oliveira, na
introdução ao volume Literatura africana,
refere que o ficcionista cabo-verdiano Henrique Teixeira de Sousa conhecia uma
estória, “narrada na Ilha do Fogo, que é a transplantação de Paulo e Virgínia”.
Não admira.
O seu autor, Bernardin de Saint-Pierre (1737, Le Havre-1814, Éragny ou Essone), era um engenheiro militar (entre muitas outras coisas) criador de uma “teoria dos mares”, autor de vários Études sur la nature (reunidos em volume também popular) e discípulo de Rousseau (o “eloquente Jean-Jacques”), segundo alguns, ou terá emparceirado com ele, surgindo pouco depois.
Bernardin
de Saint-Pierre tinha uma biografia recheada de viagens e incidentes. Partiu
para a Martinica aos 18 anos. Foi engenheiro militar em Dusseldorf (Prússia),
capitão de artilharia em São Petersburgo (Rússia, por nomeação de Catarina II),
combatente pela liberdade e pela independência na Polónia, regressando mais
tarde a França. Foi também revolucionário, procurando aliar a velha e a nova
França em Votos de um solitário. Parece
ter levado uma vida de infortúnios, principalmente em razão do mau génio e da
intolerância para com a falsidade humana. Na Polónia teve uma paixão violenta
com uma princesa que decidiu mesmo fugir à família para ir viver com ele, tendo
no entanto a relação terminado mal. É todo o mito do amor romântico realizado
em vida, o que sem dúvida aumentaria a auréola em torno do autor e, por
arrastamento, da obra quando, no século XIX, os românticos lusófonos o liam.
A
natureza da sua obra mais conhecida (Paulo e Virgínia) é a da exuberância
tropical, para onde uma pobre família é atirada. “Uma pobre família” muito
peculiar: duas mães francesas (uma pobre, outra nobre), vítimas dos
preconceitos de classe e dos azares da vida, vão criar ali, na ilha tropical
onde se conheceram, os seus filhos educando-os com a natureza luxuriante da
nova colónia. O filho de uma chama-se Paul e a filha de outra Virginie. Nesse
ambiente ele pinta, como disse Villemain, “a felicidade da virtude e da
inocência” (Pinheiro,
1872[?] p. 207) – a mesma da
infância reportada por Maia Ferreira numa terra mais “adusta”.
A
virtude inocente, imbuída de tão efusiva paisagem e de um relativo isolamento,
resulta naturalmente numa grande paixão entre os dois. Uma paixão natural, que
a oferta de poderosa herança de uma velha tia irá romper, levando Virgínia para
França. O mal, num ambiente idílico e numa educação acordada à natureza, não
vem da paixão propriamente, mas da ambição, da Europa, do dinheiro. Essa oferta
da velha tia, caraterizada sempre como muito má, sem herdeiros nem companhia
para a velhice, é que vai levar os dois jovens a fazer o seu rito de passagem
para a idade adulta, a conhecer e compreender as diferenças sociais e a maldade
do mundo. Virgínia acaba por se revoltar e regressar aos seus, mas a tia
manipula de tal forma os acontecimentos que ela regressa no tempo dos furacões e
morre, à vista de Paulo, em naufrágio junto à costa (era já uma donzela: uma
das causas da morte foi a de não querer ficar nua para se salvar). O fim parece
escrito à pressa: morrem todos, um por um, a pouco e pouco, de desgosto claro,
exceto o narrador que relata ao autor esta estória tropical. No entanto, é um
fim bem romântico, digno de um Frei Luís
de Sousa que fosse menos preocupado com a suscetibilidade à morte.
Encontramos
aqui, de resto, vários mitos em que os românticos se iriam rever, por mais que
alguém o negue. O afastamento em relação à Europa permitia aos europeus
imaginar uma educação sem complexos de culpa, ou sentimentos de culpa, uma
educação apenas pelo amor, em que as orações eram reduzidas ao convívio intenso
com a natureza (como consagrariam mais tarde os versos de V. Hugo, num poema de
que há uma versão de Cândido Furtado – juiz português que viveu 8 anos em
Angola) e à leitura episódica de episódios da Bíblia. Como diz explicitamente o livro, “a teologia” de Madame de
La Tour (a mãe de Virgínia) “era toda em sentimento, como aquela da natureza, e
sua moral toda em ação, como aquela do Evangelho” (Saint-Pierre, 1788 p. 96) .
O que veio a ser um mito romântico da religião da natureza, ou pela natureza,
estava estampado neste quadro idílico e exótico, suscitado ainda pela crença
rosseauniana no mito do bom selvagem.
O
quadro inicial atira-nos logo para “Port Louis” (Saint-Pierre,
1788) ,
nas ilhas Maurícias (“Mauritius”). Ou seja: para um espaço extra-europeu, de
âmbito colonial (neste caso, já no Oceano Índico, a Leste de Madagascar –
portanto em rotas que por vezes incluíam o porto de Luanda e próximas de
Moçambique). Mais ainda: com uma população que misturava pessoas da mais
diversa proveniência. Ainda mais: incluindo escravos oriundos, muito
provavelmente, de Angola.
Mas
era afastado de Port Louis que ficava o terreno onde crescerão as duas crianças,
a partir do qual a cidade se avista. Ali se travaram de amizade duas europeias
que, assim, realizavam uma utopia social, uma vez que uma era nobre e outra
plebeia, mas ambas ali viveram como iguais. A utopia era quase socialista:
viver livre, com propriedade e bens apenas indispensáveis e “servidores [só
dois, casados] cheios de zelo e de afeição”. Viver, também, numa pura e sincera
amizade que partilhava todos os bens (incluindo o casal de escravos).
A
realização da utopia tinha uma condição prévia, que certamente agradaria aos
angolenses do século XIX: que os seus filhos vivessem “longe dos cruéis
preconceitos da Europa os prazeres do amor e o bem-estar da igualdade”
(repare-se que não somente igualdade económica mas igualdade entre os sexos).
O
sair para fora da Europa era como sair para fora do mundo, gerando portanto uma
u-topia, dando talvez início às utopias coloniais francesas (coloniais, ainda
não colonialistas). O facto de as personagens principais serem de origens europeias
exerce duas funções:
1) mostrar que o mal não está no
europeu, mas no estado mental da Europa, seguindo uma linha de pensamento
rousseauniana (presente ainda na relação idílica dos jovens com a natureza,
comparada explicitamente à de Eva e Adão antes do pecado original);
2) sustentar a identificação do
público-alvo com cada personagem (Virgínia era loira, de olhos azuis e lábios
de coral, satisfazendo no geral o modelo de beleza feminina da grande poesia
europeia).
Apesar
desta identificação, os filhos das europeias não são já europeus. Eles resultam
do mundo mesclado no qual vivem, mesmo que isolados relativamente. O facto de
um dos escravos, de nome Domingos, ter hipoteticamente vindo de Angola
reaproxima a narrativa do nosso público novecentista, mas não só. Naquela
pequena utopia, os escravos também podiam nomear lugares e fizeram-no, como os
senhores, para recordar os sítios onde nasceram em África, tendo Domingos
escolhido Angola. O nome de Angola fazia parte da memória familiar de Paulo e
Virgínia. O que trazia mais implicações, apesar de, no início da narrativa, o
autor o dar como “um yolof”.
A
boa relação, familiar, entre escravos e senhoras trazia trocas culturais
interessantes nas quais se podiam projectar alguns angolenses das urbes
coloniais. Por exemplo Virgínia, por vezes, “à maneira dos Negros, executava
com Paulo uma pantomina.” Logo em seguida a herança cultural negra é considerada
primária, mas isso vem reforçar a contaminação cultural e a universalidade da
cultura “dos Negros”:
a pantomina é a primeira linguagem do homem; ela é conhecida por todas as nações; ela é tão natural e tão expressiva que as crianças dos Brancos não demoram a aprendê-la depois de verem os Negros exercitarem-na.
Virgínia,
“ao som do tam-tam de Domingos”, iniciava então a pantomina – que muitas vezes
glosava episódios bíblicos.
A
utopia era colonial, mas os filhos das involuntárias colonizadoras entravam já
num processo de crioulização… Em concordância, as famílias pobres de brancos
“nascidos na ilha” não tinham comido “pão da Europa”, como sublinha o autor
através do seu narrador (um europeu que resolveu instalar-se ali até à morte).
Daí
nasce uma nova personalidade que já não se nomeia exatamente como europeia. Repare-se
nesta passagem:
Paulo, com doze anos, mais robusto e mais inteligente que os europeus com quinze…
Quando,
forçadamente, Virgínia parte, ele, “indiferente como um Crioulo por tudo o que
se passa no mundo, pediu-me para lhe ensinar a ler e a escrever, a fim de poder
corresponder-se com Virgínia”. Virgínia, por sua vez, instada em França a
esquecer o “país dos selvagens”, entende isso impossível, claro, e mais, que a
França é que era “um país de selvagens”.
*
A
antecipação desta espécie de romantismo crioulo imaginado por europeus, que o
livro faz, torna-se mais evidente (também nas suas fontes e limitações) através
dos diálogos didáticos entre o velho narrador e Paulo.
Uma
das partes fracas da novela está em várias falas do velho ao longo do livro.
Isso deve-se a que ele representa ali o pensamento do autor e Bernardin de
Saint-Pierre tinha um tal amor e sentimento de posse pelos seus raciocínios que
não conseguia libertá-los ao ponto de encarnarem noutra pessoa. Além disso, a
estrutura do diálogo em literatura, filosofia, oratória, tinha seus ilustres
antecedentes, que a utilizaram justamente para subordinar personagens à função
exclusiva do elogio e da divulgação de ideias próprias…
O
modo de vida do velho narrador é um idílio horaciano, com tons do Telémaco da
vida campestre …e sem escravos. Ali percebemos que está o sonho do próprio
autor como o da vida melhor para quem não tenha encontrado a (rara) mulher
certa para o acompanhar (o que não sucedeu com Bernardin de Saint-Pierre). A
figura do narrador não só substitui a do autor na sua função de contar a
estória, também incorpora um dos modos de vida que ele tinha por ideais.
A
fala do velho a Paulo estabelece explicitamente o novo evangelho, que foi o da
Revolução mas também o de muitos românticos, a maioria aliás. O novo é uma
releitura do antigo: “o melhor dos livros, que não prega mais que a amizade, a
humanidade, e a concórdia, o Evangelho”. Imediamente colada aparece uma oração
subordinada que denuncia a Europa como vários angolenses e colonizados gostariam
de o fazer:
o Evangelho serviu durante séculos de pretexto aos furores dos europeus. Quantas tiranias públicas e particulares se exercem ainda em seu nome sobre a terra!
Pouco depois ele aproveita o discurso para dirigir a sua
crítica à França contemporânea: a glória, literária, a ciência, a poesia, não
interessam às elites atuais, só a riqueza. Daí uma corrupção geral e pessoal,
afetiva, social e económica (não admira que os angolenses se revissem também
neste aspeto particular, em particular Cordeiro da Matta, a quem tudo isso
parecia chocar). A mentalidade corrupta leva à concentração de muita riqueza em
poucas mãos e ao sentimento de vergonha perante o trabalho (quem trabalha é
objeto de desprezo por parte da elite), sobretudo o trabalho manual, ainda mais
o da agricultura. A mentalidade corrupta é preconceituosa e precisa de
preconceitos, é manipulando-os que progride. Ora o preconceito e a busca de
riqueza a qualquer custo conduzem os homens naturalmente bons a comportamentos
agressivos, em que precisam de subjugar-se uns aos outros (tal como as nações
umas às outras) para se afirmarem.
Por tanto, a França estava em decadência, porque “a
prosperidade de um Estado depende sempre da multitude e da igualdade das
pessoas, e não de um pequeno número de riquezas”. A natureza tudo balança, tudo
equilibra, mesmo um excesso com outro excesso, “todo o efeito aumenta pelo seu
contraste”, mas neste ambiente o equilíbrio torna-se insuportável para pessoas
de virtude, porque o vício (principalmente o vício da rapina) não tem proporção
nem medida.
Numa fala posterior mas integrada nesta mesma secção (das
conversas que o velho narrador ia tendo com Paulo na ausência de Virgínia),
faz-se o elogio das ‘letras’, que ordenam universalmente, honram, acalmam as
paixões (aqui o tópico é neo-clássico), derivam de um “fogo divino”, combatem a
opressão, mas são combatidas por isso… Antes ele já tinha definido a nobre
função política do escritor, numa proposição seguida mais tarde por muitos
angolenses: como não seria feliz o escritor
… ao pensar que a sua obra irá, de século em século e de nações em nações, servir de barreira ao erro e aos tiranos
Alheio
ao estudo da geografia política e da história das guerras, Paulo começou a ler
romances apaixonadamente. E nenhum lhe deu mais prazer “que o Telémaco, por
seus quadros de vida campestre e pelas paixões naturais do coração humano”. O
mesmo Telémaco que tantas leituras terá tido em Angola, que tantas teve no
Brasil e em Portugal, mesmo dentro do século XIX.
Em toda a estória, o ambiente bibliográfico referido opõe geralmente os clássicos aos contemporâneos, ou quase, com vantagens para estes. Mas a referência principal, ou de fundo, continua sempre sendo de clássicos gregos e latinos. Opõe também o engenho antigo às invenções modernas (com vantagem para estas), tudo no mesmo pacote, como sucede na longa e inadequada introdução à edição da obra por subscrição. Para o que venho firmar aqui, porém, o que interessa é que a sua biblioteca de referência vai só até ao “divino Fénelon”, ao já citado Rousseau, não tem bibliografia romântica. É uma biblioteca ainda própria do período imediatamente anterior, que marcou a adolescência e juventude dos primeiros românticos.
Neste contexto bibliográfico, a conceção da beleza e do mundo, em razão da natureza contrapolar e tendente ao equilíbrio, fica determinada por uma proporção – nisto se evitando o desregramento romântico:
A beleza, a virtude, a felicidade, têm proporções
No
entanto, uma estória tipicamente romântica, uma estória que trouxe gemidos profundos
às mais castas donzelas do romantismo, surge do meio desse ambiente
bibliográfico ainda setecentista, mostrando-nos o quanto
o romantismo deve à fertilização novelística das almas no período literário contrapolar e
antecedente.
Obras Citadas
Bakhtin, Mikhail. 2003. Estética da criação verbal. São Paulo :
Martins Fontes, 2003.
Pinheiro, Joaquim
Caetano Fernandes. 1872[?]. Resumo
de história literária. Rio de Janeiro : Garnier, 1872[?].
Saint-Pierre,
Bernardin de. 1788. Paul et
Virginie. Essone : Autor, 1788. - in 4.º.
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