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Planta mui breve


A entrega do espólio norte-americano de José da Silva Maia Ferreira ao ANTT em Lisboa reveste-se da maior importância para os pesquisadores da literatura angolana do século XIX. Ali podemos investigar correspondência, diário, projeto de livro, documentação, que nos darão uma imagem muito mais completa e diversificada de quem foi este nosso poeta. Claro que alguns vigilantes de serviço e alguns universitários pouco dados à investigação farão os possíveis por ignorar e menosprezar aquele espólio. Mas, felizmente, são cada vez menos. 

A notícia da entrega do espólio e algum tempo disponibilizado por uma doença que, provisoriamente, me imobilizou, permitiram-me retomar as leituras de José da Silva Maia Ferreira e completar notas que, pouco a pouco, vão ficando mais próximas de passarem a outro género ensaístico. Retomo, sobretudo, a leitura dos seus poemas das Espontaneidades e, quanto mais aprofundo e sistematizo a sua leitura, mais me convenço do quanto essa poesia tem sido prejudicada por leituras preconceituosas, ideologicamente limitadas, ou simplesmente desviadas para o plano das discussões sobre identidade.

Uma sua expressão, das menos compreendidas pela crítica militante, refere elogiosamente a “planta mui breve” das “donzelas” da terra. Precipitaram-se os vigilantes e, para mostrar serviço, denunciaram que o pobre e alienado poeta não via nada mais interessante nas suas conterrâneas do que o tamanho dos pés – tópico ainda a ressoar, no entanto, no fim do século XIX, num colaborador do Almanach de lembranças luso-brasileiro que escreve de Coimbra um poema a uma bela ‘morena’ (no número para 1895, p. 331). 

Para desfazermos essa leitura equivocada, convém levantarmos um pouco da história da imagem que anima a expressão. Convém porque a estreiteza de vistas apontada a Maia Ferreira derivava, precisamente, de serem muito menos cultos que o poeta os delatores de serviço. 

“Planta mui breve” talvez não seja uma expressão mui bela, mas ganha conotações mais fortes quando a reconhecemos. Trata-se de um recurso ao mesmo tempo típico do século e de sabor latino. De sabor latino por via, nomeadamente, de Ovídio e da Arte de amar. É Ovídio quem faz esse elogio à mulher, logo num dos seus livros mais populares e de que vemos ainda hoje um exemplar na biblioteca do Governo Provincial de Luanda, com tradução de Castilho (exemplar do século XIX). 

É o mesmo Castilho que retira o vigor ovidiano à expressão, traduzindo um verso, no entanto, com musicalidade no livro III de Os amores: 

Tinha planta airosa e curta; Nem este encanto lhe falta (Castilho, 1858 p. 28). 

Para quem não tenha o poema à frente neste momento, recorde-se que a referência aos pés antecede ainda a referência aos olhos e segue-se à da cor do rosto. 

Maia Ferreira publicou nove anos antes de Castilho, pelo que é de postular que tenha absorvido a imagem diretamente na fonte, ou mesmo só no ambiente literário da época. 

O tópico não perdeu vigor em todo o século XIX, nem nas escolas posteriores ao Romantismo. Muitos anos depois de Maia Ferreira, na passagem do século XIX para o seguinte, em pleno parnasianismo, João Penha também se fascina em Portugal com o mesmo tópico: 

Os seus pés, de andar tão leve, pequenitos como poucos 

- de tão leves nomeados entre os seios (as “duas pombas, de neve”) e a boca de “carmim”. De uma leveza mais popular era o “pé lesto” da varina a vender sardinha “de giga” no poema «Freira» do mesmo autor. 

Para sairmos da língua portuguesa e das escolas literárias do século XIX, podemos espreitar o modernismo espanhol pela voz de Vicente Aleixandre. No poema «Adolescente» ele escreve:

Pasar por un puente a outro puente.- El pie breve,La luz vencida alegre-.


A leveza miniaturial dos pés e do andar pode não ter sido expressa com maior felicidade poética por Maia Ferreira (e “pé breve” também não me parece grande alternativa); isso não justifica dizerem que ele não via mais atributos na donzela africana. Um pouco mais de estudo e cultura geral teria evitado uma acusação que só fica hoje mal a quem a proferiu.

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