Na colectânea de documentos que Luciano Cordeiro reuniu - documentos relativos às primeiras décadas da colonização de Angola (v. mais abaixo, texto sobre a baía das Vacas) - encontra-se uma interessante e genuína «Relação da conquista de Benguella».
Infelizmente, as indicações geográficas são vagas, confusas, até porque o lugar era muito mal conhecido e as designações locais ainda menos.
O autor é anónimo. Percebe-se, no entanto, que estava com Manuel Cerveira Pereira nessa "conquista" e relata passo a passo o que se passou. A partida de Luanda foi a 11-4-1617, mas esses pormenores não me interessam agora para além da data, que nos situa no período das últimas chuvas.
A expedição tomou primeiro "o porto do morro de Benguella" onde se instalou por 3 dias, com 80 homens. Ora, Benguela tem morros lá ao fundo e, do outro lado do rio Cavaco, as colinas suaves de N.ª Sr.ª da Graça, por trás do vale, ainda breve, do Kapiandalo (Tchiapiandalu).
Não se referindo às salinas que ficam a seguir à Sr.ª dos Navegantes (outra colina suave, próximo à praia), onde desagua um rio estival (esse, aliás, só tem mesmo água umas horas depois de chover muito), indicando-se que o morro do Sombreiro ficava a sul, intrigou-me esta designação de "porto do morro de Benguella".
Era um "porto de mar" junto ao qual o "conquistador" não viu "sitio sufficiente para fazer a povoação". O que de mais próximo disto conheço é o próprio porto do Lobito. Não costuma ser mencionado mas acho que foi nesse lugar que Manuel Cerveira Pereira fundeou primeiro. Achou também que o porto era "mui perigoso para os navios" - não por falta de ser abrigado, mas certamente por outros perigos: a exposição aos morros, que ali chegam até ao mar, as lagunas e lamas onde acaba o porto, alguns baixios e o facto de os navios facilmente ficarem cercados por terem uma só saída, estreita.
Em seguida conta-nos o cronista anónimo que a expedição se retomou seguindo "sua derrota pela costa" - o que sugere que, vindos do Norte (Luanda) foram mais para sul. Estranhamente, não se refere o rio Catumbela (ao qual, na altura, dariam nome diferente). Mas a existência de "povoações de negros", onde fez paragens. É natural que parasse pouco depois do rio, pois todo esse vale verde que circunda a Catumbela e segue até ao Kapiandalo é de ocupação recuada, pela sua fertilidade.
Não me parece plausível que a expedição passasse ao largo da foz do Catumbela sem dar por ele. No entanto, não se refere esse rio, nem o Cavaco, em torno do qual havia populações pré-coloniais. A falta de referência aos dois rios parece indiciar que, simplesmente, o autor não dava importância a isso no seu sucinto relato. Mas o espaço por onde pontilharam foi, decerto, a norte da "bahia da Torre", que "nas cartas se chama a bahia de Santo António, na ponta da qual pela parte do sul está hum outro [morro] muito grande, a modo de torre, que no fim d'elle faz um remate como um sombreiro". Estava dado o nome ao morro, creio que sem querer.
Não foi, porém, junto ao Sombreiro, na praia de Stº António, que se instalaram os conquistadores, ou invasores. O cronista refere os motivos pelos quais Manuel Cerveira Pereira escolheu o lugar onde instalar a nova cidade: "vendo o bom clima que a terra prometia e a fertilidade d'ella, boas aguas e ares, determinou fazer assento". Ora, toda a zona da praia de Stº António até à foz do Cavaco é árida - exceto, justamente, junto ao rio Cavaco. Não foi, portanto, aí que se instalou a expedição. Pela menção às boas águas e por outra menção mais à frente ("na terra havia muitos [mantimentos] que estavam por colher nos campos, como era milho grosso, legumes, abóboras e outros"), creio que o autor se estaria a referir ao vale do Cavaco. Nessa altura, do fim das chuvas, devia correr ainda ali muita água e a terra estava cultivada.
Quando se dá a primeira "escaramuça", os habitantes locais - ofendidos porque se instalaram ali sem sua autorização e dispuseram dos seus haveres como se fossem deles - reagiram "mettendo-se no mato, no qual elles sempre fazem sua fortaleza". Quer dizer que não moravam no mato mas se metiam nele para se defenderem. E não só no mato. Subiam aos "outeiros que estavam a pique", daí se empregando "a despedir copia de frechas". Esta descrição só me parece adequar-se, realmente, à foz do Cavaco ou, quando muito, à zona que vai do Kapiandalo ao Catumbela. O facto de o autor continuar a não referir as salinas indica-nos que, no momento em que escrevia (pouco tempo depois dos acontecimentos), ainda não teriam explorado bem a zona a sul, até à praia de St.º António.
Deve, portanto, estar mais certa a hipótese que situa onde hoje é o Kioche, ou Tchiossi, a primeira instalação dos invasores. Junto, provavelmente, à povoação mais antiga que ali encontraram.
Quando refere a "segunda batalha" dos conquistadores, ela foi contra "uns negros que se dizem jagas, que são como soldados aventureiros, mui valentes, ou como ladrões que, sem fazer assento em parte alguma, andam vagando por diversas partes, dando guerras e destruindo a terra, e assolando tudo sem haver quem lhes resista". Apesar de não se fixarem, formam quilombos: "e o corpo do arraial que trazem lhe chamam quilombo, com um senhor que os governa, a que obedecem com grande pontualidade."
Os jagas foram ao encontro da armada a partir "de um rio que se chama Morombo". A única denominação atual próxima desta é a de Balombo, trocado o prefixo (a troca entre o [l] e o [r] é, como sabemos, comum). O rio não estava junto à nova cidade (meia dúzia de palhotas e uma paliçada...). Porque os jagas queriam "resgatar peças connosco" e "foi-lhe respondido que sim, que viessem a este porto aonde estamos, e que se lhe faria bom resgate".
Naturalmente Manuel Cerveira Pereira continuava explorando a costa e terá chegado à foz do Balombo, junto ao Egito-praia, 90 km's a norte do Lobito (menos por mar). É importante reparar que, embora o autor não situe cronologicamente o primeiro encontro com os jagas, ele diz que, "passados três mezes ou mais da nossa chegada a este sitio", depois de edificadas "algumas casas de taipa e baluartes com uma arrochoada de paus a pique, aterrada no meio, mui forte", é que tiveram notícia "de como este quilombo estava perto, e d'ahi a alguns dias lhe veiu uma embaixada do senhor d'elle". O tempo decorrido faz supor que viessem de mais longe do que a foz do Catumbela, reforçando a minha suspeita de que falaram à Armada dos conquistadores na foz do Balombo.
Quando se começaram a desentender e Manuel Cerveira Pereira resolveu combater os jagas e o seu quilombo, o exército ("oitenta e tantos homens"), "começando a marchar a horas de jantar, e caminhou aquella tarde e toda a noite, até que no quarto da madorra chegou perto do quilombo, estando da outra parte de um rio". O rio, nessa altura (em plena estação seca), levava pouca água, que dava pelos ombros na zona onde o atravessaram. Creio que este, sim, era o Catumbela e que os jagas se instalaram na margem norte, acima da foz, onde estavam mais protegidos dos portugueses e onde havia muito mantimentos, muito cultivo.
O tempo que levou a percorrer o caminho, chegando-se ainda lá durante a noite, leva-me a confirmar a hipótese de se tratar do rio Catumbela e não de zona mais a sul (Coporolo, Dombe Grande, "bahia de S. Francisco"), que é referida adiante, quando se fala na batalha com o soba do Dombe Grande.
Até aqui, tudo bem. Ficaríamos junto à foz do Cavaco. Porém, quando se descreve a cidade, alguns anos depois dos eventos iniciais, ficamos baralhados. Porque se diz que fica "situada entre dois rios", um da parte do sul, de muito boa agua, o qual tem seu sumidouro por baixo da areia, e se mette no mar; outro está da banda do norte e não corre agua senão no tempo das chuvas, e de mais tempo está secco; porém se tiram d'elle uma mão travessa de areia, brota chorros [jorros] de formosíssima agua, e d'esta bebemos todo o anuo, que é mui sadia."
Isto parece complicar a geografia. É preciso supor que o rio Coringe - que desaguava na zona onde hoje é o Hospital e onde levanta (como na foz do Cavaco) a areia mais alto que a corrente - que esse rio tinha água todo o ano. É possível que sim. O rio "da banda do norte" é, pela descrição, o rio Cavaco. A cidade ficaria então, como já li várias vezes, (mas desde o início) entre o Cavaco e o Coringe.
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