"Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um bom negócio. Um bom negócio e uma grave lição: provaste-me ainda uma vez que o melhor drama está no espectador e não no palco"
(A chinela turca. - in: Papéis avulsos, ed. el., p. 80)
Machado de Assis foi, sem dúvida, um escritor e intelectual extraordinário. Ficou famoso também pelas suas antecipações, entre as quais se destaca a arrasadora desmontagem da paranóia psicanalítica (então apenas a psicologia estaria em causa) feita em O alienista.
Num volume que também inclui esse quase conto fantástico, há uma outra narrativa de nítido escopo antecipador: A chinela turca. Antecipador por ser, também, quase um conto fantástico no seu final e pelo que diz respeito à Estética da Receção.
Digo também, e repito, porque o conto foi já analisado em função, mais uma vez e com toda a pertinência, das relações da obra de Machado com a psicanálise, ou simplesmente a psicologia.
O conto, o mais antigo de Papéis avulsos, foi também comentado com pertinência quanto à sua relação com a tradição folhetinesca. Nesse estudo se refere um livro de Paul Dixon muito popular entre machadianos - e com justeza. É nesse livro que se faz notar, o mais completamente que sei, a relação directa da tese exposta por Machado de Assis no final do conto e uma teoria da receção, encaixada numa teoria da perceção.
As teorias da leitura em Machado de Assis são recorrentes, como se nota em muitos dos estudos acerca da sua obra. Este conto, porém, se distingue pela alta concentração simbólica e por uma pela tensão dicotómica dupla: entre real e fantástico (resolvendo-se no final quando o escritor nos dá o fantástico só como sonho do protagonista) e pela tensão entre psicologia e teoria da leitura.
A este nível, sempre que a narrativa intensifica o choque entre duas personalidades (o major, o bacharel) e dois planos intencionais, intensifica-se também a transmissão simbólica de uma teoria da leitura. Chegamos ao fim sem sabermos se o escritor jogava apenas com a tensão entre duas personalidades e dois objetivos ou com a simbolização de uma teoria literária, sobretudo de uma teoria da receção.
O que é notável é que só hoje, depois de Jauss, Iser (mais recuadamente Vodicka) temos condições para ver com nitidez tudo o que pode estar em jogo naquela narrativa, sem dúvida um conto de mestre, um dos maiores da língua portuguesa.
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