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A Baía das Vacas e Benguela


Garcia Mendes de Castelo Branco, fidalgo português que veio para Angola no regresso de Paulo Dias de Novaes (1574-1575), esteve com Manuel Cerveira Pereira na expedição de 1603-1604 que veio a resultar na criação do presídio e forte de Cambambe. 

O motivo da expedição tinha sido o cobre, um dos equívocos mais persistentes na formação e configuração da colónia de Angola durante os primeiros séculos. Já antes da fundação do forte e presídio de Benguela, Paulo Dias de Novaes o enviara em "uma galeota a descobrir a costa e a resgatar com o gentio d'ella, resgatei algum cobre que truxe [sic], pelo que o deve haver na dita conquista, e lá anda hoje o dito governador Manuel de Sirveira, até ao tempo que dali parti, que haverá anno e meio".

Nesta altura, em que vai de "galeota" até ao cabo Negro, o nosso homem diz que em Benguela "ha muitas vacas em demazia, e todos por ali são vaqueiros e também está próximo de Benguella uma bahia que chamam das Vacas que fica antes que cheguemos a Benguella. E entre Loanda e a bahia das Vacas fica um rio [...] onde se vae fazer resgate de mantimento, vacas e outro gado, da dita Loanda, e dizem que aqui ha muito cobre e o dito rio vem dar ao mar. Aqui pôde fazer-se povoação porque a terra é boa e fértil". 

Desde pequeno ouço e leio que a Baía das Vacas ficaria onde hoje dizemos praia de Santo António. Mesmo na obra onde li o documento do fidalgo português, numa nota a outro documento de outro fidalgo (Baltazar Rebelo de Aragão, que terá chegado a Angola em 1593), Luciano Cordeiro afirma que "a bahia das Vaccas, é a que depois foi chamada de Santo Antonio e se chama hoje de Benguella".  

Estranhava e estranho estas afirmações porque, embora no vale meio seco que vai até ao Dombe Grande haja gado e alguma erva rala quando chove (já então chovia pouco ali), não era fácil sustentar muitas vacas na praia de Santo António, de resto uma pequena faixa de lama e areia com uns morros de igual textura logo atrás. 

Esta descrição, dada no começo do que veio a ser a história colonial de Benguela, vem aclarar as ideias. Acreditando nela (e, lendo todo o documento, publicado por Luciano Cordeiro, não há porque não acreditar), a Baía das Vacas estaria na zona entre o Lobito e a foz do rio Catumbela, ou seria (mais provável) a faixa verde entre o Catumbela e a foz do Cavaco. Nesse caso faz algum sentido a afirmação de Baltazar Rebelo de Aragão de que Manuel "Silveira" (erra o nome, em vez de Cerveira) se encontrava lá (quando, afinal, estava em Benguela) com os seus soldados - e B. R. de Aragão achava que se deviam deslocar para Cambambe. Faz mais sentido porque se diz ter havido um forte mais antigo junto à foz do rio Cavaco e, portanto, considerar-se que tal foz estava na Baía das Vacas, sendo seu limite ou seu começo. Realmente, para quem a vê de frente (hoje, vindo de avião), a ponta onde está a foz do rio divide a baía que vai dali ao cabo do Sombreiro da baía (bem menos recolhida) que vai daí à foz do rio Catumbela. E, entre os dois rios, a zona que vai do mar aos morros é suficientemente húmida, extensa e verde para sustentar muitas vacas.

O documento pode encontrar-se (e ser baixado, em vários formatos) aqui - e tem muitos pontos de interesse. 



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