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A viagem da Índia e a Mensagem, com Sagres pelo meio: Fernandes Costa, Olavo Bilac e Fernando Pessoa


Nenhuma literatura nasce do nada, nenhum poema também. Pelo contrário: de forma geral, um poema é tanto mais forte quanto melhor sintetiza e organiza as energias semânticas de vários outros. A Mensagem, de Fernando Pessoa, é um magma moldado por arquitetura verbal para realizar esse milagre das grandes obras. No entanto, parece muito original.

Não admira, portanto, que – para ela como para todas as grandes obras originais – os mais variados especialistas, curiosos, interessados ou simplesmente leitores atentos vão encontrando ‘antepassados’, para além do grande arquétipo constituído por Os Lusíadas. E foi o caso, sem dúvida surpreendente, de Ariano Suassuna ao descobrir afinidades entre um poema («Sagres») de Olavo Bilac, de 1898 (publicado em 1902 em As viagens), e a Mensagem. Lembro-me de Ariano Suassuna me ter falado nisso na sua casa do Recife, há muitos anos já, e de me ter convencido das proximidades entre os dois poemas. Entretanto o ensaio foi publicado em livro e tornou-se referência de vários investigadores pela sua pertinência.

A originalidade da Mensagem deve-se, em grande parte, aos aspetos considerados formais e estruturais. Em traço geral e tosco, pode-se dizer que é inesperado uma sequência lírica de poemas curtos cumprir o papel de uma epopeia. Nesse aspeto, se em alguém se inspirou Fernando Pessoa não foi propriamente em Bilac, ainda que o poema de Bilac abrisse caminho para soluções idênticas.

Escavando na bibliografia portuguesa coetânea encontrei um livro mal conhecido: A viagem da Índia, “poemeto em dois cantos” da autoria de José Fernandes Costa (1848-1920), impresso em 24.8.1896 e publicado nesse mesmo ano, em que Pessoa partira (em Janeiro) para Durban. O seu autor era general de artilharia, não sei se ligado às famílias Mascarenhas e Távora em Portugal. Recorde-se que o avô paterno de Fernando Pessoa foi também general, embora mais velho (n. 1813, m. 1885). Recorde-se, ainda, um irmão do seu padrasto: Henrique dos Santos Rosa. Foi, segundo a cronologia da Casa Fernando Pessoa, “militar reformado em 1903 com o grau de general de brigada, também era um poeta de vasta cultura. Exercerá grande influência — literária e política (pelas suas convicções antimonárquicas) — sobre Pessoa, com quem desenvolve estreita amizade após este último ter regressado a Lisboa em 1905.” 

Fernandes Costa foi “poeta, tradutor, sócio da Academia de Ciências de Lisboa; fundador, coordenador e redator único do famoso "Almanach Bertrand". Excelente sonetista” – segundo ainda o mesmo blogue. Não vi o seu nome no catálogo digitalizado da biblioteca de Fernando Pessoa, mas isso não significa que o autor da Mensagem não tenha lido A viagem da Índia. Existe, porém, nessa biblioteca um livro para o qual o ficheiro dá como autor "Fernando Costa". Baixando o 'pdf' do livro vejo, porém, que o nome do autor é "Fernandes Costa" e, verificando nos arquivos (em linha) da BNL, encontro José Fernandes Costa como autor de O poema do Ideal. A obra foi publicada em 1894 e o autor ainda não menciona, entre os livros que tem para imprimir, A viagem da Índia. A obra é a "segunda parte" do referido "poema" e apresenta, como A viagem da Índia, uniformidade estrófica (numa solução muito pessoal: primeiro uma estrofe de 4 versos, heptassilábicos, com rima *A*A; outra, encostada à direita da página, com 3 versos de rima B*B). É possível - cada vez me parece mais possível - que Fernando Pessoa tenha lido Fernandes Costa e A viagem da Índia, embora esta não conste da biblioteca que tinha quando faleceu. 

José Fernandes Costa esteve ativo no meio literário e cultural lisboeta num período importante da formação de Pessoa. Além do famoso Almanach Bertrand, colaborou na “revista quinzenal ilustrada” Brasil-Portugal, dirigida por Augusto de Castilho (1841-1912). A revista, segundo nos indica a Hemeroteca digital de Lisboa, publica-se entre 1899 e 1914. Nela encontramos textos de João Penha, Gomes Leal, Eça de Queiroz, António Feijó, Gonçalves Dias, Olavo Bilac e muitos outros nomes então consagrados. Encontramos lá, também, colaboração lírica do jovem poeta são-tomense Caetano da Costa Alegre, assinalando (junto com imagens visuais, como a do “arsenal” de “Moçambique”) ligações a África e não só ao Brasil.

Colaborou também Fernandes Costa no periódico A leitura (1894-1896), com as «Memórias de um ajudante de campo» (tomos I, II, III, IV, V, VI, ). A narrativa publicou-se em livro, com o subtítulo Crónica pitoresca da terceira invasão francesa. Também nas páginas de A leitura, no tomo VIII, encontramos o poema «Mors-Amor» (p. 211) – que é homónimo de um congénere de Antero de Quental e de uma obra de Juan Valera. No tomo IX faz sair «O perfil de Junot», retomando a temática das Invasões Francesas das «Memórias». No tomo XI retoma o verso (“poesia”) para nos dar a conhecer a «Lenda do paraíso d’Amor» (p. 312). No tomo seguinte reincide com «Outr’ora e hoje» (p. 467). No XIII titula um poema «A João de Deus» (p. 172), que antecede (na colaboração poética) o poema «A pátria» desse lírico do Algarve e de Coimbra, tão apreciado pelo nosso Cordeiro da Matta (o pedagogo e poeta, não propriamente o poema). No tomo XIV, onde se publica já «As andorinhas», de Costa Alegre (p. 221), torna público «No infinito» (uma palavra de que muito gosta), na p. 331. Dá-nos ainda a conhecer dois poemas de uma «Anthologia grega» no tomo XVI. Na secção «Contos, novelas e fantasias» do tomo XVII faz sair «Silva Jardim e a alma portuguesa» - cuja relação com o poemeto que estou a considerar deve ser frutífera. Na secção «Poesias» do último tomo sai «O judeu errante» – figura já literária no seu tempo. Nesse periódico encontramos, como em Brasil-Portugal, muitos nomes consagrados da época, tendo peso maior autores estrangeiros. Aí saiu também A jornada d’África, de Oliveira Martins, citado por Bilac no começo de «Sagres». 

José Fernandes Costa publicou também, creio, uma História da Grécia, que a biblioteca de Alexandria e o Google digitalizaram.

Na extensa bibliografia de José Fernandes Costa, a referência que, porém, mais nos interessa para o caso é o Elogio academico do Dr. Sidonio Pais. É a transcrição do “elogio lido na sessão ordinária da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa” a 26.12.1918. A ed. foi “oferecida pelo conferente e editores aos amigos do Dr. Sidonio Pais”. Fernando Pessoa viu, como se sabe, em Sidónio Pais um sinal dos tempos, escrevendo-lhe o famoso poema ao “Presidente-Rei” (publicado em 27.2.1920 em Acção). Para compreendermos o enquadramento místico, nacionalista e estratégico do ambiente mental e social português da época, para percebermos o sidonismo e os apoios a Sidónio Pais, é conveniente lermos os discursos do ditador e o prefácio ("estudo político") de João de Castro à edição desses discursos («Sidónio Pais e o messianismo ditatorial»), que ao mesmo tempo abre para a nova ditadura que se avizinhava. Fernando Pessoa adquiriu essa obra, assinou-a com o seu nome e a Casa Fernando Pessoa digitalizou-a. Isso mostra como, antes ainda da Mensagem pronta e candidata a um prémio, o poeta se manteve interessado no sebastianismo, no nacionalismo místico e no sidonismo - que, de alguma forma, o aproxima do poeta José Fernandes Costa. 

A viagem da Índia foi publicada em 1896 em Lisboa, pela Imprensa Nacional. Obra integrada nas “contribuições” da Sociedade de Geografia para o “quarto centenário do descobrimento da Índia” e dedicada a Luciano Cordeiro, certamente suscitaria a atenção de muitos leitores em Lisboa, posteriormente no Rio de Janeiro ou em Durban, bem como aos familiares de Pessoa ligados à Armada.  

Fernandes Costa esteve muito ligado ao "centenário" e às comemorações camonianas. Nesse âmbito publicou O memorial de Camões : registo de aniversários e lembranças / colligido entre todas as obras do poeta por Fernandes Costa.... Lisboa : Typ. da Companhia Nacional Editora, 1892. Ainda nesse âmbito, em 1898, publicou um estudo sobre Os lusíadas, junto uma edição "autographica" da obra: Os Lusíadas : com argumentos novos em estancias heroicas : grande edição autographica do Programa Official do Centenario : profusamente illustrada com desenhos allegoricos... / Luiz de Camões ; [estudo de] António Mendes Belo, Manuel Pinheiro Chagas e Fernandes Costa. Lisboa : Silvestre Castanheiro, 1898.

Saindo em 1896, A viagem da Índia está, portanto, perfeitamente enquadrada no perfil nacionalista (e oficialista) da bibliografia do general. 

As semelhanças entre ela e a Mensagem vão de escolhas formais e genológicas até sugestões simbólicas, iniciáticas e, mesmo, algumas coincidências lexicais.

Ao nível das escolhas formais e genológicas há, pelo menos, dois aspectos a salientar:

1.   A escolha de uma estrutura lírica para veicular uma simbolização épica (comum a «Sagres» de Bilac), com ‘sombra’ estruturante de Os lusíadas;
2.   A opção predominante pela estrofe de 4 versos (exclusiva a Fernandes Costa e Fernando Pessoa).

Sabemos que o modelo clássico da epopeia lusófona consiste numa estrutura narrativa (que, naturalmente, comporta momentos líricos e dramáticos) apoiada sobre uniformidade estrófica, rítmica e rimática – onde o decassílabo e a oitava sobressaem. Seria interessante estudar como foi, gradualmente, alterando-se o modelo (sem dúvida a partir do romantismo) até chegarmos ao arquétipo da Mensagem de Fernando Pessoa.

O livro As viagens é um marco importante nessa viragem, uma espécie já de epopeia lírica. Os poemas estão espalhados por secções temáticas onde se fundem povos e personagens cuja relação com viagens (sobretudo marítimas) se tornou mítica tendo sido real. Há, portanto, uma cronologia, que pressupõe uma narrativa histórica, mas não há propriamente uma estória, equiparável à da viagem do Gama. Há, também, uma predominância do soneto mas essa fórmula essencial à lírica de Bilac está mesclada com várias outras ao longo do livro. Mesmo o poema «Sagres» alterna duas formalizações alternativas: estrofes de seis versos, longos; estrofes de quatro versos, curtos. Sendo aquelas a abrir e a fechar e ficando estas a meio – o que se combina com a ideia de circum-navegação (o fim coincide com o início).

José Fernandes Costa, no poema-livro publicado dois anos antes da composição de «Sagres», opta igualmente por um tipo estrófico (quatro versos longos) associado mais à lírica do que à épica. A diferença, que Bilac e Pessoa superaram, é que Fernandes Costa mantém a uniformidade estrófica nos dois cantos (um para a ida, outro para a volta). No entanto, ele vai-nos passando a narrativa histórica da viagem por quadros, obtendo o leitor a totalidade a partir de fragmentos visuais, unidos a invocações, exclamações e outras derivações emotivas. 

São estes quadros, melhor: este facultar uma narrativa histórica por quadros visuais numa sequência lírica (fragmentária) que Fernando Pessoa transforma numa arte superior para a sua obra espiritualmente superior, a Mensagem.

As estrofes de A viagem da Índia são, predominantemente, de decassílabos heroicos, entremeados no entanto com muitos sáficos. As quadras de Bilac são heptassilábicas, com ritmo variável. As de Pessoa vão variando muito, com tendência mais acentuada para versos longos, alternados ou não com versos curtos, ou um quebrado no quarto verso. Exceto o poema «Séptimo (II) / D.ª Filipa de Lencastre», heptassilábico, todos os outros são de metros em número par (de 4 até 12 sílabas), com predominância para os decassílabos e octossílabos nos inteiros e os hexassílabos e tetrassílabos nos quebrados. Os decassílabos são muitas vezes heroicos, mas aparecem também misturados com sáficos. Quanto ao esquema rimático, ele é idêntico em Fernandes Costa, Bilac e Pessoa: ABAB – sendo que, em Fernandes Costa, alterna com ABBA.

Encontramos, portanto, as seguintes coincidências formais entre A viagem da Índia e Mensagem:
1.   Tipo estrófico dominante (quatro versos longos), embora com variações na Mensagem.
2.   Métrica dominante (10 sílabas), embora a da Mensagem com domínio leve, fraco e alternativas fortes em termos de frequência.
3.   Ritmos praticados no metro dominante.
4.   Esquema rimático dominante, embora em A viagem da Índia seja, de quando em quando, alternado com ABBA.

As coincidências formais com «Sagres», de Bilac, são as seguintes:

1.   Tipo estrófico no que diz respeito ao número de versos
2.   Em «Sagres», variação desse com outro tipo estrófico e em Fernando Pessoa com vários tipos estróficos.
3.   Solução rimática nas estrofes de quatro versos.

Vê-se, diminuindo as diferenças e somando as semelhanças, que há grande parentesco entre as três obras, com afinidades, ainda assim, maiores entre A viagem da Índia e Mensagem.


Ao nível de coincidências em termos de macroestrutura, fica difícil comparar «Sagres» com Mensagem (ou seja: um poema de um livro com um livro). Ainda assim, é de notar a coincidência entre a estrutura simétrica determinada, em «Sagres», pela divisão em duas soluções estróficas e a estrutura geral da Mensagem, pois ambas são triádicas. Mas as coincidências param por aí, porque as três partes da Mensagem não formam, propriamente, uma simetria. A última parte não repete nenhum aspeto estrutural ou macroestrutural das anteriores. Pelo contrário, ela faz espelho da macroestrutura do livro, pois consiste, ela também, em três partes. Essa coincidência absoluta assinala, formalmente, a Hora, o fim e o princípio.

A macro-estrutura de A viagem da Índia é dual. Algo de simetria há nela: primeiro temos «A ida» e depois «A volta», com o que o final é a coincidência com o início (no que diz respeito à geografia, portanto estamos perante a imagem da circum-navegação). Na obra de Pessoa temos isso, porque ela parte das personagens iniciais, da fundação de Portugal, e termina em Portugal também.

Em Fernandes Costa, como em Pessoa, o final abre para uma nova época só possível depois do que vem descrito no poema. A abertura passou, ao longo do livro (com bem menor intensidade em A viagem da Índia que na Mensagem), passou pela composição de uma simbologia. A condensação da simbologia, em Fernandes Costa, está na “Barca-Sonho”; em Pessoa está num cais não nomeado como tal: o presente do país.


Ao nível das coincidências lexicais, é de notar que o autor, no poemeto, usa várias vezes “panda” e “pandas” – referindo-se a velas de naves. Sabemos como Fernando Pessoa soube figurar isso precisamente: “uma nau com todas as velas pandas”. A primeira estrofe de A viagem da Índia é esta:

Onde vae, Tejo em fora, a lusa armada?..
Naus altivas, possantes caravelas!
Vae em busca da Índia enfeitiçada,
Sobre as ondas azues, pandas as velas.

Mais adiante usa, por duas vezes, o adjetivo no singular (“panda a vela”).

Não prossegui na pesquisa sobre o léxico, pois me parece que dará poucos mais frutos. A palavra Índia, por exemplo, não dei por ela na Mensagem (confesso que numa leitura não-sistemática); procurei com ajuda do 'Word' e também não a localizei - o que não implica menor importância simbólica da Índia na Mensagem. Ora a "viagem da Índia" (ou seja, de Vasco da Gama) é o ponto central da obra de Fernandes Costa. Nisso e em tudo o mais as duas obras diferem mais do que coincidem. O que é natural, porque estamos perante um criador poderoso, que funde o material anterior e traz, como da forja, uma figura completamente nova. É, porém, possível que algumas das características materiais e estruturais desse material anterior tenham aberto caminho às opções pessoanas. Um mecanismo psicológico bem conhecido pode explicar esses processamentos que, juntos todos os que se efetuam sobre vários livros, sustentam o despoletar de um insight.





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