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Mensagens

pega e leva - se

Um poema já antigo, de José da Silva Maia Ferreira, que por sua vez alude a outro do seu amigo João d'Aboim (do que falei variamente e sobretudo na Notícia da literatura angolana ), tem uma estrutura que foi muito popular nos álbuns de moças do século XIX: ao longo de todo o poema se vão descrevendo condições, em geral começando-se pela partícula se , ou qualquer outro recurso gramatical indicando que se vai referir uma condição. No final o poema diz o que faria o amante se aquelas condições estivessem preenchidas.  Mais de 100 anos depois, num poema de claro propósito contraditório e político, M. António troca o se pelo até e manifesta: Até se revoltarem os escravos. Até se rebentarem as comportas. Até sismos divinos, roncos cavos Da terra inquieta sob as pedras mortas  Sacudirem a nossa quietação. Até que luas doidas sobre o mar Sejam sinal da Alucinação. Até se extinguir a gentileza Que mais nos liberta, nos corrompe. Até sermos c...

A própria filologia

Status quo De modo geral, a questão colocada pela palavra «filologia» suscita uma referência genérica à velha e a alguma nova escola filológica, mas não se toma em devida conta a morfologia e a etimologia da palavra para refletir sobre a sua utilidade metodológica, sobre o rumo a tomar quando estudamos a palavra, o verbo, a linguagem, sobre a companhia a levar para esse caminho – menos ainda sobre o sentido espiritual do nosso trabalho. Tudo foi dado por adquirido há uns séculos atrás, aliás de forma geral com alguma leviandade ‘científica’. Mais tarde a Filologia passou a ser considerada uma réstia de pensamento já ultrapassado e, portanto, o que havia a fazer era aproveitar os seus restos (revistas, departamentos, institutos e congressos ‘históricos’) para encontrar mais meios de publicação e financiamento para grupos de universitários(as) à procura de curriculum . Chegados aos dias de hoje, ninguém questiona que as revistas e os congressos de Filologia se limitem a albergar...

Quando a fitei extasiado

DOÇURA Quando a fitei extasiado, suas mãos pálidas, mimosas, escolhiam frutas bem cheirosas num recanto calmo do mercado. E por mero acaso (eu sei!, senhora minha desconhecida, Ai! só por mero acaso…) vossos olhos belos, plácidos e meigos, negros, fulgurantes, sobre mim poisaram, - p’ra logo se afastarem Indiferentes, distantes… Ao compor na rede a gostosa fruta, um pouco vos baixastes e o decote largo do vestido azul afastou-se lento como onda branda de cansado mar… Sem indiscrição, vi maravilhado duas lindas dunas cor d’areia fulva… Depois, naturalmente, sorrindo leve, leve, pisando manso, manso, (ai, se eu fora as pedras duras do caminho) andando lentamente, seguiste vosso rumo, senhora, Minha Desconhecida… Nesse rosto mato mórbido, estranho, vi a cor suave duns certos poentes mágicos de Angola. Vossa boca em sangue (Oh! acácias rubras esplêndidas, ao sol!) vossos olhos fundos (Oh noites de Luanda, de estrelas apagad...

Quando os europeus ficaram brancos

Um artigo publicado no Diário de notícias  e que não vi na edição em linha (mas pode ser repescado aqui ) terá passado despercebido nas redes sociais especializadas e, no entanto, refere-se a uma investigação importante para quem se debruça sobre o racismo. O artigo, intitulado «Europeus ficaram brancos há menos de 20 mil anos», refere-se às investigações coordenadas por dois portugueses (Sandra Beleza e Jorge Rocha) que fixaram as datas da despigmentação da pele no hemisfério Norte. Pensava-se que a despigmentação era mais antiga mas agora descobriu-se que foi 'tardia': aconteceu "entre há 19 mil e 11 mil anos. Afinal, não foi há muito tempo, se se pensar que essa adaptação poderia ter ocorrido logo que os primeiros humanos modernos chegaram à Europa".  O estudo foi publicado na revista Molecular biology and evolution  e pode ser obtido em 'pdf' mediante registo e pagamento.  A transformação genética ter-se-á dado por adaptação "às condições ambie...

Crioulização, crioulidade, pidginização e mistura cultural

Com o uso abusivo do termo «crioulo» por parte do discurso populista de alguns partidos e políticos angolanos, a discussão revela-se cada vez mais imprecisa e submetida a lógicas de interesses particulares, procurando forçar o processo geral de constituição da nação de forma a arredar do mesmo grupos ou pessoas que dele participam criticamente.  Esse tipo de retórica e de processo é muito comum, justamente quando estamos em fase de acentuada crioulização, que torna popular a defesa das ordens e dos limites anteriores, agora fixados, imóveis e, por isso, facilmente manipuláveis. As nossas identidades, todas elas localmente radicadas (mesmo as que são acusadas por alguns de 'exógenas'), interagem cada vez mais acentuando a consecução de misturas e de sínteses culturais que podem conduzir, ou não, à nova identidade, a da nação angolana dos próximos anos. Identidade nova que se manterá, muito provavelmente, em aberto, mesmo depois de se afirmar como identidade fixa... Cabe-nos...