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Crioulização, crioulidade, pidginização e mistura cultural


Com o uso abusivo do termo «crioulo» por parte do discurso populista de alguns partidos e políticos angolanos, a discussão revela-se cada vez mais imprecisa e submetida a lógicas de interesses particulares, procurando forçar o processo geral de constituição da nação de forma a arredar do mesmo grupos ou pessoas que dele participam criticamente. 

Esse tipo de retórica e de processo é muito comum, justamente quando estamos em fase de acentuada crioulização, que torna popular a defesa das ordens e dos limites anteriores, agora fixados, imóveis e, por isso, facilmente manipuláveis. As nossas identidades, todas elas localmente radicadas (mesmo as que são acusadas por alguns de 'exógenas'), interagem cada vez mais acentuando a consecução de misturas e de sínteses culturais que podem conduzir, ou não, à nova identidade, a da nação angolana dos próximos anos. Identidade nova que se manterá, muito provavelmente, em aberto, mesmo depois de se afirmar como identidade fixa...

Cabe-nos esclarecer e não confundir. Em parte, o uso impreciso, abusivo, ideologizado e racializado do termo é possível porque nós, enquanto intelectuais, não temos contribuído o suficiente para esclarecê-lo, muitas vezes disfarçando a nossa própria manipulação das discussões em torno dele e tentando mascarar o conceito. O que faz, precisamente, um texto de Jacqueline Knörr (do Instituto Max Planck), intitulado «Towards conceptualizing creolization and creoleness», é tornar claras, definidas, as diferenças e as implicações entre «crioulização», «crioulidade», «pidginização» e «misturing», ou seja, miscigenação [cultural] em processo. 

Ela diz que, entre os vários tipos de processo de mistura cultural, o de «crioulização» se distingue por decorrer em contextos em que, simultaneamente, há etnicização, manipulação étnica, identidades e interesses étnicos e em que, portanto, o processo passa a ser visto por vários protagonistas como constituindo uma nova etnicidade. Em parte vem daqui o cariz acalorado das nossas discussões acerca do assunto.  

Entre outras distinções conceituais, a autora passa pela crítica à teoria da crioulidade antilhana e francófona, por se deixar conduzir - apesar de tudo - no sentido de alguma substancialização do conceito. Contrapõe-lhe a teorização anglófona, que se concentra no processo e não nos resultados pontuais. A vantagem da focalização no processo (creolization) em vez de no resultado (creoleness) estaria, entre outras, no facto de evitarmos assim a manipulação política, ideológica e étnica das discussões em torno do conceito.

Penso que a leitura que ela faz, sobretudo se nos reportarmos aos textos de Glissant, é talvez um bocado redutora e injusta. O que se passa é que essa teorização está numa semiosfera (a francófona) muito dada a substancializar conceitos e processos. Isso aconteceu, por exemplo no campo literário, com o chamado «estruturalismo francês», que substancializou, secou, dissecou e matou o que havia de estudo de processos e dinamismo na teoria estruturalista de Praga e posteriores. Nesta medida, a crítica da autora é certeira. Mas Glissant opera de maneira a falar de um contínuo decorrer de crioulizações sem perfil fixo ou final.

Eu também, quando teorizei sobre a crioulidade em A autobiografia lírica de «M. António», estava mais centrado num processo, de que resulta um tipo de personalidade que se mantém sempre em processo (daí a minha interdisciplinarização ter-me levado a associar a psicologia - disciplina que, infelizmente, não tem sido chamada a esta discussão). Por isso me incomodava o termo «crioulidade». Mas era o termo que tinha à mão e, por isso, chamei-o ao próprio sub-título da obra: uma estética e uma ética da crioulidade angolana. Hoje considero mais correto escrever "da crioulização angolana", para ressalvar o dinamismo e o caráter processual de que trato no interior do estudo. A estética e a ética de que falo na conclusão do trabalho dão como traço principal, precisamente, o manter a leitura e o comportamento em aberto... 

A partir destas e de outras considerações, Jacqueline Knörr entende que, para o caso de muitas sociedades e nações 'pós-coloniais', o termo correto seria o de «pidginização» - porque justamente o pidgin constitui uma linguagem comum na diversidade sem envolver etnicização. 

Não deixa de ser interessante a proposta e nos mostra que a discussão e a pertinência dos conceitos e dos processos sociais que reportam continua atualíssima, apesar do que escreveram alguns eméritos sociólogos da nossa praça - que, no resto, muito respeito, mas nisto ainda não deixaram de olhar só para o próprio umbigo. 



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