Avançar para o conteúdo principal

Novo livro de crónicas de Filipe Zau


Foi lançado ontem o novo livro de crónicas de Filipe Zau, Do acto educativo ao exercício da cidadania (Luanda: Mayamba). A cerimónia decorreu na Faculdade de Ciências Sociais, coincidindo com o início da Feira do Livro que, a partir de ontem, ali decorre. Dia 20 deste mês será o segundo lançamento, na Universidade Independente, onde o autor é Vice-Reitor.

Filipe Zau é um nome suficientemente conhecido em Angola, quer no meio musical e poético, quer no meio pedagógico, quer no meio dos investigadores da nossa História em vários campos (o nacionalismo, a educação, a música também). Por isso torna-se desnecessário apresentá-lo. Apresento, sim, a sua última obra, que acaba de sair, porque essa ainda a maioria de nós não conhece.

Neste livro ele reúne muitas das crónicas que tem publicado no Jornal de Angola e creio que mais algum texto. Elas dão-nos bem a dimensão da personagem, o perfil intelectual e moral e os seus campos de atuação. Numa versão fácil e comunicativa, que é também timbre das suas intervenções públicas, os textos ligam-se por três traços recorrentes: a atualidade, a frontalidade e a coerência com os princípios morais e políticos assumidos.

Como intelectual típico da sua geração, Filipe Zau sente a premência da intervenção política e social. Mas essa premência não é mero impulso de intervir, ela fundamenta-se e integra-se num projeto mais vasto e mais profundo que é o da cidadania angolana. Um projeto que dá notícia das suas preocupações recorrentes com os valores e a Educação que os veicula e transmite. Este livro é, na verdade, um guia de Educação para a Cidadania.

Uma primeira linha temática a integrar o livro é a que se prende com o problema das línguas em Angola – devidamente contextualizado para África e fundamentado em pensadores contemporâneos.

Está, mais uma vez, no auge a discussão sobre o Acordo Ortográfico. Trata-se de um mau acordo, na minha opinião, sem coerência nem hierarquização de critérios; é, porém, um Acordo já assinado e aprovado por vários países, alguns dos quais agora querem retirar-se. Isto provoca uma situação embaraçosa e desprestigiante para a CPLP: por um lado, não conseguem fazer um Acordo Ortográfico reconhecido pela sua própria comunidade científica na área de especialidade (grafemática, ortografia); por outro entram em desacordo quando se trata de aplicar o que, embora mal feito, foi acordado. Perante uma situação destas, a tendência da maioria dos nossos publicistas é a de evitar polémicas – como se, fazendo-o, contribuíssem para mais do que uma paz podre e oportunista.

Felizmente, Filipe Zau não se esconde em tibiezas, dá a cara, reconhece os erros e alerta para os perigos da aplicação do Acordo, em Angola, tal qual está - explicando os motivos. Realmente há uma série deles, entre os quais sobressaem problemáticas africanas específicas: o convívio do português com línguas bantos[1] aqui implica, naturalmente, que o AO seja mais claro, mais coerente; implica, também por isso, que se esteja mais atento à condição de adstrato que é a da língua portuguesa entre nós; que sejam levados em conta problemas pedagógicos relacionados com o ensino do português nos nossos contextos; que se tenha, ainda, em conta o faseamento da aplicação, que terá de articular-se às reformas educativas locais.

Ao mesmo tempo em que nos alerta para as reviengas do AO, aborda várias questões linguísticas candentes para um país como Angola e que se prendem igualmente com aspectos educativos. Fá-lo numa perspectiva comparada e radicada: com particular atenção aos problemas linguísticos africanos, da chamada ‘África negra’ – conceito que os seus textos permitem questionar, aliás. A sua posição face ao ensino e preservação das línguas nacionais é um bom exemplo de como se deve pensar nestes assuntos: sem tibiezas mas com a cabeça fria; comparando com políticas seguidas em outros países, mas sem seguidismos.

Passa depois para questões mais estritamente educativas, quer abordando princípios gerais, quer aspectos concretos em que os princípios gerais são postos à prova. Tem-se mantido vivo o debate sobre a reforma curricular e a monodocência. Como profissional profundamente envolvido com ambos os temas, Filipe Zau transmite-nos a sua perspectiva e fundamenta-a, cunhando mais ainda a actualidade das crónicas agora reunidas. E não se fica só por aí: fala da merenda escolar, do Ensino a Distância, da importância da Televisão… e consegue escrever textos bem fundamentados de forma apropriada ao grande público a que se destinam. Mostra-nos, assim, mais uma vez, que é possível escrever bem e breve com solidez.

Das questões educativas é que parte para a reflexão sobre outras, mais abrangentes, que envolvem Angola e os países da África subsaariana. Notando-se que vivemos num mundo e em sociedades em que os preconceitos étnicos e raciais continuam corroendo as relações sociais, intelectuais e pessoais, tornando-se tais preconceitos mais um empecilho para o desenvolvimento, enfrenta as questões da melanina com a mesma frontalidade que já lhe conhecemos. Desmonta, uma por uma, as ideias feitas, as falsas certezas, as pseudo-verdades que afectam a harmonia social e o avanço civilizacional – como essa da existência de uma raça negra ou branca (concebendo-se raça como um conjunto de traços bioculturais comum aos povos mais diversos que, na verdade, possuem de comum somente uma tonalidade parecida na pele).

As questões de desenvolvimento e avanço civilizacional são, de resto, outro traço recorrente que, no que diz respeito ao segundo aspeto (o conceito de avanço civilizacional), leva Filipe Zau à crítica a muitas das intervenções da comunidade internacional nos últimos anos – e dos EUA em particular.

Este livro não reuniu crónicas para repetir consensos e preconceitos. É uma obra para manter viva e qualificada a discussão sobre as temáticas que aborda. É nesse âmbito que devemos festejá-la, continuando a conversar com o autor sobre ela. Claro: depois de a lermos.




[1] Estou a usar esta palavra no plural com [s] porque é essa a sua forma correcta no português atual. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Plínio Palhano

Plínio Palhano é um desses extraordinários criadores pernambucanos cuja obra fica mal conhecida fora de um círculo ou circuito estrito. Desde poetas como Carlos Pena Filho, ou Alberto Cunha Melo, ou Ângelo Monteiro e Lucila Nogueira, até este artista plástico a arte e a literatura de Pernambuco, particularmente de Olinda-Recife, continua a constituir uma experiência instigante para estudiosos e apreciadores. Talvez recursos como a Internet estejam subaproveitados por alguns destes criadores artísticos. Atualmente foi colocada em rede uma mostra significativa, que vale mesmo a pena visitar, de quadros de Plínio Palhano. Para ela remeto os visitantes do blogue. É só clicar em Plínio Palhano