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O escritor e o prémio


Muito provavelmente, desde que foram instituídos os prémios literários suscitam polémicas, invejas, disputas e, sobretudo, falsificam a vida literária. Não me parece, porém, que o problema esteja no ato de premiar. O problema está no meio literário que é, refletindo a mentalidade dos seus atores, um meio propenso à inveja, à disputa insensata pela 'glória' (o reconhecimento), à substituição de julgamentos próprios por imposições de valores artísticos a uma dada comunidade. 

A luta por um reconhecimento fácil e público traz algumas vantagens quando bem conseguida, sobretudo a monetária, possivelmente cargos de prestígio em alguma instituição, pouco mais. O que ela nunca traz é um certificado de garantia estética. 

O problema está precisamente aí. Nenhum prémio nos assegura que o escritor que o recebeu é um bom escritor, que ficará para a eternidade porque, precisamente, escreveu de tal maneira que suscita admiração estética aos mais diferentes leitores em séculos bem distantes uns dos outros. 

Não preciso listar exemplos. Muitos são conhecidos e outros não é difícil conhecê-los. Um prémio não garante, nem que o beneficiado é poeta nem que não é. Há bons poetas que receberam prémios durante a vida e outros bons poetas que nunca receberam nenhum prémio. Não pode residir, portanto, na atribuição de um prémio a falsificação do estético a que muitas vezes ela conduz. Antes dela, nós é que já nos falsificámos, substituindo uma avaliação própria por uma atribuição exterior. 

O facto de um prémio ser determinado socialmente, a suposição de que ele foi atribuído por decisão de pessoas isentas, leva-nos a basearmo-nos na sua atribuição para fecharmos diálogos sobre a qualidade de uma dada obra. Como se deixasse de ser subjetiva a nossa avaliação só porque houve outras pessoas a decidirem como nós queríamos. Felizmente a História da Literatura desmente isso ao nos mostrar que muitos premiados não sobreviveram à sua própria morte. 

Quem, no entanto, usa prémios (ou quer usar) para firmar publicamente a qualidade dos seus versos é que falsifica o julgamento estético impondo, por via de terceiros, uma avaliação positiva da sua obra e convidando-nos a deixar de pensar pelos nossos próprios meios. 

É por este motivo que me continua a parecer a única atitude saudável, perante os prémios literários, irmos ler os livros premiados para julgarmos, por nós próprios, se nós daríamos o prémio àquela pessoa. Um poeta que precisa de ser premiado para nos convencer da sua grandeza literária, por mais que tenha sido um grande escritor, enquanto poeta já morreu. 



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