DOÇURA
Quando
a fitei extasiado,
suas mãos pálidas, mimosas,
escolhiam frutas bem cheirosas
num recanto calmo do mercado.
suas mãos pálidas, mimosas,
escolhiam frutas bem cheirosas
num recanto calmo do mercado.
E
por mero acaso (eu sei!,
senhora minha desconhecida,
Ai! só por mero acaso…)
vossos olhos belos,
plácidos e meigos,
negros, fulgurantes,
sobre mim poisaram,
- p’ra logo se afastarem
Indiferentes, distantes…
senhora minha desconhecida,
Ai! só por mero acaso…)
vossos olhos belos,
plácidos e meigos,
negros, fulgurantes,
sobre mim poisaram,
- p’ra logo se afastarem
Indiferentes, distantes…
Ao
compor na rede
a gostosa fruta,
um pouco vos baixastes
e o decote largo
do vestido azul
afastou-se lento
como onda branda
de cansado mar…
a gostosa fruta,
um pouco vos baixastes
e o decote largo
do vestido azul
afastou-se lento
como onda branda
de cansado mar…
Sem
indiscrição,
vi maravilhado
duas lindas dunas
cor d’areia fulva…
vi maravilhado
duas lindas dunas
cor d’areia fulva…
Depois,
naturalmente,
sorrindo leve, leve,
pisando manso, manso,
(ai, se eu fora as pedras
duras do caminho)
andando lentamente,
seguiste vosso rumo,
senhora, Minha Desconhecida…
naturalmente,
sorrindo leve, leve,
pisando manso, manso,
(ai, se eu fora as pedras
duras do caminho)
andando lentamente,
seguiste vosso rumo,
senhora, Minha Desconhecida…
Nesse
rosto mato
mórbido, estranho,
vi a cor suave
duns certos poentes
mágicos de Angola.
Vossa boca em sangue
(Oh! acácias rubras
mórbido, estranho,
vi a cor suave
duns certos poentes
mágicos de Angola.
Vossa boca em sangue
(Oh! acácias rubras
esplêndidas, ao sol!)
vossos olhos fundos
(Oh noites de Luanda,
de estrelas apagadas!)
vosso corpo esbelto,
flexível, dolente,
(Oh cadência doce
de batuque antigo!)
o eflúvio quente
o perfume fino,
uma claridade
astral e difusa
que vós derramais,
fizeram-me sentir
serdes vós, senhora
feliz possuidora
do divino dom
de saber amar.
Por
todo o vosso todo,
harmonioso e belo,
eu, poeta, pensei
com os sentidos ajoelhados:
harmonioso e belo,
eu, poeta, pensei
com os sentidos ajoelhados:
-
graças ao Senhor,
eis uma Mulher!
parece toda ela
transbordar de amor!
eis uma Mulher!
parece toda ela
transbordar de amor!
Este poema de Maurício
de Almeida Gomes, publicado inicialmente na Mensagem
(Gomes, 1951) , estabelece, com
máxima beleza, o ponto fulcral e final da passagem da nossa lírica urbana do
século XIX para a literatura moderna da Mensagem
e da Antologia dos novos poetas –
publicações que sintetizaram os novos modelos literários do país.
A transformação do nosso
património literário novecentista na moderna poesia angolana operou-se
inicialmente com Tomás
Vieira da Cruz – que teve, nesse instante, um papel decisivo na
transformação em causa. Geraldo
Bessa Victor é também figura importante neste contexto. Ele publica Ecos dispersos,
ou seja, um resumo da arte literária que vinha do romantismo e do realismo
angolanos e, pouco depois, Ao som das marimbas
– o advento já de uma poesia marcada pelo modernismo. Essa passagem nos mostra
o salto que se deu na altura e, logo por isso, o nome de Bessa Victor se
tornara incontornável.
Mas o caminho seguido
aqui por Maurício de Almeida Gomes, evocando embora o trabalho de Tomás Vieira
da Cruz e – menos um pouco – o de Geraldo Bessa Victor – ultrapassa-os e faz
mais do que transição. O maior interesse do poema – para além da grande imagem
daquela mulher urbana metonimizando Angola e o Amor – está precisamente em que
ele nos mostra o que a nossa memória literária tem de poético.
Quando lemos a lírica
angolana do século XIX parece-nos pouco interessante. Realmente, muitos dos
nossos versejadores não chegaram a ser poetas, ainda quando ágeis manejadores
de versos.
Esta é, mesmo, uma das
características principais a ter em conta. Mário
António chamou-nos a atenção para isso, para a importância da habilidade
técnica em Maia
Ferreira e outros dos nossos românticos. Creio que Gerald Moser também. E
ficámos por aí.
O estudo dos ritmos, da
métrica, do jogo de rimas, do incumprimento e cumprimento de regras de
versificação criando estruturas personalizadas é muito mais profícuo do que
deixa prever a ausência de estudos acerca dele – principalmente entre nós. Além
dos aspetos técnicos envolvidos isso permite-nos perceber indícios culturais de
maneira segura, mais isenta, do que explorando conteúdos através das
interpretações hermenêuticas.
Podemos ver mesmo neste
poema de Maurício Gomes o quanto é profícuo tal estudo. Ao começarmos a ler
encontramos um ritmo que nos é algo familiar – embora não exatamente igual à
provável fonte. É o ritmo dos poemas de Cesário Verde que
torna familiar aquela primeira estrofe para quem já conheça o poeta lusitano. Cesário Verde
é, coincidentemente, o grande senhor da visualidade num país de envergonhados e
de pudores muito santos. A poesia portuguesa raramente desvela o seio – o seio
é, em Portugal, uma entidade abstrata captada em modelos antigos e estrangeiros
– o do renascimento italiano, por exemplo. Talvez por isso ela apresenta, em
geral, um fraco índice de visualização. Cesário Verde,
pelo contrário, parece um grande cameraman
– para além do refinado artista da palavra e do ritmo que é também.
Ora, o ritmo da primeira
estrofe, alertando-nos para Cesário Verde, alerta-nos para a visualidade que
vai governar toda a exposição que um poema é também. Aqui, a visualização está
à altura do poeta português. E mistura-lhe a fina malandrice angolana e urbana,
que se requintava numa linguagem antiga porque nobre, porque o antigo assume
(não só na poesia) foros de nobre e respeitoso.
Gomes Leal é outro
poeta português mais ou menos da mesma época. As suas Claridades do sul foram
muito lidas em Angola no fim do século XIX – como em Portugal. É, a par de
Cesário Verde (ainda que diminuindo-lhe a luminosidade), um poeta de aguçada e
forte visualização. Os seus poemas imprimem-nos imagens visuais (e táteis e
sonoras) que nunca mais esquecemos. É o caso daquela imagem que surge numa composição que podemos
ouvir musicada e cantada pelo grupo Madredeus
em Portugal:
Quem me dera ser o trigo
Que andando pisas na eira
…
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio
Imagem, sem dúvida, muito
próxima desta nossa:
(ai, se eu fora as pedras
duras do caminho)
duras do caminho)
Ora, direis, mas este senhor vem para aqui falar
da lírica angolana do século XIX e só fala em poetas portugueses? Calma! Estou
a mostrar que a nossa lírica romântica e pós-romântica está entrelaçada com
esses poetas também, que era de grandes leituras e originalidade – ao contrário
do que se pensa – estou a mostrar isso através deste poema porque ela está toda
aqui. Vou passar a recordar-vos o quanto ela está aqui e o quanto ela é nossa.
Ao passarmos da primeira estrofe para a seguinte
vemos que o ritmo – não só a métrica – muda. A mudança é cuidadosamente
preparada (quer o autor o fizesse por método, quer por intuição): os 2 últimos
dos 4 primeiros versos da primeira estrofe têm acento rítmico interno na 5.ª
sílaba. Eles apresentam igualmente 9 sílabas métricas (na contagem portuguesa –
ou seja: até à última acentuada). No entanto o 3.º verso faz uma transição: se
dissermos rápido a primeira sílaba (como acontece na oralidade) ele conta só 8
sílabas – como os dois de cima; se dissermos todas as sílabas como são conta 9
– como o de baixo.
Nos 3 versos iniciais da segunda estrofe o poeta
brinca com os ritmos anteriores, não os abandona logo. Eles têm,
respetivamente, 7, 9 e 6 sílabas. A sequência é pouco recomendável, segundo Amorim de Carvalho,
porque junta dois versos com métrica ímpar. No entanto eles estão suportados,
ainda, por um jogo de acentos internos. O acento interno do primeiro verso da
2.ª estrofe é na 5.ª sílaba – como acontece nos dois últimos da primeira
estrofe. Viriato
da Cruz usa muito esta técnica: deixar os versos em sequências
aparentemente descuidadas, até pouco recomendáveis segundo os clássicos, ao
mesmo tempo que parece estruturar o ritmo a partir da repetição ou proximidade
do primeiro hemistíquio, marcado pelo acento interno principal. De maneira que
a sequência de 9 (n.º de sílabas do último verso da 1.ª estrofe) para 7 (n.º de
sílabas do primeiro verso da 2.ª estrofe) não fica deselegante, na medida em
que está suportada sobre a repetição do ritmo interno.
O 2.º verso da segunda estrofe retoma a
totalidade métrica anterior (9 versos) e inverte o ritmo: o acento principal
cai na 4.ª sílaba, passando a unidade rítmica de 5 sílabas para a segunda parte
do verso. É um processo que também Viriato
da Cruz não desconhece.
O 3.º verso desta estrofe tem 6 sílabas (portanto
não destoa ali, mesmo segundo o tratadista Amorim de Carvalho) e repete o
hemistíquio inicial de 4 sílabas.
A partir deste verso o ritmo dominante passa a
ser o de 5
sílabas – o de um verso popular em Portugal, no Brasil e em Angola. Urbano
de Castro – não o músico, mas o poeta do nosso século XIX – usava-o muito,
por exemplo. Maia
Ferreira também o praticou. Cordeiro
da Matta não o ignorou – embora não o cultivasse. Esse metro (5 sílabas),
que aparece em muitas músicas populares, não se repete sempre igualzinho a si
próprio. Por vezes o poeta troca-o pelo de seis sílabas, por exemplo. Mas para
logo voltar à base de 5 sílabas e jogando sempre com acentos menores. É uma
solução que também vemos em Viriato da Cruz, leia-se «Namoro» para ver como ele
joga com o ritmo de 5 sílabas métricas – sobretudo, no seu caso, inserido em
versos maiores como unidade rítmica interna.
Esta oscilação, que evita o ritmo encantatório e
sonolento da repetição, articula-se também a duas preocupações definidoras da
geração da Mensagem: a nacionalista e
a modernista.
Uma das preocupações mais fortes do movimento
modernista era com a rutura total face aos esquemas métricos herdados e que já
não correspondiam aos ritmos do quotidiano, da fala, das conversas. A
aproximação ao ritmo coloquial visava reavivar a poesia, retirar-lhe o eco
balofo de eras antigas em que só a declamação ganhava com os ritmos híper
codificados.
Em países colonizados era comum a arte literária
estar também colonizada. O veículo dessa colonização literária passava muito
pela imposição de cânones rítmicos, métricos e estrofes que, por aqui, soavam
ainda mais distantes, falsos e ocos do que na velha Europa de onde vieram. Portanto,
a libertação modernista era, nos países literariamente colonizados, uma
libertação nacionalista. A aproximação à fala reportava-nos a ritmos, entoação,
prosódia próprias, com musicalidade diferente da de outros países e
continentes. Assim o modernismo se globalizava ao mesmo tempo que permitia a
cada grupo localizar-se, radicar-se no seu país.
A nossa fala quotidiana, seja em umbundu, em
kimbundu, kikongo, português, ou qualquer outra das línguas que formam o nosso
património linguístico, é uma fala mais próxima das estruturas rítmicas bem
conhecidas pelos tocadores de marimba. Um solo de guitarra, ou viola, pode
reproduzir um pedaço de fala, mas de uma fala individual. Ouvindo marimbas
ouvimos mais do que isso, ouvimos a estrutura rítmica de uma conversa. Nas
conversas, ainda que um falante fosse monocórdico, o outro não seria,
contraporia no mínimo outra unidade rítmica. A junção das duas (e nunca são só
dois tipos de unidade rítmica numa conversa) dá uma oscilação constante em que
ritmos curtos alternam – sucessiva mas não metodicamente – com ritmos mais
longos. O resultado pode lembrar um acordeão ou sanfona quando o sanfoneiro ou
acordeonista fazem, constantemente, o instrumento encolher e alargar. Assim são
os ritmos das conversas.
A oscilação rítmica notada nos poetas
nacionalistas angolanos tem, portanto, esta dupla função de, ao mesmo tempo,
modernizar os modelos métricos vindos do passado e aproximá-los de uma fala
nossa – nossa no espaço e nossa no tempo.
Podemos agora comparar o que deduzimos a partir da
métrica e do ritmo com o que podemos deduzir a partir do vocabulário, dos
tópicos e motivos, enfim do plano do ‘conteúdo’.
É fácil observarmos que esta mescla de ritmo
popular codificado (5 sílabas) e oscilações modernistas se acompanha por um
vocabulário trazido do século XIX (o do “divino dom / de saber amar” – verso
que tem muito para se dizer dele) com outro contemporâneo.
Mas o mais interessante não será, pelo menos para
mim, confirmar a mescla. O poema surpreende-nos mais quando reparamos que o seu
autor pega nos tópicos, ritmos e vocabulário mais antigos, gastos, serôdios,
aparentemente sem qualquer interesse para nos mostrar como e em que medida eles
são poéticos, sim senhor. Ou melhor: para nos provar que podemos continuar a
nossa poesia a partir da anterior.
Podemos regressar à primeira estrofe e olhar, por
exemplo, os dois versos do meio. Quando lemos “suas mãos pálidas, mimosas”
podemos lembrar-nos de Cesário Verde, novamente, dos românticos europeus, dos
decadentistas portugueses e brasileiros, dos românticos brasileiros da segunda
geração (por vezes tão tétricos). Enfim: toda essa ‘tralha’ do sótão literário
nos vem parar, inerte, à memória. O que o poeta faz é reativá-la.
Logo no verso seguinte ele junta à imagem da dama
pálida (que nos faria pensar numa europeia dama) a continuação das suas mãos.
De facto ele fala de “mãos pálidas” e todas as mãos são pálidas quando vistas
pela sua palma. Em seguida ele nos transmite o que fazem ali tão mimosas mãos:
colhem fruta. Colhem fruta aromática (“bem cheirosa”). O aroma da fruta
traz-nos a vida de volta e leva quem pensou em damas pálidas a reorganizar a
imagem da receção. O erotismo da cena está implicitamente assegurado pelo
próprio gesto de colher a fruta. O “recanto calmo do mercado” dá-lhe o ambiente
recolhido que permite uma observação mais completa e mais íntima, bem como
alguma reação, favorável e discreta, por parte da “senhora minha desconhecida”.
A imagem da ‘musa’ vai sendo definida (e,
eventualmente, corrigida) ao longo do poema. O “rosto mato” podia ser “rosto
mate”, de cor mate ou trigueira, morena. Se de facto o poeta escreveu “mato”
aportuguesando mais ainda a palavra “mate” o sentido é esse. Mas ele pode mesmo
ter escrito “mato” para lembrar, ao mesmo tempo, essa dupla conotação com
“moreno” e “mate”. Não se trata de uma ambiguidade mas de uma ambivalência (ou
seja: não precisamos optar entre uma e outra hipótese porque elas são
cumulativas). O rosto mato lhe traz algo do aromático da fruta, do lugar de
onde vem a fruta, a liga mais à terra, enfim.
E é por essa ligação à terra, especificando-se
repetidamente a terra angolana, que o poema vai definindo cada vez mais a
figura feminina como a de uma “senhora” angolana, se não como a própria Angola.
No que, mais uma vez, encontramos uma forte proximidade com o «Namoro» de
Viriato da Cruz.
Maurício de Almeida Gomes faz isso sem deixar de
recorrer a um vocabulário antigo, a par do vocabulário quotidiano. Vocabulário
e motivos. Por exemplo o “eflúvio quente”, o já citado “divino dom”, a sintaxe
muito formal de outros tempos sublinhando o respeito (“serdes vós”). Assim o
poeta nos mostra que o vocabulário e os motivos herdados do século XIX não
precisam de ser ignorados ou destruídos para se construir a poesia angolana do
século XX. Precisam só de ser reanimados por uma reestruturação que lhes traga
a beleza que havíamos esquecido.
A passagem mais feliz do poema é também aquela em
que esta síntese estética mais equilibrada se encontra. Refiro-me às estrofes
terceira e quarta.
Essa passagem termina em clímax com a visão das “duas
lindas dunas / cor d’areia fulva”. A cor é designada por uma palavra que
reforça o vocabulário cuidado, escolhido e erudito característico da nossa
poesia antiga. A rima nuclear, ou tónica, e vocálica (dunas / fulva)
reforça a sugestão de proximidades, de similaridades, em vez de mera repetição –
como sucede com os ritmos. As vogais constroem uma alternância entre o a (médio
ou fechado, nunca em posição tónica) e o u – tirando essas duas, o i
repete-se uma vez e as outras vogais não se repetem. Evitando vogais abertas,
os dois versos prolongam a sugestão da “onda branda / de cansado mar…” que
suave e discretamente abre o decote. Qualquer leitor percebe rapidamente a
natureza cálida e personalizada dessas dunas. O que talvez nem todos os
leitores conheçam mas intensifica a poeticidade do trecho é uma adivinha angolana,
talvez usual em kimbundu, que diz mais ou menos isto:
Duas
pedras no porto [ou na praia] / dois seios no peito
Tal como fez com a lírica do século XIX, o autor
remexe na adivinha tradicional e aproxima-a mais da fluida beleza feminina. Substitui,
portanto, “pedras” por “dunas” e dá-lhes uma cor “fulva”, revendo-as num
movimento lento e gracioso.
Suspeito que não esgotei o que havia a dizer sobre o poema.
Espero, porém, ter aberto linhas de leitura que outros possam desenvolver,
acrescentar e corrigir. É o que, honestamente, podemos fazer: reanimar o texto
com leituras sugestivas, em aberto, que esperam ser completadas.
Francisco Soares
Jardins do Éden
22 a 24-12-2012.
Gomes, Maurício
de Almeida. 1951. Doçura. Mensagem.
1951, Vol. 1.
Marques, Irene Guerra and Ferreira, Carlos. 2011. Entre a lua, o caos e o
silêncio: a flor. Luanda :
Mayamba, 2011.
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