Status quo
De modo
geral, a questão colocada pela palavra «filologia» suscita uma referência
genérica à velha e a alguma nova escola filológica, mas não se toma em devida
conta a morfologia e a etimologia da palavra para refletir sobre a sua
utilidade metodológica, sobre o rumo a tomar quando estudamos a palavra, o
verbo, a linguagem, sobre a companhia a levar para esse caminho – menos ainda
sobre o sentido espiritual do nosso trabalho. Tudo foi dado por adquirido há
uns séculos atrás, aliás de forma geral com alguma leviandade ‘científica’.
Mais tarde
a Filologia passou a ser considerada uma réstia de pensamento já ultrapassado
e, portanto, o que havia a fazer era aproveitar os seus restos (revistas,
departamentos, institutos e congressos ‘históricos’) para encontrar mais meios
de publicação e financiamento para grupos de universitários(as) à procura de curriculum. Chegados aos dias de hoje, ninguém
questiona que as revistas e os congressos de Filologia se limitem a albergar
qualquer tipo de estudo sobre língua ou ensino de língua, crítica literária ou
literatura comparada, ou mesmo ensino da literatura. Isso é reflexo da total
falta de prestígio da disciplina no meio académico. A principal razão da falta
de prestígio vem sempre, em primeiro lugar, da perda de rigor, da perda de logos, precisamente. O alheamento em
relação à teorização e ao fundamento da disciplina trouxe, por consequência,
uma prática aleatória, quando não automática, de onde se ausentou o rigor
filológico na selecção, utilização e consideração das palavras, do discurso, do
verbo e das teorias.
Rigor filológico
“Rigor
filológico” é o rigor trazido pela Filologia. Apesar de chamar a atenção para a
utilidade metodológica do rigor filológico, não falo aqui apenas de “filologia”
como “a elaboração de um método” (Carena p.
200) . Com as mesmas palavras procuro apreender uma
visão ou teoria etimológicas da atividade que aplica o método; poeticamente
pensando: dos passos que fazem a existência do caminho.
Filologia é uma palavra que se compõe a
partir do termo grego philos (que
significa «amigo») e de outro termo, igualmente grego, logos, que significa «palavra» - mas «palavra» com o sentido de
«proporção», palavra proporcionada. A
Filologia é, daí, o cultivado e lógico amor pela palavra, próprio dos que
amam o estudo, a instrução, o conhecimento – ou seja: próprio
dos nobres. O filólogo é o amigo das palavras, aquele que tem gosto nelas,
que as cultiva e, portanto, as estuda.
Tendo-se
modificado por um processo de especificação, o conceito de «Filologia» surge
modernamente ligado ao estudo da escrita, levando o trabalho filológico às edições
diplomática e crítica de um texto, por exemplo. No resumo de Manuel Frias Martins, porém,
“a filologia assenta na história da(s) língua(s), na etimologia, no estudo dialetal,
nas vicissitudes da sintaxe e do vocabulário, acrescentando a tudo isto os
frutos da erudição cultural” (Martins, 1993
p. 156)
e, contemporaneamente, da Linguística e da Crítica Textual. A Filologia alemã,
a partir do Romantismo, aplicou também o termo na aceção de estudo da
literatura e da língua de um povo, ou de povos aparentados. Em países
românicos, como Portugal, circulou
também a aceção de “ciência constitutiva e estudo crítico dos textos literários”
(Martins, 1993 p. 156) . Em Croce aparece uma nuance desta perspetiva: a Filologia prepara-nos para a crítica de um determinado texto (Croce, 1994
pp. 150-151) .
Nesses países, no entanto, o termo foi tido mais na conta de estudo histórico
de uma língua, ou de um grupo de línguas afins, encontrando-se em J.
Leite de Vasconcelos um dos principais filólogos nesta aceção, partilhada
por igual com os alemães quando eles percebem “no estudo crítico o instrumento
capaz de constantemente fazer reviver aos olhos das gerações longínquas o
esplendor do antigo”, sendo a antiguidade a da mítica “juventude feliz” (Carena p.
201) .
O estudo
histórico da língua tem por trás uma crença, de raiz romântica mas que não se
deu mal no plantio positivista português, a de que a história de uma língua
revela a personalidade do “povo”, da “nação”, ou da unidade política dada como
a correspondente; se ela assenta, sofisticamente, numa visão dessincronizada,
estática, de nação ou povo, e isso não tem nenhuma razão de ser, acompanha-se,
em compensação, pelo mito da juventude feliz que paira sobre o “esplendor do
antigo”, como se pelas etimologias pudéssemos vislumbrar ou entrever uma teoria
inaugural do mundo – uma teoria que, por inaugural, é autêntica no sentido que
lhe dá José
Enes à
porta do ser (Enes, 1990) .
É quase
nesta aceção portuguesa do termo que penso quando falo em Filologia. Quase
porque falta esclarecer a via que abre a leitura etimológica ao presente, na
busca de uma solução para “o problema da origem mental da palavra”, de que fala
António
Telmo comentando H. Bergson. António
Telmo aponta o “cruzamento da filologia com a psicologia” para que a Linguística (no sentido pleno que a palavra tem no movimento da Filosofia
Portuguesa) possa dizer algo “sobre a língua primitiva” (Telmo, 1963 p. 30) . E reforça a ideia
quando garante que não há “construção linguística do passado pré-histórico que
não parta, explícita ou implicitamente, de uma teoria da palavra no homem
vivente e actual”, no qual se torna, por isso, indispensável atentarmos.
É de
especificar o caráter bidirecional e profícuo do relacionamento entre a
pesquisa da “origem mental” e o estudo da língua a partir do pensamento sobre
os significados primordiais dela. Uma ponte entre esses dois polos pode ser a
proposta por José Enes, quando ele diz que a “destrinça filológica[1] do
parentesco dos vocábulos [...] desempenha no método etimológico uma função
simplesmente subsidiária: serve só para sugerir indícios de presença da
metáfora original, que, se o for, há de continuar viva ou nos derivados de raiz
primitiva ou em outros vocábulos, sejam ou não cognatos, ou em locuções de
formação recente” (Enes, 1990 p.
35) .
A “metáfora original” continua viva, não por ser a primeira, mas porque ainda é
funcional hoje.
Biografia viva
A biografia
viva das palavras-chave para o nosso raciocínio certamente que é de fundamental
importância, o que anima a querer entendê-las na sua composição, na sua
história e na sua etimologia, como acabei de fazer com «Filologia». Mas
interessa-nos também organizar o campo semântico dessas palavras em torno de um
pensamento que as suas várias manifestações permitem configurar. Podemos
atingir assim uma “teoria” de cada palavra e estabelecer o polifónico e
momentâneo acordo que a mantém no ar. Essa visão depura-se pelo contraste entre
as aceções contemporâneas e as que a nossa criatividade ou intuição construir
com os sinais deixados pela etimologia.
Não parece,
pois, de valorizar a redução do campo da palavra «Filologia» ao estudo
histórico de uma língua, ou de um grupo de línguas afins, ilhado nas suas
cronotopias. Nem ao estudo histórico-literário – comparativo ou não – das obras
poéticas. Esse estudo histórico produz material de laboratório que usamos para
experimentar ou fundamentar parcialmente as nossas hipóteses. É necessário mas
preliminar e não deve ser feito isolando o nosso objeto de estudo, privando-nos
de uma visão de conjunto.
A filologia
como estou a concebê-la releva de um trabalho que, no interior do campo sobre
que me vou centrar, se assemelha ao de António Telmo quando assinalou, na
edição inaugural da sua Arte poética,
ao primeiro dos «Problemas filológicos» a tarefa de traduzir “Henrique Bergson” (Telmo, 1963
pp. 15-21) .
A sua conceção fazia-se nesse tempo acompanhar, de uma forma ou de outra, pelo
próprio movimento
da Filosofia Portuguesa, que dedicou sempre um lugar estruturador à Filologia
tal como a entendeu. Isso vê-se com facilidade, quer nas obras de José Marinho e Álvaro
Ribeiro, quer em Pensamento e movimento,
de Pinharanda Gomes (Gomes, 1974) , ou na “demanda
filosófica e existencial” de uma “Patriosofia”
em António Quadros (Teixeira,
1993 p. 233) ,
acompanhando-se todos com filósofos menos diretamente afetos ao movimento – por
exemplo de confessada filiação heideggeriana e tomista, como José Enes (Enes, 1990; Enes, 1983) .
Neste
conceito de filologia o pensamento, a analogia, a intuição, bem como a espiritualidade
exercem um papel fundamental. Isso, nos dias que correm, felizmente já não
choca muitos. O nosso campo, que é o da leitura, da crítica e da teoria
literárias, conhece também esta aceção, ou várias outras muito próximas dela.
Não a de Lanson
e do positivismo. George
Steiner, ao falar sobre o seu método de
leitura, diz: “começo sempre por um exercício que se chama «amar o logos»,
quer dizer logos philein ou filologia. Trata-se de descobrir, com o
auxílio de todas as ferramentas que os eruditos nos propõem, a saber os
dicionários, o sentido primeiro, ingénuo, quase inocente de cada palavra” (Jahanbegloo,
2000 p. 78) .
Não sei até que ponto o ‘sentido’ é ingénuo, muito menos inocente, mas é de
qualquer forma um sentido arqueológico e o método está muito próximo do que
falo. Steiner
diz que passa depois à gramática, “a música do pensamento”, mas uma análise
filológica já deve incluir a reflexão sobre aspetos gramaticais. Se a sintaxe
(o que ele faz equivaler à gramática) nos dá uma visão do mundo e a Filologia nos
dá a matriz dessa visão, não se pode perceber a matriz sem as inserções das
palavras nas frases e a significação que se extrai às estruturas sintagmáticas.
Paul Ricoeur, em A
metáfora viva (Ricoeur, 1983) , lembra-nos
precisamente que a metáfora não pode ser estudada apenas ao nível da palavra,
mas obrigatoriamente ao nível da frase. A própria palavra não pode ser estudada
isoladamente, mas com as frases que a integram. Talvez Steiner tenha
separado a “gramática”
da “filologia” porque os tipos de conexão entre frases (refiro-me a relações de
coordenação, subordinação, etc.) parecem, por si só, significativos. O seu
significado, porém, numa análise literária, nunca deixa de produzir-se em
articulação com os significados e mesmo a morfologia das palavras. De qualquer
modo, o que ele persegue ainda, nessa fase estruturante e inicial, é “a música
do pensamento”. Não o “verdadeiro sentido”, ou a “verdadeira intenção” do
autor, mas o feixe de sugestões que o poema vem movimentar. O que justamente há
de maior interesse na Poesia.
Não é pois
desconhecida pela crítica atual a aceção em que tomo a palavra, apesar do positivismo
e da história
literária, de que falam por exemplo Eduardo
Prado Coelho (Coelho, 1987
p. 218)
e Manuel Frias Martins (Martins, 1993
pp. 150-151) .
Há, portanto, uma Filologia para cultivar a “forma literal” (a
positivista) e outra, que me parece pertinente, que tem o objetivo oposto:
evitar a redução ao literal. A proximidade entre Filologia e Filosofia,
que foi objeto de reflexão no movimento da Filosofia Portuguesa e na sua
bibliografia, tem um fundamento filológico esclarecedor a este respeito.
Palavra com proporção
A palavra filologia, incluindo em si o grego logos, traz um outro significado, que é
muitas vezes dado como o único para o étimo, visto o facto comum de
encontrarmos logos traduzido por
“razão”. É verdade que, desde o começo da sua história, a palavra teve também
essa entrada, a par da de “conta”, “conto” ou “recolha”. Lembremo-nos, agora,
que Aristóteles
usava também logos com o significado
de “proporção matemática” (Aristóteles
p. 991 b) .
Da dupla significação
etimológica vieram duas séries de processamentos: a de “lógica, razão, faculdade
racional, proporção” e a de “discurso, relato”, segundo F. E. Peters (Peters, 1983 p. 135) . O sinónimo
“definição”, como o “relato verdadeiro e analítico” de Platão, aponta a
intersecção das duas séries e é frequente em Aristóteles.
A partir da
análise destas raízes, podemos defender que a Filologia não é só o amor pela
palavra, mas o amor pelo que nela opera, como diz o Sócrates de Platão, “a
afirmação de uma característica distintiva de uma coisa”[2].
A “razão
certa” da ética aristotélica, dita através da palavra logos,
apresenta-se também com essa função diacrítica ao ser usada como sinónimo de
«limite» e «definição» (horos). Daí que use Aristóteles a aceção de
proporção, razão matemática, de muito provável raiz
pitagórica. É com tal aceção que ataca o “problema das misturas” e atinge o
conceito de «harmonia» (Peters, 1983 pp. 136-137, 110, 95) . Por isso, como
disse Álvaro Ribeiro, a “filologia distingue-se da linguística na medida em que
seja a busca do logos, do verbo, ou da razão, na linguagem [.../...] Diremos,
noutra imagem, que a filologia será o desenvolvimento do Espírito, e nessa aceção
a consideramos também quando passa à análise da obra literária. A literatura é
já, como ensinou Teixeira Rego, «expressão do sobrenatural»” – o que era
reconhecido pelo menos desde Fílon, para o logos,
que, não significando “o Deus”, participava do seu Espírito (Peters, 1983 p. 137) .
Note-se que
a palavra “desenvolvimento” atrai na citação de Álvaro Ribeiro um caráter
etimológico e filológico muito preciso, próximo do de desenovelar, desnovelar,
desdobrar. Na linha do desenvolvimento do potencial da palavra se coloca esta
outra afirmação do pensador português, feita na mesma altura: “a filologia, tal
como foi doutrinada na obra de Aristóteles, dos peripatéticos e dos
escolásticos, permite-nos fazer a análise e a síntese dos pensamentos que se
exprimem em linguagem vulgar”. Dito de outro modo: o filólogo, ao analisar e
sintetizar os pensamentos potenciados por uma dada língua ou palavra, desdobra
em discursos explicativos, recorrendo a sistemas semióticos de segundo grau, as
possibilidades reflexivas contidas nos nexos da linguagem “vulgar” (Ribeiro,
1972) .
São essas possibilidades que permitem à Filologia destrinçar entre sinónimos,
por exemplo relacionando os campos de interseção e de afastamento.
José Enes,
no já citado livro À porta do Ser,
verbaliza com maior nitidez a ligação íntima entre esta filologia da língua e o
estudo da “literatura”, que mais especificamente procuro situar. Discordo da
tese que lhe permite associar uma “tendência para a transparência” com a
essencialidade metafórica da fala, pois seria preferível dizer opacidade metafórica da fala. Mas isso
não impugna a validação do “método etimológico”, largamente experimentado À porta do Ser. E parece-me necessária
também a “intimidade com a crítica literária” para se descobrir no estudo
filológico os sentidos postos em jogo pela “multiplicidade de recursos e o seu
refinado emprego na composição artística da linguagem” (Enes, 1990 p. 30) . Principalmente por
causa da opacidade a que me referi.
Imprecisões a-filológicas
A linguagem
crítica desatenta originou muitas vezes, na teoria da literatura, questões e
imprecisões que estão na origem de equívocos com os quais o trabalho só tem a
perder.
Isso
pode-se ver através de vários desvios semânticos, que são a base de nominações
menos corretas e, em certas épocas, fundamentais para a visão da Poesia dentro
de uma determinada sociedade, ou numa dada elite artística, intelectual e
académica. Foi o caso do conceito de poesia para os românticos em geral; é, ainda hoje, o caso da confusão entre os termos ‘poesia’ e ‘lírica’, daí
adveniente. Esta confusão gerou disparates terminológicos e problemas teóricos
vários, inevitavelmente consagrados pelo uso de muitas décadas de crítica e de
teoria, que os adotaram num sentido “prático”, isto é, sem rigor filológico.
Em A noção de literatura e outros ensaios,
por exemplo, Tzvetan
Todorov chega ao ponto de nos garantir que “Aristóteles ocupa-se da Epopeia
e da Tragédia, não da Poesia”; opõe, portanto, “romances, novelas, peças de
teatro” a “poesia”. Parece nem se lembrar de que Aristóteles exemplificava a
arte ainda por nomear com esses dois géneros e a essa arte foi que deu o nome,
precisamente, de arte poética ou de poesia (Todorov, 1987
pp. 24, 13) .
Outro
exemplo, que daqui deriva, é o da designação comum de «poemas em prosa». Como a
palavra ‘poesia’ se perdeu em certa altura do seu sentido original (Barilli, 1992
p. 89)
e se confundiu a sua significação com a de lírica em verso, chama-se aos
“poemas em prosa” poemas, para os
distinguir das narrativas (na medida em que “poema” ou “poético” é tomado na
aceção de coisa própria do discurso lírico – veja-se o citado exemplo de
Todorov) e prosa, para os distinguir
dos escritos em verso, na
medida em que “prosa” recorre na vulgarização modernista com o significado de “discurso da narrativa” (Teles,
1985 p. 24) .
De facto, o
que se procura designar é uma espécie de composição (por isso poema) lírica
que, contrariamente ao habitual, é escrita em prosa. Bastava, pois, dizer lírica em prosa, ou prosa lírica, para nomear com rigor a espécie, visto que pode haver
poemas narrativos em prosa e eles são, à mesma, poemas em prosa. O próprio
termo lírica, na sua conceptualização nos séculos XIX e XX, revela uma grande
falta de rigor filológico. A poesia lírica veio a abarcar toda uma série de
poemas que, por serem acompanhados de certos instrumentos e se prestarem
habitualmente a certos ritmos, tinham caráter fragmentário na exposição dos
conteúdos. Mas isso daria, por si, um grande livro – que não terei tempo de
escrever.
Reduzo-me
a um terceiro exemplo, de fundamental importância na crítica literária, que é o
da confusão entre «tema» e «motivo».
Lembra Karl Popper, em A
miséria do historicismo, que a “ciência emprega termos que são
denominados termos universais, como «energia», «velocidade», «carbono», «brancura»,
«evolução», «justiça», «estado», «humanidade»”. Esses termos, em literatura,
são chamados temas e não são tantos
assim.
Segundo Ducrot
e Todorov, o “tema de um ato de enunciação é aquilo de que fala o locutor” (Ducrot, et
al., 1982 p. 325) .
A definição é precisada na página seguinte (“o tema é a questão a que o
enunciado responde”) mas só tem aplicação linguística. Esta definição, inserida
no Dicionário das ciências da linguagem,
é uma tautologia[3].
Diz aquilo que se supõe desde logo a partir da origem da palavra grega.
A palavra thema, em grego, relaciona-se
radicalmente com um verbo que significava colocar,
o mesmo que dá origem a hipótese, prótese e síntese; o thema era, literalmente, o “objeto que se põe”, chegando a
significar “depósito de dinheiro”. De objeto
que se põe deriva a aceção “o que se propõe”, muito próxima do significado
de hipótese, que antigamente queria dizer “suposição”, mas hoje é uma suposição
fundamentada (deduzida ou induzida) que se propõe à discussão em determinado
campo científico. Na ciência literária, que é uma das mais antigas na tradição
europeia ocidental, o que se propõe diz respeito àquilo sobre que se propõe
falar o texto: o amor, a morte, a sorte, não muitos mais assuntos[4].
No século
XIV da era cristã o tema era ilustrado por um “texto bíblico no início para ser
desenvolvido e comentado como corolário do sermão” (Segre, 1998) . Esse texto
chamava-se tema também, por
contaminação, contágio (Ullman, 1977
p. 411) ,
ou vizinhança com a sua função de ilustrar o assunto. Ele era a imagem de
ligação entre várias abordagens ao tema.
Esta função
não é diferente da que em outro campo lhe confere a filologia de Lázaro
Carreter, para quem o tema é o “radical que permite a imediata inserção dos
elementos de flexão” (Carreter,
1990 p. 388) .
Trata-se de um significado que teve consequências para a ideia que se tem de tema enquanto fio unificador, ou imagem
congregadora de todas as partes de uma obra.
Por todos
estes motivos, entendo que não se deve confundir «tema» com «motivo», ou
«grupos de motivos», como sucedeu já com muitos ensaístas (Dupriez, 1984 pp. 449, nota 1) . A confusão foi
facilitada pela história das duas palavras e também porque em ambos os casos
estamos perante “unidades de significado estereotipado” que organizam “áreas
semânticas determinantes” (Segre, 1998 p. 107) .
Os motivos
são, relativamente ao tema, o mesmo que “os elementos da flexão” na definição
de Lázaro Carreter. Eles fazem parte da matéria, “livremente fornecida pelo
mundo que circunda o poeta”, na paráfrase que Segre faz de
Goethe; os temas integram-se no que Aristóteles, para a Tragédia, chamou de dianoia[5],
aquela conjunção de assuntos e conceitos que se entrelaça com os motivos dos
episódios para lhes criar ou sugerir conteúdos filosóficos.
O motivo
entra numa parte, ou em várias, de uma obra; o tema só se compreende a partir
da totalidade da obra, o que lhe garante o “carácter metadiscursivo” (Segre, 1998
p. 107)
e ‘holístico’.
O motivo é,
na literatura, aquilo que parece ter suscitado ou alimentado a criação sobre o
tema, a criação do poema, ou do verso, ou do episódio, ou da cena, ou do
capítulo – etc.. Ao motivo que figura a causa do poema, normalmente repetido ou
transfigurado (na íntegra ou em parte) ao longo do texto, podemos dar o nome de
motivo nuclear ou principal, ou leitmotiv. Ao
motivo que é suscitado pelo desenvolvimento do poema pode-se dar o nome de motivo secundário. Este, muitas vezes,
não se repete ao longo da obra.
A
clarificação dos dois termos acarreta efeitos colaterais, esclarecendo
confusões e imprecisões, de que dou apenas dois exemplos.
O motivo
também se costuma confundir com o “propósito”. O propósito “é a informação que
ele [o locutor] pretende trazer relativamente a este tema” (Ducrot, et al., 1982 p. 325) , não é o motivo,
pois a sua perceção resulta já de uma correlação entre tema e motivos.
Demonstrando: por uma nova maneira de relacionar o amor (tema) e o sexo (motivo
nuclear) é-nos sugerido um propósito, uma nova maneira de olhar o «assunto»[6].
Outra
confusão comum, que a clarificação feita acima ajuda a superar, é entre «tema»
e «tópico». Um tema nunca pode ser um tópico, está situado num nível acima
da classificação. Cesare
Segre, no artigo já citado, faz uma nítida distinção entre os dois termos e
conclui: “podemos pois dizer que os topoi
são motivos: o topos é um motivo codificado pela tradição cultural para ser
aduzido como argumento”. A proximidade entre os dois conceitos (tópico e
motivo) é tal que podemos dizer que a repetição de um tópico no interior
de uma obra forma uma ‘isotopia’.
[1]
Note-se a aceção muito particular que toma aí «filologia».
[2]
Teeteto, 208 c, citado de Peters, op.
cit., p. 136. Cf. Fédon 76 b
(igualmente referido em Peters): “um homem que sabe é capaz, ou não, de dar
razões daquilo que sabe?” (Platão, Diálogos,
I, 2ª ed., trad. e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João
Cruz Costa, São Paulo, Abril Cultural, 1979, p. 80).
[3]
Palavra exemplificada na mesma obra (Ducrot, et
al., 1982 p. 344) .
O seu significado no dicionário português é “tautologia / s. f. / (lóg.) proposição dada como explicação ou
como prova, mas que, na realidade, apenas repete, em termos idênticos ou
equivalentes, o que já foi dito; proposição na qual o predicado diz a mesma
coisa que o sujeito, quer em termos idênticos, quer em termos equivalentes”. A
palavra tem origem no gr. tautología,
«repetição de palavras», segundo a mesma fonte (AAVV, 1996) .
[4]
Em latim, aquilo que é assumido, o que se toma para si, razão pela qual é dado
como sinónimo de tema em português (AAVV, 1996) .
“Assumpto” compõe-se a partir de
[ad-sumo], sendo o verbo traduzido por “pegar, tomar” (Ferreira, Porto p. 1108) . O que se toma para
si é, de facto, o mesmo que vem depois propor-se à discussão, o tema.
Parece-nos, portanto, lógico ter “na Idade Média [o tema], além do significado
de ‘matéria’ [...] o de assunto tratado”, conforme lembra Cesare Segre no
artigo «Tema / Motivo» (Segre, 1998 p. 94) .
[5]
Seria essa a ideia de Panofsky, segundo Segre, que a recusa por outra causa,
por achar que há temas ao nível da “forma” e não só do “conteúdo”.
[6]
Assunto é o objeto específico de um discurso.
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