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Quando os europeus ficaram brancos


Um artigo publicado no Diário de notícias e que não vi na edição em linha (mas pode ser repescado aqui) terá passado despercebido nas redes sociais especializadas e, no entanto, refere-se a uma investigação importante para quem se debruça sobre o racismo.

O artigo, intitulado «Europeus ficaram brancos há menos de 20 mil anos», refere-se às investigações coordenadas por dois portugueses (Sandra Beleza e Jorge Rocha) que fixaram as datas da despigmentação da pele no hemisfério Norte. Pensava-se que a despigmentação era mais antiga mas agora descobriu-se que foi 'tardia': aconteceu "entre há 19 mil e 11 mil anos. Afinal, não foi há muito tempo, se se pensar que essa adaptação poderia ter ocorrido logo que os primeiros humanos modernos chegaram à Europa". 

O estudo foi publicado na revista Molecular biology and evolution e pode ser obtido em 'pdf' mediante registo e pagamento. 

A transformação genética ter-se-á dado por adaptação "às condições ambientais". Essas condições podem estar relacionadas com o fim do "período máximo glaciar", durante o qual "era possível aos humanos sintetizar" mais "vitamina D a partir da radiação ultravioleta na luz solar"; e, cumulativamente ou não, com o aumento da população "que antecedeu a emergência da agricultura". 

A despigmentação deu-se, portanto, com uma série de transformações nos hábitos e nas culturas daqueles grupos humanos. Por isso, por terem surgido juntas uma diferenciação cultural e uma diferenciação genética, era compreensível (embora não propriamente lógico) associar-se as duas transformações. A partir desta conotação, etimologicamente ingénua, se foram desenvolvendo invariantes culturais que nos conduziram, com o tempo, à noção de 'branco'. Tal noção englobava, por isso, toda uma série de sinais, traços culturais e biológicos, que surgiram juntos na história da humanidade. Por contraste, foram-se também formando as noções de 'negros' e outras afins (ou seja: determinadas pela conotação entre a cor de pele e traços culturais). 

Como sabemos, no entanto, a diferenciação genética é mais lenta que a diferenciação cultural. O que levou, muitos mil anos depois do fim do último pico glaciar, a surgirem 'brancos' fora da Europa que possuíam traços culturais (incluo, naturalmente, os hábitos aqui)  diferentes dos dos outros brancos - enquanto a sua pigmentação escurecia muito mais lentamente. 

Por esta posterior diferenciação temos uma prova contemporânea da relatividade da conotação entre cor de pele e traços culturais recorrentes - que os nossos antepassados comuns talvez não tivessem. Percebemos, então, que as culturas podem-se deslocalizar e relocalizar sem que haja, simultaneamente, uma mutação genética assinalável (ela pode, parcialmente, ocorrer mas ao longo de um período muitíssimo mais extenso). 

Por isso também, as identidades, que são instantes em determinados tempos e espaços, são marcadas pelas recorrências culturais num dado espaço e tempo. Elas serão, naturalmente, marcadas pela cultura que se vive nos espaços habitados por populações cada vez mais diversas. Em cidades, por exemplo, onde se criam semiosferas que levam os signos a comportamentos específicos daquele momento e daqueles espaços. Esses comportamentos não implicam nenhuma transformação genética, sendo as mutações genéticas determinadas por uma muito lenta adaptação ao clima (mais quente ou mais frio) e pelas eventuais mestiçagens entre populações com diferentes heranças genéticas. O que pode levar, em alguns casos, milénios a revelar-se ou a fixar-se. 

As duas séries (cultural e meramente biológica) seguem, portanto, caminhos próprios que, em certos momentos, coincidem. Por isso, por exemplo, a identidade de um homem urbano hoje, numa cidade africana como Kinshasa ou Luanda (duas cidades bem diferentes), tem muito mais intensa relação com a organização do espaço e as mutações da vida social do que com as heranças genéticas e culturais trazidas dos ambientes rurais, que funcionam mais como adstratos do que como substratos.

A partir de reflexões como esta é que me parece pertinente pensar o jogo de identidades nas nossas cidades de hoje, nossas de todo o mundo e nossas especificamente africanas ou angolanas. 


(uma leitura complementar, sobre mudanças genéticas e culturais, pode ser feita aqui)

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