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Mensagens

Distorções académicas em Angola

Fruto de múltiplas vicissitudes por que foi passando o país nos últimos 20 ou 30 anos, o sistema de ensino superior em Angola criou uma série de situações bizarras que se prestam ao descrédito geral das universidades e cursos. Um dos setores onde é fundamental intervir é o da articulação entre o grau académico obtido e a posição na carreira profissional. A distorção chega ao extremo de haver assistentes estagiários(as) com doutoramento e professores associados com mestrado apenas. Assim que qualquer universidade estrangeira tem conhecimento disto desvaloriza imediatamente o nosso sistema de ensino – e com razão. Recentemente, o Ministério e o Tribunal de Contas tornaram-se mais rigorosos e passaram a exigir que, por exemplo, para se candidatar a professor associado um docente tivesse que apresentar, pelo menos, três publicações (há instituições em que não se especifica o tipo de publicação). A abertura de concursos públicos nacionais poderá, com alguns desses critérios, corrigir...

Maka: UEA de volta

  Veio finalmente a público o número inaugural da revista Maka , revista "de literatura & artes" da União dos Escritores Angolanos. Quase sempre, o que é bom demora a fazer e foi o caso. Com um leque de colaborações em geral valiosas (há alguma mais redundante ou menos ligada à temática principal – jornalismo e literatura), subdivide-se em 7 secções: a primeira é a temática (no caso, como já disse, Literatura e Jornalismo ); a segunda é dedicada a Estudos e intervenções (com um completíssimo ponto da situação sobre «a literatura angolana tradicional e a sua recolha»); a terceira é de Homenagem (para recordar nomes da nossa história literária e para homenagear os mais velhos mais consagrados e canónicos); a quarta é de Entrevista (neste número com Dário de Melo, uma entrevista bastante completa); a quinta é dedicada ao Intercâmbio da UEA (incluindo a tradução das conferências de Toyin Adewale-Gabriel quando da sua visita a Angola e o discurso do Secretário-geral ...

Totalidade e leitura

Os conceitos instrumentais trazidos pela semiótica e pelo estruturalismo têm-se revelado úteis e plásticos o suficiente para se adaptarem à descrição e à compreensão artísticas das relações entre literatura, informática e Internet. Mas a diferença constituída pela ciberpoesia é de tal grau que nos obriga a repensar e reestruturar profundamente a semiótica e o estruturalismo, pelo menos os conceitos principais da semiótica e o conceito de estrutura, com seus agregados. É o caso da «totalidade». Até praticamente hoje, toda a leitura de uma obra partia necessariamente da sua totalidade e a ela tinha que regressar. A leitura pressupunha ter-se lido tudo num livro de arte verbal e a crítica devia abarcar, com suas explicações, a totalidade da obra – no sentido em que devia ajudar-nos a compreender como ela funciona no seu conjunto e devia, portanto, fornecer-nos uma explicação que abrangesse todo o livro. O conceito de «totalidade» é um conceito-chave para a definição da própria «est...

Intertextualização revolucionária

No auge da paixão revolucionária, a UEA (geralmente avessa a publicar literatura estrangeira) fez sair em Luanda (com dedicatória a Agostinho Neto) um instrutivo livrinho de versos intitulado  Poesia uruguaia de combate . O primeiro  poema era uma "Saudação e mensagem para 1979 // Poema circulante em Montevideo durante os meses de Dezembro de 1978 e Janeiro de 1979, editado pelo Jornal clandestino da União das Juventudes Comunistas do Uruguai como saudação e mensagem popular de fim de ano." Juntava assim um recurso (e um título) típicos do ultrarromantismo (saudações de fim de ano, apontamento das circunstâncias que deram inspiração ao poeta, etc) e um título e circunstância tipicamente políticos. A mistura era normal na revolucionarite da época. O começo do poema também nos mostra como já nessa altura a poesia revolucionária era epigonal:    Ninguém tem mais direito que nós A levantar o copo. Quem mais que nós pode brindar Por c...

O Prometeu angolano

António Jacinto explorou também o mito de Prometeu, num dos seus contos. Escrevo também porque me lembro de Pepetela no Mayombe . É uma linha de exploração a seguir, no estudo da literatura angolana, o mito de Prometeu entre os escritores nacionalistas. É lógico o aproveitamento, pois a figura mítica de Prometeu foi considerada por alguns o próprio criador da Humanidade (a partir do barro, o que traz ressonâncias bíblicas e egípcias muito sugestivas), para além de salvador e civilizador dos homens, aquele que roubou o fogo para nos dar a nós. Ele representa ess ânsia de anteciparmos o paraíso, de o fazermos vir à terra. Ora o paraíso na terra é, precisamente, um dos tópicos típicos da retórica política marxista e, como sabemos, António Jacinto (como Pepetela) era marxista. Isso traz um sentido muito preciso ao trabalho literário por eles desenvolvido em torno de Prometeu e ajuda-nos a perceber melhor as conotações simbólicas das respetivas obras. Ainda no início do conto «Prometeu»...

Benguela - pântanos

Boletim oficial do Governo Geral da Província de Angola . 372 (13-11-1852) 2:  A 5-11-1852 foi aterrado o pântano que existia a Este da Fortaleza de S. Filipe de Benguela (é o próprio Governador, José Rodrigues Coelho do Amaral, quem dá a notícia). A Fortaleza dessa época supõe-se que ficasse onde hoje funciona um serviço da polícia e onde era o quartel, frente à Igreja do Pópulo e junto ao mar. Levando em conta o desenho da costa, o Este ficaria entre a Igreja do Pópulo e o bairro do Kioche, incluindo portanto uma parte do Feijão-mistura, a zona do Hospital e o bairro em torno dele. Levando, porém, em conta o mapa  de Nicholas Bellin, de 1757, a igreja ficava em frente ao pequeno fortim, não sendo indicadas casas à volta ( http://www.cpires.com/benguela_mapas.html ) . Há, sim, casas a Nordeste (poucas) e Sudeste, com dois edifícios maiores isolados a Este do Forte de São Filipe que, nesse caso, ficaria localizado algures entre o atual Palácio do Governo e o antigo Ciclo Prepa...